Qual Espaço das Mulheres na Crítica de Cinema?

As discussões sobre a representação feminina em frente e por trás das câmeras está pegando fogo, mas você já parou para pensar sobre qual o espaço das mulheres entre quem pensa, escreve e fala sobre cinema? Dois estudos recentes colocaram em números o que as pessoas que lêem sobre cinema ou são espectadoras mais atentas já desconfiavam: se a indústria cinematográfica é dominada por homens brancos, o mesmo pode ser dito sobre a crítica.

Comecemos pela pesquisa do Centro de Estudos sobre a Mulher na Televisão e no Cinema da Universidade Estadual de San Diego, que avaliou mais de 4,1 mil críticas produzidas por 341 profissionais e veiculadas na mídia impressa, online e televisiva dos Estados Unidos entre março e maio de 2018. De acordo com o levantamento, homens representam 68% dos críticos americanos e produziram 71% das resenhas veiculadas. Eles são maioria em todos os cargos (editor, crítico, freelancer…), em todos os tipos de veículo (jornais, revistas, sites, TV) e produzem mais críticas do que as mulheres sobre filmes de todos os gêneros, do horror ao drama.

A outra pesquisa, publicada pela Annenberg Inclusion Initiative da Universidade do Sul da Califórnia, fez uma análise ainda mais abrangente: 19,5 mil críticas de 1,6 mil profissionais sobre os 100 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos em 2017. A conclusão foi que 77,8% destas críticas foram feitas por homens, contra 22,2% feitas por mulheres. O recorte de raça, tão fundamental nas discussões sobre gênero, é o que mais impressiona: 82% de todas as resenhas têm autoria de pessoas brancas contra 18% de pessoas que integram minorias raciais e étnicas. Isto considerando que estas minorias formam 38,7% da população americana, de acordo com o Censo.

Pesquisas como estas são mais difíceis de se encontrar no Brasil, já que as gringas se baseiam no agregador de críticas Rotten Tomatoes, que ainda não tem uma versão brasileira. Mas não há dúvida de que situação se repete por aqui, com menor número de mulheres nos quadros de críticos, principalmente em grandes veículos, e um permanente esforço por espaço igualitário em mesas de debate e júris de festivais.

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O que essas descobertas significam?

O momento é de reflexão sobre qual o impacto da maior parte da conversa sobre cinema estar sendo produzida por um mesmo grupo demográfico. Um dos argumentos defendidos é o de que filmes dirigidos e estrelados por mulheres – Uma Dobra no Tempo e Oito Mulheres e um Segredo são os exemplos mais citados – poderiam ter recebido críticas mais favoráveis se um maior número de profissionais femininas tivesse a chance de escrever sobre eles.

É uma ideia da qual tendo a discordar (e eu mesma, aliás, fiz resenhas bem pouco entusiasmadas sobre ambos os filmes). Embora as experiências pessoais do crítico (e do espectador) interfiram na forma de ver uma obra de arte, e estereótipos de gênero atuem de forma subconsciente no nosso julgamento (como vemos acontecer com a crítica de desfiles de moda, por exemplo), nada disso deveria nos tornar incapazes de apreciar ou se identificar com uma história. Por isso, precisamos ter um cuidado ao supor que as resenhas mistas destes e outros longas se devem apenas à falta de mulheres na crítica. Esse pensamento, de certa forma, reforça a ideia de que histórias femininas são menos universais do que as masculinas.

 

Qual o impacto da maior parte da conversa sobre cinema estar sendo produzida por um mesmo grupo demográfico?

 

Sim, é importante que os filmes dirigidos e estrelados por mulheres possam ser julgados por um grupo diverso de pessoas, incluindo aquelas que têm identificação mais direta com os temas abordados. Entretanto, precisamos desconstruir estereótipos de gênero que podem prejudicar um julgamento positivo sobre mulheres e seus trabalhos, e até mesmo limitar seu campo de atuação na prática. Também é importante que as profissionais que atuam como críticas de cinema não estejam limitadas a falar apenas sobre filmes com direção ou protagonismo feminino. O ponto de vista de uma jovem crítica negra deve ser considerado válido tanto em relação a um filme de Ava DuVernay quanto de Ingmar Bergman, e ela deve ter o direito tanto de elogiar quanto de criticar filmes que sejam centrados ou realizados por mulheres.

Buscar maior diversidade na crítica significa assegurar o básico: oportunidades iguais para os profissionais da área. Significa assegurar que as mais diferentes vozes e perspectivas possam ser ouvidas, o que enriquecerá as reflexões sobre cinema e a própria produção audiovisual. Abaixo, conheça três iniciativas que dão destaque às mulheres na crítica:

 

1. Elviras
Coletivo formado no Brasil em 2016, reúne mulheres que escrevem críticas de cinema e/ou produzem reflexão teórica sobre o audiovisual. Acompanhe no Facebook, no Twitter e no Instagram.

2. Cherry Picks

Alternativa ao Rotten Tomatoes, este site americano reunirá apenas críticas escritas por mulheres, além de podcasts e entrevistas. Por enquanto, está disponível no formato de newsletter, que você pode receber inscrevendo-se no site. Acompanhe também no Facebook, no Twitter e no Instagram.

3. Alliance of Women Film Journalists
Fundada em 2006, é uma organização sem fins lucrativos que promove uma série de atividades, incluindo o EDA Awards, prêmio anual que avalia o que houve de melhor e de pior no que diz respeito à mulher no cinema. Acompanhe os textos no site (em inglês), além do Facebook e do Twitter.

E você, o quanto acredita que os estereótipos de gênero podem, realmente, interferir na crítica de cinema? Deixa sua opinião nos comentários e vamos conversar mais sobre isso!

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