Design Empático Como Ferramenta Para Promover Sustentabilidade na Moda

Embora a sustentabilidade seja uma preocupação global e venha ganhando cada vez mais espaço de discussão e aplicabilidade, sustentabilidade na moda ainda está longe de adentrar debates tanto na sala das casas quanto nas salas das diretorias comerciais das grandes empresas. E por popular entende-se: não é um tema amplamente conhecido e disseminado na sociedade. Quando falamos especificamente sobre comportamento de consumo, alguns dados nos provam isso.

Existem vários estudos que confirmam e analisam a existência de uma lacuna entre a intenção de compra e o comportamento de real de compra de produtos de moda considerados com apelo sustentável. Além dos questionamentos relacionados a preço, qualidade, informações suficientes sobre o produto e disponibilidade, o design também é algo a considerar. O que chamaremos aqui de “consumidor padrão” ainda percebe “moda sustentável” como roupas que carecem de estilo, tornando difícil competir com marcas orientadas por preço e tendências. Nem todo mundo compreende que sustentabilidade normalmente vem atrelada ao design atemporal, fugindo propositalmente das tendências passageiras e de produto que são “essenciais” em uma temporada e “ultrapassados” alguns meses depois.

Contudo, independente de todas essas questões permeando a percepção das pessoas sobre marcas que já trabalham sustentabilidade em seu DNA, existem as marcas que procuram inserir práticas sustentáveis em seu dia a dia, mas falham miseravelmente. Mais precisamente porque encaram sustentabilidade como tendência, sem perceber a real imperatividade da questão. E, muitas vezes, para ambos os tipos de marcas, algo essencial falta: uma real conexão emocional com o seu público.

Desde o design às práticas de uso de um produto, as emoções estão profundamente relacionadas e desempenham um papel importante no consumo. A comunicação de moda pensando em sustentabilidade muitas vezes tenta alcançar emocionalmente o consumidor apelando para o senso coletivo – ajude a preservar o meio ambiente ou combata a exploração dos trabalhadores na indústria. Porém, esse tipo de mensagem genérica tem se mostrado insuficiente para realmente envolver e engajar um maior número de pessoas.

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Isso acontece, também, porque marcas estão focadas em redesenhar produtos existentes e, ao mesmo tempo, manter o apelo comercial, inserindo uma ou duas práticas entendidas como “sustentáveis” no seu processo produtivo, por exemplo. Mas as necessidades emocionais das pessoas estão, no mundo atual, muito além da funcionalidade de um produto e não encontram relação num senso de coletivo abstrato. A fim de compreender de forma mais complexa e eficaz essas necessidades, surgiu o conceito de design empático.

Para pensar e fazer um design empático geralmente é preciso uma pesquisa de imersão direta das necessidades e experiências dos usuários, permitindo intimidade e uma experiência mais rica para o designer/pesquisador. Uma conexão deve ser estabelecida entre o usuário e o designer. Isso também pode ocorrer em abordagens de co-criação, traduzindo as necessidades de quem vai usar aquela roupa em produtos altamente personalizados.

O conceito de empatia está relacionado a considerações ético-filosóficas sobre o caráter do comportamento humano. De acordo com o pesquisador M.L Hoffman, empatia pode ser definida de duas maneiras: a consciência cognitiva de seus estados internos – percepções, sentimentos, intenções – e a resposta afetiva vicária a outra pessoa. Em palavras gerais, a empatia pode ser vista como a experiência de compreender a condição de outra pessoa a partir da perspectiva da mesma. O famoso se colocar no lugar do outro.

Dessa forma, o design para empatia exige que o designer ouça seu público e sua comunidade, desenvolvendo uma abordagem centrada no ser humano para o processo de criação. As pessoas criam conexões com os produtos de diferentes maneiras, através de seus valores pessoais, valores emocionais, memórias afetivas e construção do eu. Quando a conexão com os produtos se desenvolve até o estágio em que o item ganha valor pessoal simbólico e sentimental, o produto se torna significativo.

Alguns autores concordam que, estimulando uma relação mais empática entre o usuário e a roupa, é mais provável que o usuário cuide dela, além de valorizá-la aumentando sua vida útil e, consequentemente, reduzindo o consumo excessivo. Além disso, os atributos estéticos das roupas têm um efeito emocional sobre quem as usa. É por isso que é tão importante criar produtos que façam os usuários se sentirem bem consigo mesmos.

A fim de promover melhores relações entre marcas e público, tanto numa perspectiva de comunicação quanto de produto em si, o design empático é uma ferramenta poderosa. Quando o designer trabalha a empatia neste contexto, ele melhora a conexão usuário e produto, graças ao profundo entendimento das emoções, expectativas e experiências de quem compra sua peça. Essa abordagem pode levar a um comportamento positivo em relação aos debates de sustentabilidade na moda, não apenas em termos de design, mas também com base na resposta emocional da pessoa à forma como a moda está sendo produzida hoje. [1]

Quer testar seu nível de empatia? O Empathy Quotient é um teste validado academicamente e criado pelo pesquisador Simon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge. Você pode acessá-lo clicando aqui.

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