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Ecossocialismo: Livro Apresenta a Questão Ambiental em Karl Marx

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Propor que exista um ecossocialismo em Karl Marx pode soar estranho e até mesmo anacrônico. Como corrente política marxista, o ecossocialismo passou a existir décadas após a morte de Marx. O filósofo da práxis nunca usou o termo “ecossocialismo”, tampouco diferenciava entre supostas correntes do marxismo.

De fato, a noção de um marxismo era estranha a Marx. Como escola de pensamento e ação, o marxismo se estabeleceu após Marx, e como corrente política do marxismo, o ecossocialismo se estabeleceu após debates e experiências distintas sobre a construção de uma sociedade comunista no século XX.

O ecossocialismo data de discussões que emergiram com maior força a partir da década de 1970 e é uma corrente de pensamento e ação focada na superação da dicotomia entre humanos e natureza, tendo como base uma síntese marxista ecológica voltada para a construção de uma sociedade global socialista 1Sabrina Fernandes, Se quiser mudar o mundo: um guia político para quem se importa (São Paulo, Planeta, 2020), p. 131.

Como bem aponta Kohei Saito, no seu surgimento, o ecossocialismo buscava atender à necessidade de incorporar um debate sério sobre os limites da natureza aos movimentos socialistas e a correção de vícios ideológicos e estratégicos, como o produtivismo. O produtivismo representa uma lógica que confunde o desenvolvimento das forças produtivas para atender às necessidades da classe trabalhadora com uma dinâmica de produção intensa, focada na indústria e no uso de recursos naturais, de modo a competir com o ritmo produtivo de sociedades capitalistas avançadas. Um grande “porém” dessa crítica ao produtivismo das experiências socialistas, que embora tenha sua validade quanto a elementos contraditórios do desenvolvimento industrial e do tratamento da natureza na União Soviética, é que ela respingava no próprio Marx, que era acusado do crime de “prometeísmo” e fé acrítica no desenvolvimento eterno da indústria.

Baseado nisso, tanto Kohei Saito, quanto autores como John Bellamy Foster e Paul Burkett, propõem uma visão do desenvolvimento do ecossocialismo em estágios. No primeiro estágio, sob influência do movimento ambiental moderno, que se consolida a partir da década de 1970, preocupado com a mudança climática e os limites ecológicos, os ecossocialistas trataram da importância de incorporar a regulação da natureza ao socialismo. Esse momento, acrescento, não se distanciou do marxismo em método, mas carecia de uma atenção especial aos escritos de Karl Marx e Friedrich Engels para que pudessem escapar de estereótipos e equívocos sobre a produção marxiana a respeito da natureza.

O movimento de culpabilização por marxistas acerca de negligências e equívocos de Karl Marx em sua obra não foi exclusivo dos ecossocialistas do primeiro estágio. É possível observar como a história do feminismo marxista passa pelo mesmo conflito. Muitas feministas socialistas, que se referenciam no marxismo como método para a emancipação da classe trabalhadora, não pouparam adjetivos ao acusar Marx de ser um machista de sua época que teria ignorado como o sistema capitalista se aproveita do trabalho não pago de mulheres e como ele teria escrito análises sob e para a ótica do operário urbano industrial europeu.

Tais acusações possuem um fundo de verdade, uma vez que as mulheres não ocuparam um espaço de destaque na análise marxiana; todavia, é também estranha a insistência tão comum em cobrar de Marx que tivesse analisado, em vida, todos os elementos possíveis do impacto do capitalismo e todas as facetas de opressão. Afinal, embora não houvesse esse foco com Marx, é possível encontrar satisfação nas contribuições posteriores de Clara Zetkin e Alexandra Kollontai, entre tantos autores e autoras que preenchem lacunas e constroem a partir dos debates pungentes de cada época.

Seria, sim, desejável que mulheres, pessoas negras, povos indígenas, pessoas com deficiência e LGTQIA+ pudessem ter ocupado maior espaço na análise de Marx. Isso certamente teria enriquecido sua obra e nos poupado de debates insossos no interior de organizações socialistas que negavam (e ainda negam!) a importância do posicionamento antiopressão e que alegavam (e ainda alegam!) que primeiro deveria ser feita a revolução proletária e, depois, caso possível, nos preocuparíamos com outros assuntos. O importante é que, tratando do que Marx (e Engels) realmente escreveu, analisou, produziu, criticou e respondeu, há tanto indicações úteis para o debate do feminismo marxista, por exemplo, como um método de análise para a transformação da sociedade que transcende o próprio Marx.

O materialismo histórico e dialético, como método de apreensão de uma realidade que desejamos mudar, permite que feministas marxistas produzam hoje para além de Marx sobre o patriarcado, trabalho de reprodução social, e o papel das mulheres na revolução socialista. É por meio do método que é possível tratar da contribuição de Engels para o debate sobre a família monogâmica e o capitalismo, ao mesmo tempo que se corrigem equívocos e se atualiza o que ficou ultrapassado.

Trata-se então do valor de buscar seriamente o que foi escrito por Marx e Engels sobre as temáticas em questão, considerando os limites estruturais da época, e acrescentar tal produção dos desenvolvedores do materialismo histórico e dialético ao que o método nos oferece hoje em análise e perspectiva.

É baseado num princípio similar que surgiram esforços de retornar a Marx e Engels para analisar se seus escritos eram realmente culpados de uma crença otimista no desenvolvimento eterno das forças produtivas, sem consideração ecológica, ou se o erro estava nos marxismos que ignoraram, e seguiam ignorando, a ecologia de Karl Marx. O livro de John Bellamy Foster sobre a ecologia de Marx, lançado em 2000, foi desbravador nesse sentido.

Se antes era possível alegar que Marx não teria se preocupado com a natureza, o que trazia críticas por parte de ecossocialistas e justificativas cômodas por parte de socialistas produtivistas, os esforços de ecossocialistas do segundo estágio tornaram o argumento cada vez mais vazio. É nesse sentido que O ecossocialismo de Karl Marx, de Kohei Saito, enterra de vez a perspectiva de que Marx pudesse ter sido antiecológico em sua crítica do capital e sua proposta para uma sociedade emancipada.

Um dos aspectos que mais impressiona na análise de Saito é seu olhar para escritos diversos de Marx que possuem importância elevada para o marxismo humanista sem a tentação de fetichizá-los na disputa contra o estruturalismo e a tese de ruptura entre um jovem e um velho Marx que se tornou famosa por meio de Louis Althusser. Sem o peso desse conflito, que por vezes contrapôs a filosofia à economia política em Marx, como é o caso da interpretação de Erich Fromm (muito mais do que a de Herbert Marcuse, eu diria a Saito), é possível resgatar outros elementos, por exemplo, dos Cadernos de Paris, que foram menos explorados até então.

Esse esforço acrescenta ao ecossocialismo e revigora ecossocialistas que possuem referência humanista, mas que não possuem a pretensão de tratar os Cadernos como obra completa em si; afinal são manuscritos inacabados que Marx não cogitava publicar. O valor se encontra em ligar a leitura que Marx faz da alienação nos Cadernos, embora ainda em seus estágios primordiais, e uma visão preocupada da separação entre ser humano e natureza que figura no desenvolvimento do pensamento marxiano.

Isso possibilita que Saito trace um estudo que liga os aspectos econômicos dos Cadernos sobre a alienação, terra, forma mercadoria e o rompimento do lado afetivo do trabalho com a própria teoria da ruptura metabólica que é explorada por John Bellamy Foster em A ecologia de Marx, e que demonstra a relevância do Livro 3 de O capital e os estudos que influenciavam Marx em seu tempo, como sua atenção especial ao químico alemão Justus von Liebig. Com isso, Saito estabelece como a visão marxiana da alienação do trabalho não pode ser dissociada da transformação que também ocorre na relação entre humanos e natureza.

Tal visão ampliada confere ênfase e sentido mais explícito à formulação de Marx de que “humanismo = naturalismo”. Por consequência, seria viável até mesmo argumentar que, se marxistas humanistas não estivessem tão envolvidos no conflito com a leitura althusseriana sobre a essencialidade de anotações privadas de Marx, poderiam ter sido os primeiros a conjecturar sobre o ecossocialismo de Marx, seja nas investigações do segundo estágio, seja em sínteses prévias no próprio surgimento da corrente ecossocialista.

O esforço herculano de coletar e sistematizar a obra completa de Marx e Engels no projeto Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA) auxilia na tarefa de compreender mais do pensamento de nossas referências. Se em 1844 Marx demonstrava preocupação com a cisão entre ser humano e natureza impulsionada pelo capitalismo, em 1865 escrevia a Engels sobre seu interesse em química e fertilidade do solo. A partir dessa análise, Marx nos entrega elementos para a discussão de ruptura metabólica que nos permite questionar os limites ecológicos do sistema capitalista e, ao mesmo tempo, criticar os impactos da agricultura em larga escala cerca de um século antes da infame “Revolução Verde” e sua manipulação química e tecnológica do solo e de sementes.

Se mesmo antes da MEGA, o fundamento de Marx ao explorar a condição ecológica no desenvolvimento produtivo viria a informar análises como a do climatologista soviético Evgenii Konstantinovich Fedorov em Man and Nature [Homem e natureza], um mergulho nos debates e processo de aprendizado de Marx sobre ciências naturais em relação à sua crítica ao capitalismo possibilita novas formulações e arejamento de debates necessários hoje – sobretudo quando especialistas em mudanças climáticas nos alertam para a importância de descarbonizar a sociedade radicalmente antes de 2030. Essa urgência informa o debate ecossocialista e a certeza de que o materialismo histórico e dialético é um método que carrega a ecologia em seu interior.

Porém, mesmo que as considerações da natureza já estivessem nos escritos de Marx de 1844, cabe falar de ecossocialismo? Afinal, Marx também oscilou em linguagem. Expressões do Manifesto Comunista onde Marx e Engels aparentam se entusiasmar com o potencial tecnológico de dominação da natureza são frequentemente utilizadas para indicar a ausência de pensamento ecológico, por parte, principalmente, de Marx. De fato, Saito argumenta que, quando Michael Löwy alega que Marx e Engels prestam “homenagem à burguesia por sua capacidade sem precedentes de desenvolver as forças produtivas” no Manifesto, trata-se de uma interpretação viável do que fora desenvolvido no Manifesto (e na linguagem “panfletária” do texto). 2Kohei Saito, O ecossocialismo de Karl Marx (trad. Pedro Davoglio, São Paulo, Boitempo, (2021), p. 316

Mas como Saito ressalta, anos depois, no primeiro livro de O capital Marx já se distanciará dessa leitura para enfatizar a importância de zelar pelas condições materiais de produção. Não se trata, portanto, de supor que Marx já pensava ecologicamente, mas sim que o raciocínio ecológico se manifestou à medida que Marx precisava compreender e explicar as diferentes condições materiais e históricas. É por isso mesmo que se torna tão importante entender como o materialismo histórico e dialético é, como método, extremamente compatível com uma visão metabólica da realidade.

Tal aspecto foi levantado por Lukács, mas profundamente desenvolvido por István Mészáros na forma de análise sobre o capital e o metabolismo social. Embora parta de outra linha analítica, a investigação sobre o metabolismo social completa a de um metabolismo ecológico justamente por se tratar de uma formulação que destaca o papel do capital em separar seres humanos da natureza, especialmente através da apropriação do trabalho humano, que age como mediador dessa relação.

E é o próprio Mészáros que aponta a contribuição de Marx para essa formulação:

Marx compreendeu perfeitamente, já naquela altura, que uma reestruturação radical do modo prevalecente de intercâmbio e controle humano é o pré-requisito necessário para um controle efetivo das forças da natureza, que são postas em movimento de forma cega e fatalmente autodestrutiva precisamente em virtude do modo prevalecente, alienado e reificado de intercâmbio e controle humanos. 3István Mészáros, Para além do capital (trad. Paulo Cezar Castanheira e Sérgio Lessa, São Paulo, Boitempo, 2002), p. 988.

Saito proporciona uma análise meticulosa que traça os usos da noção de metabolismo em Marx, de acordo com o contexto. Essa exposição permite o argumento de que o conceito de metabolismo, embora não fosse utilizado uniformemente por Marx, embasa sua compreensão da natureza, e por consequência dos seres humanos, sob o capital. Percebe-se que Marx trouxe a relevância da regulação das trocas socioecológicas muito antes do movimento ambiental moderno e da corrente ecossocialista, e sua análise apresenta ainda um embasamento capaz de blindar ambientalistas das falácias capitalistas e de elevar o ecossocialismo à condição de um projeto realmente afiado com a convicção de que não é possível construir o socialismo em um planeta arrasado.

Falar de regular o metabolismo social com a natureza implica a compreensão de que, embora seja impossível regular racionalmente cada elemento dessa relação, tamanha sua dimensão, os processos produtivos humanos devem reconhecer na regulação a sua própria condição de existência. É impossível que seres humanos deixem de impactar a natureza de uma forma ou outra, tal a lógica de ação e reação material, mas é possível romper com o modo desenfreado de produção do capitalismo e considerar custos e impactos como parte da produção em si e não como externalidades. Daí também é viável explorar outras formas de relação com a natureza, resgatando conhecimentos de povos diversos e destacando as sociedades cujas cosmovisões, embora não materialistas, nos auxiliam na busca de um reino da liberdade distante do abismo.

Isso levanta perguntas sobre planejamento, divisão de tarefas, conhecimento tecnológico, escala e resiliência. A discussão de Mészáros sobre ir além do capital também retorna com relevância. O olhar ecológico enfatiza que não basta mudar a propriedade dos meios de produção sem transformar também como e por que se produz. Se o objetivo do marxismo é transcender os limites do capital, até mesmo a concepção de avanço produtivo deve mudar, e a ecologia aponta para os retrocessos da produção excessiva de armamentos e produtos de luxo, que falham de acordo com o interesse de classe de quem os produz e os detém e de acordo com o desequilíbrio que causam. Não é o caso de se apropriar das ferramentas de produção deixadas pelo capitalismo, mas de reorientá-las radicalmente até que uma sociedade socialista desenvolvida não possa ser medida de acordo com parâmetros do desenvolvimento capitalista. 4Ibidem, p. 527. .

A busca pelo ecossocialismo de Karl Marx não trata, portanto, de uma afirmação anacrônica de que Marx já era ecossocialista ou uma conclusão simplista de que toda e qualquer construção do socialismo a partir do marxismo já seja ecossocialista. Conhecemos bem as contradições históricas limitadoras sob as quais as experiências socialistas até hoje foram desenvolvidas e onde levaram a colapsos ecológicos. Sabemos também, todavia, onde as falhas partiram de uma visão produtivista e antiecológica de desenvolvimento, soberania e qualidade de vida.

Respostas de que todo e qualquer socialismo marxista já é ecológico simplesmente porque haveria ecologia em Marx não satisfazem, visto que não explicam a falta de ênfase dada por tantas correntes socialistas que insistem em deixar, na prática, a natureza em segundo plano. Uma vez que se compreende que ecossocialismo não é ambientalismo, mas é a expressão da síntese ecológica na crítica de Marx ao capital, é possível identificar em que medida a ecologia realmente permeia todo o projeto alternativo de sociedade e quando surge apenas para atender a demandas e preocupações pontuais.

Por isso, enfatizar que há ecologia em Marx não deve servir de desculpa meramente retórica para correntes marxistas que, de fato, não carregam essa ecologia em sua práxis, mas sim de impulso para a formulação de sínteses socioecológicas cada vez mais ousadas a partir do marxismo. Se acrescentamos ainda os debates de Engels em Anti-Dühring, Dialética da natureza e até mesmo elementos de A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, fica evidente o equívoco de tratar da ecologia de forma secundarizada, ou apenas quando convém, na construção de um projeto socialista.

A centralidade da ruptura metabólica e da impossibilidade de derrotar o capital sem levar os impactos ecológicos em consideração dá forma ao projeto do ecossocialismo hoje, que em seu terceiro estágio deve analisar a fundo também as premissas que herdou do movimento ambiental, e, mais ainda, formas de ampliar a ação radical urgente de que necessitamos. 5John Bellamy Foster e Paul Burkett, Marx and the Earth: An Anti-Critique (Leiden, Brill, 2016), p. 11-2. Essa base é capaz de salientar caminhos e conectar lutas ao redor do mundo, com foco na classe trabalhadora e nos grupos mais investidos em agir contra a catástrofe ecológica, dos povos indígenas da América Latina aos habitantes de ilhas do Pacífico.

Assim, quando Kohei Saito fala do ecossocialismo de Karl Marx, ele não fala da corrente política marxista que se concretizou somente após Marx, tal qual o próprio marxismo, mas sim de um princípio que emana não somente do materialismo histórico e dialético como também data das próprias reflexões de Marx sobre o capital. O princípio do ecossocialismo de Karl Marx existe porque “o socialismo de Marx prevê uma luta ecológica contra o capital” 6Kohei Saito, O ecossocialismo de Karl Marx, cit., p. 165. Se entendermos ecossocialismo sob essa luz, a verdade é que nem todo socialismo é ecossocialismo, mas seria um avanço se fosse.

Texto escrito por Sabrina Fernandes como prefácio do livro "O Ecossocialismo de Karl Marx" escrito por Kohei Saito. Copyright © 2021 por Kohei Saito e Editora Boitempo. Trecho publicado com permissão da Editora Boitempo. Acompanhe a @boitempo para conferir os lançamentos.
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