Um Resumão Sobre Contracepção Não Hormonal Para Iniciantes

Liberdade e autoconhecimento. Podemos dizer que essas são duas palavras-chave para quem decide abandonar os métodos contraceptivos hormonais, tão enraizados em nossa sociedade, e assim entrar em contato com o seu próprio corpo para conhecê-lo e entender perfeitamente o seu funcionamento.

Mas é exatamente nesse momento em que você se questiona: utilizar métodos alternativos não é arriscado, eu não preciso ter medo? E pensando nisso, nós fomos buscar respostas, pesquisando sobre o tema e batendo um papo com a Marcela Campos, que encantada com as inúmeras possibilidades da vida, estuda Jornalismo na Universidade de São Paulo ao mesmo tempo em que cursa Saúde Reprodutiva Holística no Justisse College, e se tornou uma especialista em contracepção natural.

Vamos falar então sobre o que você precisa saber para adotar um método de contracepção não hormonal? Bom, a primeira coisa é entender que existem 3 diferentes categorias de métodos contraceptivos: métodos de barreira, métodos hormonais e métodos naturais. Métodos de contracepção não hormonais são os métodos de barreira e os métodos naturais.

Os métodos de barreira são camisinha feminina e masculina, DIU de cobre, diafragma, esponja contraceptiva, capuz cervical e espermicida. Dentre os métodos hormonais temos o anticoncepcional oral combinado, minipílula de progestina, DIU Mirena, anel vaginal e adesivo, injeção e implante progestâgenio.

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Já entre os métodos naturais há dois métodos diferentes: os métodos naturais comportamentais e os métodos de percepção da fertilidade. Nos métodos comportamentais temos a famosa tabelinha e o coito interrompido (quando o parceiro não goza dentro da vagina). Nos métodos de percepção da fertilidade temos o sintotermal, MOB (Método da Ovulação de Billings), Justisse Method e Creighton Method.

Para ficar mais fácil de visualizar, a Marcela nos ajudou a montar esse infográfico com os métodos e taxas de eficácia.

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Referência: Jornal do Campus
Por que provavelmente você nunca ouviu falar desses métodos?

É interessante olharmos um pouco para a forma com a qual nós, mulheres, fomos educadas e como o incentivo à percepção do próprio corpo não é uma constante se lembrarmos do que aprendemos na escola. Hoje, porém, as coisas estão mudando, e o conhecimento do corpo já faz parte do currículo escolar nas disciplinas de ciências e biologia, mas, como conta Marcela, a abordagem ainda costuma ser bastante distante e impessoal.

Para ela, “o resultado disso é que temos alunos fazendo provas sobre o conteúdo decorado, mas que não entendem que tocar o próprio corpo é parte do desenvolvimento e autodescoberta humanas, ou acham que há algo de errado com seus corpos e secreções”. Como formanda na área de saúde reprodutiva, Marcela acredita que seria incrível se profissionais dessa área pudessem trabalhar junto com professores e psicopedagogos para descobrirem uma abordagem que contemple tudo o que os alunos precisam saber, englobando principalmente, além do sistema reprodutor, os dilemas emocionais, o prazer e a autodescoberta.

A partir do momento em que as mulheres enxergam a necessidade de olharem mais para si mesmas, percebem – e se espantam – que estão muito desconectadas com os próprios corpos, com suas escolhas e com seus direitos. Para Marcela, existe nesse tópico o que ela chama de ‘radical liberdade contraceptiva’. Esse termo significa “primeiro, ter a chance de fazer uma escolha reprodutiva – eu quero ter filhos? Quero tê-los por meio do meu corpo? Quero sequer ter uma vida sexual ativa? Perguntas básicas que ainda são negligenciadas, especialmente às mulheres, das quais se espera que a resposta seja sempre um sonoro ‘sim’. Além disso, a ‘radical liberdade contraceptiva’ envolve o direito (e dever!) básico humano de estar informada sobre o que passa ao nosso corpo”.

O que acontece com a maioria das mulheres é não ser devidamente informada pelo seu médico sobre todas as opções contraceptivas às quais temos acesso atualmente, o uso correto de cada uma delas, suas taxas de eficácia e, essencialmente, todos os seus efeitos positivos e negativos.

Cada mulher deve se conhecer para conseguir decidir qual o melhor método para ela, considerando o grau de dificuldade de utilização e os demais fatores que o envolve

Cada mulher deve se conhecer para conseguir decidir qual o melhor método para ela, considerando o grau de dificuldade de utilização e os demais fatores que o envolve, e a dúvida naturalmente gera muitos medos: de não funcionar, de engravidar, de fazer mal; e esse conjunto de medos é um dos empecilhos para que essa mulher opte por um método mais alternativo.

“Todos esses medos têm uma só fonte, que é a desinformação. Mulheres têm medo porque não sabem como funciona o processo de concepção e como evitá-lo ou favorecê-lo, porque não sabem como funcionam seus ciclos, por terem iniciado uma cartela de pílula muito cedo ou porque não sabem quais são as causas metabólicas de suas dores e sintomas físicos que causam incômodo. Não sabem porque essa informação não está disponível às claras, porque não foi devidamente investigada ou porque nos tratam de forma condescendente. Mas também é nosso dever e responsabilidade tomar as rédeas de nosso corpo e ir atrás dessa informação. É importante fazer isso no nosso próprio tempo e estar segura do que se faz, sem sentir culpa ou pressa. Quem se conhece não tem medo”, enfatiza Marcela.

Optar por um método não hormonal é mergulhar em si mesma, é perceber que a fertilidade faz parte da sua jornada

Mas qual o momento certo para sair da contracepção hormonal, sem medo de assumir riscos? Esse é um questionamento comum entre nós, que estamos cansadas da pílula ou sofremos demais com seus efeitos colaterais. Segundo Campos, a autocompaixão e o domínio absoluto de um método de barreira são fundamentais nesse momento.

“O primeiro elemento é [necessário] para que o processo de transição e aprendizado seja tranquilo, sem culpa e desesperos, e, principalmente, sem uma tonelada de pílulas do dia seguinte. O domínio do uso de um método de barreira é essencial – se você pretende usá-lo daqui pra frente, precisa ter certeza que sabe como funciona, e se pretende praticar algum método natural, vai precisar usar um de barreira durante a transição e período de aprendizado”.

É importante saber mais sobre a pílula

Não tem como negar que sim, a pílula foi uma conquista importante na história feminina e é uma ótima opção para muitas mulheres, porém, a partir do momento em que os métodos não hormonais são preteridos em função dela, por oferecer praticidade de uso e pela alta lucratividade que a acompanha, a saúde das mulheres fica prejudicada. Além disso, muitas vezes, o anticoncepcional é usado para esconder um problema.

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“É importante ressaltar o uso dos anticoncepcionais orais como máscaras para desequilíbrios metabólicos e reprodutivos que deveriam ser propriamente investigados e tratados – como é o caso da dismenorreia, tensão pré-menstrual e síndrome dos ovários policísticos, por exemplo. Às mulheres é dito que são ‘complicadas assim mesmo’ e que essa cólica que te impede de ir ao trabalho ‘é só o inferninho mensal chegando’, levando-as a um embate autodestrutivo com seus próprios corpos”, o que negligencia a verdade como diz Marcela.

Quando você se propõe a conhecer o seu corpo, pode-se surpreender ao descobrir que o método contraceptivo que usou por muitos anos (ou ainda usa) não é o ideal para você, ou que ele a está impedindo de você saber o que acontece com o seu ciclo menstrual, ou que ainda a pílula, o adesivo e o anel vaginal, por exemplo, estão diretamente ligados à sua depressão – como revelou recentemente uma pesquisa feita pela Universidade de Copenhagen, que afirma que existe um grande risco das mulheres, principalmente as adolescentes, que tomam contraceptivos orais combinados e das que usam minipílula de progestina a ficarem depressivas devido a correlação entre esses contraceptivos e o diagnóstico da doença como um efeito adverso de seu uso.

Os primeiros passos para aderir a métodos de contracepção não hormonal.

Optar por um método não hormonal é mergulhar em si mesma, é perceber que a fertilidade faz parte da sua jornada e que seu ciclo não precisa ser interrompido para que você se sinta melhor porque ele representa uma fase natural – e importante – da sua vida como mulher. A percepção da fertilidade está ganhando destaque quando falamos sobre contracepção não hormonal por se tratar de métodos que interpretam como o seu corpo está realmente funcionando.

De acordo com Marcela, para uma mulher se decidir entre os 3 métodos mais conhecidos – Sintotermal, Billings e Justisse – é preciso que ela comece a estudar seus sinais primários como muco cervical, temperatura basal e checagem do cérvix para determinar o início e o fim da janela fértil.

Não utilizar hormônios é assumir o seu corpo como ele é, o que não significa que o processo de transição seja fácil

“Se essa mulher decide praticar esse tipo de contracepção, o mais interessante é procurar material sobre como funciona cada um dos métodos e escolher o que mais se adapta ao seu estilo de vida – é tranquilo, para você, ter horas regulares de sono? Medir temperatura basal todas as manhãs? Qual tipo de classificação de muco é de mais fácil compreensão? Depois de conhecer as regras dos diferentes métodos, é hora de colocar um deles em prática. Pode ser que funcione na primeira tentativa ou pode ser que a mulher decida dar uma chance a métodos diferentes. O importante é não misturá-los e tentar fazer um bem-bolado de métodos: cada um tem suas regras de acordo com suas metodologias e é essencial seguí-las”.

Não utilizar hormônios é assumir o seu corpo como ele é, o que não significa que o processo de transição seja fácil, e o aparecimento de acne, oleosidade da pele e cabelos, perda ou ganho de peso, volta das cólicas menstruais e dores pélvicas ao longo do ciclo são algumas das mudanças que podem se manifestar. Mas é uma questão de adaptação e, se necessário, de outro tipo de tratamento, com a ajuda de ginecologistas, endocrinologistas, instrutores de saúde reprodutiva e naturopatas, contra as condições médicas que estavam mascaradas pelos contraceptivos hormonais.

“Os métodos contraceptivos não hormonais – os métodos de barreira, percepção da fertilidade ou comportamentais – permitem que tenhamos ciclos e que os conheçamos, saibamos como o nosso corpo funciona. Isso é informação preciosa para tomarmos decisões mais claras a respeito da nossa saúde reprodutiva. Além disso, o incentivo de uso da camisinha e a incorporação dela como uma praxe do ato sexual desacelera muito a disseminação de DSTs”, como explica Marcela.

E sem esquecer: a ajuda de um profissional é válida na transição, mas você é a grande protagonista dessa descoberta!

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Livro “Taking Charge of Your Fertility”, da Toni Weschler
Para saber mais e estudar sobre o assunto:

Assista esses vídeos da Marcela publicados pela Comum, na matéria da Anna Haddad. Mergulhe de cabeça no blog da Carolina Zanelli, que explica como tudo funciona. Leia o livro “Taking Charge of Your Fertility”, da Toni Weschler (em inglês). Acesse os sites do Justisse e do Sensiplan.

Imagens: Time Modefica

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