apoie o modefica

Somos uma organização de mídia independente sem fins lucrativos. Fortaleça o jornalismo ecofeminista e leve a pauta mais longe.

Uma Coisa Que Você Precisa Saber Sobre A Nova Onda Da Colaboração

Publicada em:
Atualizada em:
Texto
  • Marina Colerato
Imagens

Reprodução

3 min. tempo de leitura
Share on twitter
Share on pinterest
Share on facebook
Share on linkedin
Share on email

Vivemos em tempos de questionamentos. De transição, adaptação, criação, reinvenção. Mas, acima de tudo, vivemos em tempos onde as palavras "colaboração", "co-criação" e "compartilhamento" aparecem a torto e direito por ai. Ainda bem. Realmente precisamos sugerir mudanças, adotar novas práticas e reencontrarmos a felicidade perdida para o sistema capitalista.

Mas não se engane, nem tudo são flores. Algo que provavelmente ninguém te falou sobre essa coisa toda de colaborar, co-criar, compartilhar, e fugir das amarras do sistema tradicional é que nisso tudo existe um desafio maior do que dinheiro. Existem pessoas. Pois é, pessoas com todas as suas complexidades, egos, desejos, traumas, defeitos, sentimentos – bons e ruins; tão iguais e tão complexas quanto “aquelas outras” vivendo fora desse movimento. Pode parecer óbvio, mas não é.

Junto com as palestras e discursos sobre colaboração, co-criação e compartilhamento deveriam vir acompanhados avisos em caixa alta sobre as dificuldades das relações humanas também nesse universo. Isso faria muita diferença, equilibraria expectativas e diminuiria frustrações. Entraríamos nessa mais conscientes das dificuldades, seríamos mais cautelosos ao aceitar os convites para cafés e não nos empolgaríamos tão facilmente com um discurso. Afinal, um pouco de cautela é sempre uma coisa positiva.

É como a diferença de ver uma propaganda sabendo que é uma propaganda e ver uma propaganda achando que aquilo não é uma propaganda. Precisamos do aviso para nosso cérebro aplicar os filtros necessários, ponderar as informações e tomar melhores decisões.

Fomos todos nascidos e criados num sistema competitivo, com pouca ou nenhuma guia espiritual, nos pautando sobre o tamanho da nossa conta bancária, dos nossos bens materiais, da nossa fama ou, atualmente, do número de seguidores nas nossas redes sociais. Queremos sucesso e temos dificuldade em lidar com nosso ego, admitamos ou não. Desconstruir tudo isso e construir valores novos exige mais do que o comprometimento com uma causa, exige comprometimento consigo próprio, e isso é muito mais difícil.

Há um tempo, a Stephanie Ribeiro levantou a questão da inveja dentro do movimento feminista. Ela problematizou a “sororidade acima de tudo” e trouxe uma visão mais realista e menos romântica do que acontece dentro do movimento. É sobre um movimento social e de luta de mulheres, mas pode ser facilmente expandido e aplicado para nossa “geração colaboração”.

Ela finaliza o texto com uma frase real e certeira, que eu reafirmo aqui: “No fim essa quebra de relações nunca é feita de forma limpa e pacífica, ela é rodeada de maus tratos, exposições e picuinhas, que só demonstram o que são as relações abusivas ainda permeiam os meios feministas. Precisamos ampliar nossos debates e desconstruções, para que, realmente, a prática de empatia entre mulheres seja real.”

Como a Stephanie bem nos lembra, pode rolar inveja, puxação de tapete, queimação de filme, exclusão, e isolamento sim também nesses meios ‘libertários’. Precisamos estar cientes disso. Daí, precisamos olhar para dentro também, e saber lidar com essa questão e fazer o mais difícil, coisa que ouvimos muito falar, mas quase nunca vemos na prática: se colocar no lugar da pessoa, ter caridade e empatia para entender as suas atitudes. Afinal, não é só porque compartilhamos objetivos, anseios, crenças, ou até mesmo gênero e opressões, que não temos a capacidade de sermos cruéis uns com os outros.

Não tenho dúvidas sobre a importância de entrar com o coração nessa coisa toda, mas é necessário levar o cérebro junto. Precisamos estar preparados para entender que, por mais contraditório que pareça, o discurso nem sempre vai estar alinhado com as atitudes. E nunca esquecer que, antes de qualquer coisa, somos seres humanos. Com isso em mente, lidar com as possíveis decepções e até mesmo enxergar além para evitar que elas aconteçam será muito mais fácil.

Por isso também não falar sobre as dificuldades das relações humanas nesse novo cenário colaborativo não deve ser uma opção. Jogar a ‘sujeira’ para debaixo do tapete é ser conivente com a criação de uma falsa imagem, totalmente em desacordo com a realidade e, consequentemente, partilhar da culpa pelo insucesso do que estamos tentando criar. Infelizmente, vejo pouquíssimas pessoas levantando essa questão, quando, na verdade, para desconstruir esse mundo (e nós mesmos) e construir o mundo que nós queremos (e a pessoa que nós queremos ser), é essencial falarmos sobre os problemas e desafios da jornada. Só assim seremos capazes de encontrar saídas e soluções e alcançar nosso objetivo de transformação por completo.

* * *

Jornalismo ecofeminista a favor da justiça socioambiental e climática

Para continuar fazendo nosso trabalho de forma independente e sem amarras, precisamos do apoio financeiro da nossa comunidade. Se junte a esse movimento de transformação.

Continue lendo