Da Universidade às Lojas: a Necessidade de Desconstruir as Percepções do Corpo Gordo

“Backstage O Backstage é o podcast do Modefica para falar sobre moda a partir de diversos pontos de vista e para muito além do que vemos nas passarelas, nas revistas, no Instagram e nas manchetes. Sempre com convidadxs especiais contando sua trajetória, e junto com nossa editora Marina Colerato, o Backstage debate indústria, carreira, questões de gênero e raça, temas quentes e futuro da moda. Ouça no Spotify ou iTunes.

Em mais um episódio do Backstage, quem está conosco é Bruna Salles, historiadora de formação, professora de moda e mestranda em História pela Puc-SP com uma pesquisa focada na história do corpo, com recorte no corpo gordo dos séculos XX e XXI. “Não tem como não vincular o tema à moda”, enfatiza ela. Ao adentrar este campo no meio acadêmico, logo ela se defrontou com uma conversa que já tivemos no Backstage em outro episódio: a dificuldade da academia em enxergar a moda como campo de estudo e para além de fotos do Instagram ou algo que transpasse . No episódio, o papo passa sobre o corpo gordo feminino na academia, nas vitrines, no mercado de trabalho e nas concepções já estabelecidas da sociedade. 

 

 

As pessoas não entendem quando Bruna diz que o tema do seu mestrado é a história do corpo. O campo de estudo é relativamente novo, do século XX. Depois de ter suas estruturas estudadas, o corpo começou a ser visto de forma mais humana, mas rapidamente a visão sobre o corpo alcançou outro extremo: a “obsessão” das pessoas pela aparência e a vontade de ser a “melhor” versão de si mesma. A partir dessa mudança, novas teorias começaram a surgir, mas, segunda Bruna, ainda são poucas as pessoas que estudam o tema no Brasil. Em se tratando do corpo gordo, e as relações sociais para com ele estabelecidas, ainda há um vasto campo a ser desbravado.  Bruna cita como exemplo a ideia de que o corpo gordo não deveria ser: “é comum o acharem doente, desleixado, frustrado, um corpo que não quer ser aquele corpo”.

Com os seus alunos de moda ela encontra, invariavelmente, as mesmas ideias cristalizadas e resistência de enxergar outras possibilidades para o corpo gordo: “Na cabeça deles, quando uma pessoa gorda vai num shopping comprar uma roupa e ela não encontra, a culpa é dela”, relata, “e o gordo tem que ter vergonha na cara e emagrecer”. Apesar da concepção ser comum, ela afirma que não é normal falar que um determinado tipo de corpo não é um “corpo certo”. Bruna também busca quebrar a negatividade da palavra “gorda”: “é um adjetivo como magro, alto, feio. A gente só precisa normalizar”. E faz um adendo: evite eufemismos como plus size – que na verdade é um termo mercadológico -, fofinho, fortinho, ossos largos. 

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A necessidade de normalizar o corpo gordo

Na academia, o corpo gordo ainda é visto à parte dos outros corpos trabalhados na moda, assim como o corpo deficiente. Por um lado, Bruna relata o desinteresse dos alunos: “os que entram para fazer moda continuam querendo ser estilista pra fazer roupas até o 42. Você se tornará mais um. Não importa quão sustentável você seja, está fazendo mais do mesmo”. Marina reforça aos ouvintes, alunos de moda, que o campo está precisando de uma série de outros profissionais; para além do ponto cego do estilista, é necessário outros papéis no meio para construir outros debates. 

Já no lado acadêmico, Bruna pontua a necessidade de estimular os alunos a trabalharem com o corpo grande. Aos professores: não avise que vai trabalhar com o manequim gordo, apenas coloque-o na grade, como faria com um magro. Fuja dos padrões altos, magros, brancos. “Coloque outros corpos ali também, normalize isso dentro da sala de aula para os alunos ficarem cada vez mais acostumados a verem aquilo e tratarem aquilo como o que vemos na rua”, reforça. 

A importância de fortalecer esse discurso nas faculdades está justamente em trazer novas mentalidades para o mercado, que tanto carece de diversidade. Bruna afirma que até mesmo no meio plus size existe essa padronização. Ela provoca: que corpo gordo está sendo usado nas campanhas? O “ideal” é sempre o ampulheta, sem barriga, com bunda e peitos grandes, com a cintura marcada – que é uma tendência desde o século XX. A mulher “triângulo invertido”, com barriga, e tantas outras formas naturais, ficam de fora deste padrão. “Você faz um editorial lindo, com modelos lindas, mas você, gorda, não se vê ali”, afirma. Bruna explica que o padrão sempre vai existir, mas que é necessário mostrar outras formas de viver bem. 

A conversa se estende até o mercado de trabalho, afinal, o corpo gordo ocupa (ou melhor, não ocupa) todas as esferas da sociedade. Bruna diz que nunca passou pela experiência de perder uma vaga de emprego pelo seu corpo, mas que conhece histórias de mulheres que foram desconsideradas em certas vagas porque “não caberiam no uniforme” ou porque “produziriam roupas que não cabem nelas”. Ela se atenta a uma questão em especial: é importante falar sobre o corpo gordo porque existem muitos aspectos comuns na vida de pessoas gordas que as magras não tem a menor ideia. “São coisas como entalar na catraca do ônibus”, explica, “pessoas não gordas não sabem que isso existe”. 

Refletindo sobre como a moda é um reflexo do nosso mundo, Bruna completa que é por isso que é importante estudá-la, pois ela está muito ligada à sociedade. Marina comenta sobre como é difícil quebrar o paradigma que liga a moda à futilidade, enumerando as diversas formas que tratamos do assunto aqui no Modefica: pelo trabalho escravo, mudanças climáticas, emissões de gases do efeito estufa. A moda está em tudo. Para fechar com chave de ouro, Bruna oferece às pessoas iniciantes no papo dicas de perfis para seguir, livros e filmes para conferir.

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