Constelações: Feminismo, Feminino E Poesia

Na escola, aprendi que uma constelação é um conjunto de estrelas que se agrupam e que parecem formar um desenho, uma lógica, como se estivessem organizadas com o objetivo de delinear um cabrito, uma rainha ou um escudo. Pelo menos é isso que as pessoas estudiosas acham quando batizam uma constelação com um nome mítico ou engraçado. Cá pra mim, sempre achei que batizar constelações era uma tarefa de gente que, no fundo, não tinha crescido totalmente. Que coisa curiosa é essa de olhar para as estrelas e enxergar um bicho! E a melhor parte é que há muitas constelações: antigas, novas, gregas ou chinesas. São tantas estrelas agrupadas e próximas que eu, com minha cabeça de humanas, não consigo mensurar a grandiosidade disso tudo. Não entendo de constelações nem um pouco a mais do que lembro de ter ouvido na escola.

Mas não são as constelações materiais que estrelam a obra de Helena Zelic; em Constelações, ela fala do simbólico. Helena escreve poesia como se estivesse no terraço catando estrelas e formando desenhos espontâneos. Cada poesia vai se aproximando da outra, às vezes de um jeitinho tímido, às vezes num esbarrão, e juntas elas criam agrupamentos que brilham. E brilham pela sensibilidade, pela profundidade e pela rejeição ao infinito, pois não são poesias de infinitos forçados. E, por isso, elas caem do firmamento e vão parar no chão e no corpo de Helena.

Útero, olhos e baba. As poesias de Constelações escorregam pelas páginas com uma sede de descoberta e de novidade que empolga e provoca. Emociona de verdade, mas uma emoção surpreendida. Fazem sorrir, mas um sorriso gostoso, desobrigado.

A poesia de Helena não apenas é prazerosa, como é também aprendizado: sobre mulheres, sobre força, sobre coragem de sair do apartamento, enfrentar os medos e peitar os saberes limitadores que os outros julgam ter. É um aprendizado sobre a importância de escrever e falar, sobretudo por si e pelas outras.

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Também é impossível não identificar o feminismo em sua obra. Uma constelação inteira para a bravura das mulheres e como brilham muito mais quando estão juntas. Helena até diz que sem as outras não haveria a poesia. Sem a sua avó, sem as bruxas que escaparam da fogueira, sem as garotas estridentes que enfrentam as esquinas da vida e se fazem fortes para espalhar poesia por aí, apesar de tudo.

Acho que escrever poesia é algo cheio de grandiosidade, que muitas pessoas daquelas que batizam constelações não entendem e não conseguem praticar. Por isso a poesia de Helena é tão impressionante; porque é grandiosa, porque é tão sincera e sem pretensões, mas cumpre um papel que vai muito além de remexer nas emoções de quem a lê.

Constelações, com as poesias de Helena, vai te fazer sorrir gostosamente. Às vezes, porque constelações nomeadas são um tanto engraçadinhas. Outras vezes, porque o riso nervoso é a revelação dos sentimentos que chegam de surpresa.

Helena tem a chave da poesia, mas ela entrega, agora, em nossas mãos.

Destranque.

Jarid Arraes

constelacoes-livro-capa
Livro Constelações chega com feminismo e universo feminino em forma de poesias // Reprodução

EM NOME DA ORDEM

amor
é coisa de mulherzinha
mas também a solidão
coisa de mulherzinha feia e/ou carente
bem como as lágrimas, a dança, os backing vocals:
todos coisas de mulherzinhas,
várias delas.

a poesia
é coisa de mulherzinha
os livros de receita
o preparo do almoço
a louça suja
todas as etapas são
coisas de mulherzinhas
e somente delas.

a mistura do vermelho e do branco
que estampa objetos diversos
e roupas de bonecas
é coisa de mulherzinha.
a ponta dos dedos,
o manuseio,
a agulha e a linha,
são meticulosamente coisas
de mulherzinha.

o medo é coisa de mulherzinha
o trauma é coisa de mulherzinha
e as dores
e as ervas.

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tudo indica que não nos cabe
a palavra plena e primeira.

tampouco os superlativos:
expressamente proibidos
em nome da ordem.

*

DIAGNÓSTICO

De amor não morreremos.
De fome, de droga, de tiro
de dores, cansaço, ciúmes
acidentes e desvios biológicos,
disso tudo morreremos.

De amor não.
O amor não serve para isso
não cria vítimas por aí.

Mas confundem tudo
tomam o amor por qualquer coisa
um sopro de domingo
pronto, já insistem ser amor.
Até um soco no rosto inventaram
chamar de amor.

Mas soco dói,
quebra,
sangra,
entorta,
emudece.
Amor não.
Amor é mais bonito.

Chega das tolices
desse mundo viciado
que gira, gira, gira
faz rotas, translada
e nunca dá passos novos.
O amor nunca matou ninguém.

*

CONSTELAÇÃO

Pouso as mãos sobre meus seios
no vão central do peito,
os dedos acolhidos.
Os seios quentes, quentes
mais ensolarados
que os dias lá fora.

Gosto de tocar-me na pele
percorrer-me.
Aprendo agora que são belos,
meus caminhos.
Sóis não passam de estrelas.
Minhas mãos abraçam estrelas.

Imagem Capa: Reprodução

Helena Capriglione Zelic tem 20 anos. É estudante, escritora, comunicadora, feminista e bastante curiosa. Trabalha na Sempreviva Organização Feminista, milita com as companheiras da Marcha Mundial das Mulheres e coordena a área de literatura da Revista Capitolina. Para saber mais sobre seus projetos e o livro Constelações, acesse seu blog.

Trecho do livro CONSTELAÇÕES por Helena Capriglione Zelic. Copyright © 2016 por Helena Capriglione Zelic. Trecho publicado com permissão da autora.

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