Duas Assistentes Sociais Compartilham suas Trajetórias no Serviço de Aborto Legal

Trabalhar na área da saúde não é uma tarefa fácil. No caso do aborto legal, além de lidar com pacientes fisicamente e mentalmente fragilizados, os profissionais também precisam enfrentar mais um desafio: o preconceito de parte da sociedade, que vê com maus olhos a legalidade do procedimento. Mas nada disso foi problema para a assistente social Irotilde Gonçalves, 74, e é para Fernanda Avelino, 33, em ajudar mulheres que buscam o serviço de aborto legal na cidade de São Paulo.

Tilde, como prefere ser chamada, fez parte da primeira equipe de aborto legal do Brasil, formada em 1989, no Hospital Municipal Doutor Arthur Ribeiro de Saboya, a qual integrou por cerca de 37 anos. Aposentada desde 2016, foi aos 34 anos que Tilde – já assistente social do hospital na época – recebeu um convite especial: fazer parte do primeiro time de profissionais especializados e que seria responsável por atender mulheres que optaram pelo aborto nos três casos permitidos por lei.

A trajetória profissional de Fernanda começou em 2008 nos serviços de violência contra crianças e adolescentes, onde aprendeu a importante tarefa de escuta e apoio às vítimas. Mesmo sem ter contato com o tema durante sua formação, assuntos relacionados à violação de direitos, principalmente ao da mulher, sempre despertaram seu interesse. Há 3 anos, ela se ofereceu para fazer parte da equipe de atendimento do Hospital Municipal Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, como uma das assistente sociais do serviço de aborto legal.

Tilde tinha contato com mulheres que buscavam pelo procedimento, ainda inexistente naquela época, ou que chegavam por lá em estado grave ao tentarem o auto aborto, o que, muitas vezes, provocavam até mesmo a morte prematura. Com a lei que já garantia os direitos das mulheres e a equipe formada no Hospital Saboya, popularmente conhecido como Hospital do Jabaquara, as coisas começaram a mudar. Com olhos marejados, Tilde conta com orgulho que já ajudou mais de 500 mulheres a conquistarem algo simples em suas vidas: o direito de decidirem o que fazer com seus próprios corpos. As mulheres, de diversas regiões, raças e classes sociais, chegavam de várias formas, por meio da Delegacia da Mulher, do fórum, de UBS (Unidade Básica de Saúde) e de outros hospitais, que não realizavam o procedimento e encaminhavam para a equipe do Saboya.

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Uma grande perda para a sociedade, principalmente para nós, mulheres, foi em dezembro de 2017, quando prefeitura de São Paulo depois de 3 décadas de atendimento decidiu desativar o serviço de aborto legal no Hospital do Jabaquara com a justificativa da aposentadoria dos profissionais que atuavam no programa.

O Hospital Vila Nova Cachoeirinha também passou por problemas parecidos. Um tempo atrás, o antigo médico se aposentou e a equipe precisou ter persistência até encontrar a atual médica do ambulatório para continuar com o espaço de atendimento. “É difícil encontrar profissional que tope, saiba fazer e faça mesmo o procedimento. Muitas vezes ocorre a culpabilização da própria vítima e as mulheres trazem isso pra gente. As próprias mulheres procuram outro atendimento porque não se sentem seguras com alguns profissionais. Eles até podem realizar o procedimento, mas quão seguro, humanizado vai ser?”, questiona Fernanda.

Pela legislação brasileira, o aborto é permitido nos casos de estupro, risco de vida da mãe e anencefalia e não há limite da idade gestacional. No entanto, o Hospital Vila Nova Cachoeirinha e outros da rede credenciada só realizam o procedimento até a 20º semana de gestação ou até a 22º semana desde que o feto não pese mais do que 500 gramas. Essa especificação é baseada na Norma Técnica Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes do Ministério da Saúde, embora não é um requisito impeditivo e muito menos interfere no cumprimento da lei.

No dia 28 de agosto, o Ministério da Saúde publicou a portaria nº 2.282, assinado pelo ministro interino da saúde, Eduardo Pazuello, com novas regras para os procedimentos de aborto legal dificultando o serviço que já é limitado. De acordo com a portaria, nos casos de violência sexual, a equipe médica será obrigada a notificar a polícia e preservar as possíveis evidências do crime de estupro, como fragmentos do embrião ou feto para serem entregues à autoridade policial. Além disso, a equipe médica deverá oferecer à vítima a visualização do embrião ou feto por meio da ultrassonografia. No mesmo dia, a deputada Jandira Feghali e outras 9 deputadas protocolaram o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 381, que depende da aprovação da Câmara e Senado, para sustar a atual portaria da Saúde.

 

A conversa

Ao chegar no Hospital Saboya, após a triagem, a primeira pessoa com quem as mulheres tinham contato era Tilde. A assistente social considera este o momento mais importante, a conversa. E não pense ser uma tarefa simples: acolher e ser um ombro-amigo para essas mulheres é um processo delicado e sem hora para terminar. A profissional ressalta que o trabalho é diferente em uma mulher que foi estuprada, que passou por um grande choque, da gestação de um bebê anencéfalo, um outro tipo de trauma. “Muitas vezes ela já tinha preparado o quarto, comprado as coisas para o bebê e ele é incompatível com a vida e a opção é interromper, então, é muito angustiante para essa mulher, de uma forma diferente, mas não menos triste, que uma mulher estuprada”, conta.

“Não há atendimento fácil nos casos de violência sexual”, afirma Fernanda. Nesses casos, o principal objetivo é acolher o que a vítima tem para falar e saber se ela corre algum risco; dependendo da resposta, os serviços de proteção e acolhimento também são acionados. Algumas mulheres chegam ansiosas para resolver o problema. Outras, não conseguem falar com facilidade e, para tentar amenizar o sofrimento (sic), Fernanda costuma fazer a proposta de realizar perguntas e a paciente vai respondendo conforme se sente à vontade.

A assistente social considera este o momento mais importante, a conversa. E não pense ser uma tarefa simples: acolher e ser um ombro-amigo para essas mulheres é um processo delicado e sem hora para terminar

Após esse momento, a mulher é encaminhada para uma avaliação psicológica. Depois, ela é encaminhada ao médico, que fará todos os exames necessários e, se tiver tudo dentro dos critérios estabelecidos por aquela instituição, volta para fazer a internação e a interrupção da gestação. Após a realização do procedimento, a mulher retorna para algumas consultas quantas vezes forem necessárias. Do primeiro atendimento até o dia da interrupção não costuma passar mais do que 15 dias, “o que a gente preza aqui é agilizar dentro do que é previsto. A gente tem uma equipe bastante disponível para poder fazer o atendimento dentro de um tempo que a mulher consiga amadurecer sua decisão sem atropelos.”, ressalta.

O diferencial do serviço social é poder ser um espaço de escuta para as mulheres, sem julgar e sem fazer dele um interrogatório. Fernanda conta que o serviço social é um pilar de todo o trabalho realizado. “Quando a equipe está coesa e mobilizada em cuidar e entender que ela não tem culpa, tem um afinamento de trabalho. É a equipe multidisciplinar que faz a diferença e as mulheres têm expressado muita gratidão por terem se encontrado conosco”.

 

Casos marcantes

Em contato direito com essas mulheres, os casos marcantes com que Tilde trabalhou foram muitos. Ela relata uma história em especial que a emocionou dentre muitas outras. Uma senhora de cerca de 60 anos que, apesar de ser jovem, foi a mais velha que chegou ao hospital ao ser violentada por um jovem que tinha a idade do filho dela. Com tanto sofrimento na época, mas com um acolhimento adequado e humano da equipe médica, a gratidão foi tanta que ela voltou anos mais tarde para agradecer os médicos e presenteá-los com uma simbólica medalha. “São muitas que voltam para falar como está a vida, uma outra apareceu aqui depois de dois anos dizendo que estava noiva, que ia casar… Elas conseguem reconstruir suas vidas”, conta a assistente veterana.

Não há atendimento fácil nos casos de violência sexual

Um caso que mobilizou toda a equipe do Hospital Cachoeirinha foi de uma mulher vítima do homem que contratou para montar os móveis de sua casa. “Ela não conseguiu contar para o marido que tinha sido violentada e que a gestação não era dele. Ela queria muito ter outro filho com o marido e durante esse processo, ela foi adoecendo psicologicamente”, lembra Fernanda. O acompanhamento psicológico nesses casos é essencial e dada complexidade do contexto traumático vivido, o tratamento terapêutico se seguiu.

 

“A mulher do aborto”

Apesar de não se abalar, Tilde viveu momentos tensos em sua caminhada. “Às vezes eu chegava em casa e, do lado de fora, estava cheio de ovos e isso, na verdade, só me fortalecia. Eu nunca tive nenhum conflito comigo mesma”, relata. E a intolerância não se limitava somente ao lado de fora do hospital. Dentro da instituição, alguns profissionais também manifestavam discriminação com a profissional. A frase “eu pensava que você era uma pessoa legal” foi repetida por muitos deles durante todos seus anos de atuação.

Um momento marcante em sua trajetória foi quando uma moça que trabalhava na xerox do hospital e, que tinha contato direto com a profissional, após sofrer um aborto espontâneo por conta de complicações afirmou que seu marido acreditava que ela tinha perdido o bebê porque “fazia xerox para a mulher do aborto”.

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Fernanda não passou por situações parecidas como as de Tilde, mas conta que nem todas as pessoas do seu vínculo pessoal se identificam com o trabalho, inclusive o marido. No entanto, ela não se sente constrangida por fazer o que escolhe todos os dias.

 

A luta continua…

Já que não pode mais ajudar essas mulheres no procedimento em si, Tilde continua na luta de outras formas. Além de se dedicar aos estudos sobre o tema, a aposentada também realiza palestras e faz parte da ONG Católicas Pelo Direito de Decidir, um grupo de mulheres que discute e desempenha diversas ações com o intuito de promover mudanças na sociedade.

O número de mulheres em busca da interrupção gestacional não se alterou durante a pandemia e os procedimentos não deixaram de ser realizados no Hospital Vila Nova Cachoeirinha. “Não houve diferença no número de atendimentos do aborto legal. Os casos que aumentaram bastante são os de violência doméstica”, explicou Fernanda. No dia anterior à entrevista, ela tinha atendido 3 casos de violência, quando a média chega a ser de uma mulher por mês.

Um momento marcante em sua trajetória foi quando uma moça que trabalhava na xerox do hospital e, que tinha contato direto com a profissional, após sofrer um aborto espontâneo por conta de complicações afirmou que seu marido acreditava que ela tinha perdido o bebê porque “fazia xerox para a mulher do aborto”

Quando perguntei sobre o que a Fernanda pensava sobre a atual legislação do aborto legal, ela respondeu acreditar por muito tempo que o previsto em lei era aceitável. Porém, conversando com uma colega, sua opinião mudou: “o fato de você ter uma legislação que autoriza a mulher a abortar fora daqueles 3 casos, não impede dela abortar, se assim ela quiser. O que acontece é um recorte de classes, onde as mulheres pobres morrem porque elas são submetidas a um procedimento ilegal e inseguro. E as com poder aquisitivo maior, também abortam, só que elas pagam uma clínica que tem todo um suporte e aparato e vão embora para casa”, relata. Ou seja, a profissional passou a entender a importância do aborto legal para todas as mulheres.

O que motiva a jornada das duas profissionais é acreditar na rede de mulheres apoiando mulheres, algo que não teria sido possível sem que elas tivessem se apropriado e construído essa forma de enxergar as relações. “Nosso objetivo não é fazer o procedimento. É atender o que a mulher quer, como o caso de uma moça que nos procurou para interromper a gestação e saiu daqui com a filha no colo, bem e feliz. Quando a gente consegue esse retorno, é algo que a gente percebe que nosso trabalho está fazendo sentido”, finaliza Fernanda.

Em casos de violência doméstica denuncie ou ligue 180.

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É co-autora dessa matéria Karina Fascina, jornalista que trabalhou na entrevista e perfil da assistente Irotilde Gonçalves.

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