Frankenstein e o Silenciamento das Feministas-Vegetarianas

modefica-IDENTIDADE-SELO-ECOFEMINISMO“Ecofeminismo: Mulheres e Natureza” é um série de matérias que busca discutir a importância da conexão das mulheres com os seres não-humanos e o meio-ambiente. A série tem como objetivo abordar as questões éticas e morais, além das questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao feminismo, veganismo e ecologia.

 

Você pode ouvir essa pauta no player abaixo. Todos os textos da série Ecofeminismo: Mulheres e Natureza estão disponíveis para audição no Spotify, iTunes, Google Podcast ou no seu player preferido.

Qualquer um que já leu a ficção ou alguma crítica a Frankenstein (1818), a famosa publicação de Mary Wollstonecraft Shelley, sabe do seu teor feminista. Mas o que muitos não sabem é sobre a tremenda dose de silenciamento da palavra feminista-vegetariana (também conhecida como ecoanimalismo feminista ou ecofeminismo animalista) [1] promovida na história de Shelley.

Uma simples análise é capaz de mostrar como as feministas que expressaram sua insatisfação com o sistema dominante através do vegetarianismo vêm sendo silenciadas e seus discursos sofrendo distorções históricas desde o surgimento do ativismo feminista-vegetariano lá no século XVIII.

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Desde 1800, feministas-vegetarianas são silenciadas dentro do próprio movimento feminista e fora dele. Junto com diversas outras questões que abordaremos em outros textos, o silenciamento e a distorção histórica do feminismo-vegetariano são responsáveis por fazer muitas pessoas, inclusive as próprias feministas, terem dificuldade em enxergar a relação da opressão feminina com a opressão dos outros seres sencientes [2].

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Não podemos ignorar importantes nomes ecofeministas e femistas-vegetarianos, como Carol J. Adams, Karen Warren, Marjorie Spiegel e Charlene Spretnak, ganhando cada vez mais voz mundo afora. Tem muita ativista falando sobre isso sim, e há muito tempo. Quer os outros queiram, quer não. Como disse a própria Adams, “qualquer atividade que se oponha ao costume predominante exige inovação, persistência e motivação”. Mas continua não sendo fácil para essas mulheres garantirem seu espaço e propagar suas ideias.

Entretanto, olhando para o todo, notamos outros exemplos de silenciamento como a resistência do feminismo branco em perceber as diferentes necessidades e pautas do feminismo negro [3], por exemplo, expondo a carência de um discurso interseccional capaz de abranger todas as realidades de diferentes mulheres. Dessa maneira, entendemos a falta de interseccionalidade de maneira integral e podemos ter calma e cuidado para analisar as fragilidades de qualquer movimento social. Afinal, movimentos sociais são formados por pessoas com as mais diversas vivências.

Qualquer atividade que se oponha ao costume predominante exige inovação, persistência e motivação

 

Um olhar atento sobre o silenciamento das feministas-vegetarianas e a distorção história de suas palavras.

Feministas importantes no campo teórico e ativista são reconhecidas por, quase sempre, lutarem contra o sistema dominante através também de suas ações pessoais e em sua vida cotidiana, seja negando o casamento, a heterossexualidade, a monogamia e a maternidade. Audre Lorde, Judith Butler e Simone De Bevouir são bons exemplos disso. Qual seria então a dificuldade dessas mulheres em se libertarem da chamada política sexual da carne – responsável por impactar de maneira impiedosa o meio ambiente, e, consequentemente, a vida de outras mulheres? [4]

O grande problema e uma das possíveis respostas para a estagnação da palavra feminista-vegetariana talvez resista no campo da distorção histórica dos escritos feministas-vegetarianos. Se levarmos em consideração que grande parte do discurso feminista atual é centrado nos textos de feministas que pouco tratam da relação da dominância masculina e o carnivorismo, fica mais fácil compreender a falta de uma análise mais atenta (e a continuidade) ao discurso feminista-vegetariano iniciado no século XVIII [5].

São poucas as feministas contemporâneas que se dedicam a entender e analisar os escritos feministas do século XVIII e XIV, quando o ativismo feminista-vegetariano começou a ser difundido e pautado. Mesmo se considerarmos que até a primeira metade do século XX ainda é possível notar um grande número de textos feministas, vegetarianos e pacifistas, logo vemos como o discurso vegetariano tende a ser, ao invés de analisado, ignorado, quando muito refutado.

Sendo assim, a distorção histórica prevalece e a atividade feminista-vegetariana permanece fragilizada. Carol J. Adams chamou atenção sobre isso em sua publicação emblemática A Política Sexual Da Carne. A autora destaca a falta de atenção dos historiadores para com o vegetarianismo como forma de luta contra a opressão masculina de muitas autoras feministas importantes. Ela relata, inclusive, como publicações importantes como The History Of Woman Suffrage omite os embates frequentes entre as sufragistas vegetarianas e as sufragistas onívoras nos EUA.

Adams também chama atenção para toda a crítica literária feita ao romance “Frankenstein ou o Moderno Prometeu”, de Mary Wollstonecraft Shelley, filha da feminista, pedagoga e escritora Marry Wollstonecraft – responsável por escrever “Reivindicação dos direitos da mulher”, no século XVIII, considerado como um dos documentos fundadores do feminismo.

Minha comida não é a mesma do homem: eu não abato o cordeio e o cabrito para satisfazer meu apetite; as bolotas do carvalho e as bagas me propiciam alimento suficiente.

É notável aos críticos que Frankenstein carrega em si uma boa dose de feminismo (provavelmente um reflexo da influência da mãe), principalmente por Shelley usar a Criatura como meio para expressar sua revolta por ser a fêmea excluída das conversas de seu marido, o poeta Percy Shelley, com Lord Byron. Mas, por outro lado, ignoram a realidade vegetariana da autora e como ela a expressa de forma complexa através dos hábitos alimentares de sua Criatura [6], tornando Fransktein um romance que, apesar de promover a palavra feminista-vegetariana, é reconhecido apenas por promover o feminismo. Como a autora questiona em A Política Sexual Da Carne [7]:

“Para um trabalho que recebeu uma quantidade incomum de atenção da crítica nos últimos trinta anos, tendo quase todos os seus aspectos examinados cuidadosamente, é notável que o vegetarianismo da Criatura tenha sido deixado de fora da esfera dos comentários”.

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Outro exemplo é como o vegetarianismo de feministas importantes parecem repousar, convenientemente, no limbo. A antologia poética “We Are All Lesbians” conta com um dos poemas mais emblemáticos escrito pela feminista e sufragista americana Frances Willard (1839 – 1898). Eat Rice, Have Faith In Woman é um poema responsável por, assim como a obra de Mary Shelley, promover a palavra feminista-vegetariana, mas cujo teor é frequentemente fragmentado e o vegetarianismo ignorado.

Em suma, “o ativismo das vegetarianas e seus escritos foram absorvidos no cânone feminista literário e histórico sem se notar que elas estão dizendo e fazendo algo diferente quando se trata de consumo de carne. […] Claramente, tudo o que o vegetarianismo representou para as mulheres e como estas reagiram a ele exigem um exame rigoroso” [8].

Esse é, de fato, um resumo simplista da análise de Adams (ela conta com diversos outros exemplos como esses), porém suficiente para elucidar como a ação feminista-vegetariana vem sendo colocada de lado e silenciada, prejudicando seu alcance e fragilizando suas ações. Quando falamos sobre isso, quando refletimos e pesquisamos sobre as ideias dessas mulheres, garantimos a evolução de suas teorias e a expansão de seus discursos libertadores para muito além de nós.

coma arroz, tenha fé nas mulheres
o que eu não sei agora
Eu ainda posso aprender
devagar devagar
se eu aprender eu posso ensinar aos outros
se os outros aprenderem primeiro
Eu devo acreditar
eles vão voltar e me ensinar

Notas de rodapé

* A palavra “vegetariana” nesse texto é usada para uma alimentação livre de qualquer produto de origem animal (carne, ovos, lácteos, etc)

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