A Verdade Como Abismo: Uma Leitura do Livro de Fabiane Secches sobre Elena Ferrante

Meu 21º dia de quarentena foi marcado por dois fatos: terminei de ler o livro
Elena Ferrante – Uma longa experiência de ausência (Editora Claraboia) e encontrei, num post da Escrevedeira, meu estado abismado pós-leitura. Dizia assim: “Como é bonita a expressão ‘abismar-se’, com o sentido de estar perplexo. Tornar-se um abismo, por-se num abismo em que os sentidos se deslocam e se transformam durante o torpor e a imensidão da queda”.

Em sua escrita genial, Fabiane Secches ressalta o talento de Ferrante em trabalhar entre a luz e a sombra (ou clareza e obscuridade), sem a fácil associação do sombrio apenas ao indesejável. Pois se o dicionário mesmo define abismar como “provocar espanto ou admiração”, em seguida escreve “encher-se de assombro”; sendo assombrar também “ter medo ou terror”, e ao mesmo tempo “maravilhar-se, admirar-se, pasmar-se”.

No meio desse paradoxo, o consenso literário ainda se debate entre a catalogação da obra da autora como alta literatura ou best-seller, como se uma categoria excluísse a outra. Suas capas cafonas disfarçam o conteúdo profundo, baseado nos mitos, na psicanálise e em clássicos literários. A escolha de escrever sob pseudônimo aguça nossa curiosidade em busca de saber quem, como e por que escolheu viver incógnita.

Aliás, por que é tão difícil se manter abismado e aceitar a contradição que esse estado nos impõe? Ferrante nos acena com uma visão de mundo mais legítima, sua tetralogia evita “o risco de que só os bons sentimentos, o cálculo hipócrita ou as ideologias e o nauseante vínculo entre (amigas) irmãs embacem a honestidade da história”. Bem lembrado por Fabiane, num trecho publicado em Frantumaglia, Ferrante espera que sua editora continue a “lutar contra tudo aquilo que harmoniza através da eliminação”.

Publicidade

Vivemos um período excepcional em que, abismados por um vírus e uma pandemia, oscilamos entre esperança e desespero, descobertas e lutos, solidariedade e egoísmo, dentre tantas outras mil variações diárias experimentadas durante um período extenso de isolamento e distanciamento social. Abraçar o assombro virou rotina e foi com surpresa que me vi mudando de opinião sobre o único livro de Ferrante que odiei, chamado Dias de abandono.

Fabiane precisou de apenas 25 páginas para me fazer entender que minha aversão à obra citada tinha um fundo terapêutico. Eu também passei por uma separação complicada, mas ao contrário de Ferrante e de Fabi, sou publicitária, de formação literária tardia e majoritariamente contemporânea, acostumada a microcontos e auto-ironia na maioria dos textos que escrevo. Então li Laços, de Domenico Starnone, antes e achei ótimo porque tocava na questão como um fato do passado, consumado e superado, preciso como a escrita masculina costuma ser.

E precisei entender como Ferrante tratou o tema para enxergar o quanto a profundidade da dor vivida, a degradação de Olga, seu vocabulário se tornando vulgar (de propósito) e a personagem se “desmarginando” acessavam demais a minha sombra e meu assombro. Não foi fácil e talvez seria impossível se eu não estivesse em quarentena. Embora já estivesse fascinada pelo livro de Fabiane, foi a primeira vez em que me senti abismada por ele.

Mas não parou por aí, assim como nossa quarentena também não. Quando Fabiane começou a analisar a tetralogia napolitana, tive acesso novamente às memórias do que li há anos de um jeito inteiramente novo, como a edição de A divina comédia que comprei com quase mais asteriscos explicativos do que com texto original. Aliás, seria incrível se Fabiane contribuísse para uma edição especial de Ferrante com os paralelos e associações que faz em seu livro, em forma de asteriscos para os novos leitores.

Incrível acompanhar as aproximações entre a obra de Ferrante e a de Clarice Lispector e de Guimarães Rosa, as referências a Freud e aos mitos clássicos, como Perséfone, ou a relação com Goethe e seu Fausto. Me percebi desejando ao mesmo tempo devorar o livro e estendê-lo indefinidamente como o fio que Ferrante tece durante a tetralogia e parece continuar alongando em seu novo A vida mentirosa dos adultos. A tal “febre” voltou em seu lado perturbador e alucinante. Que delícia essa estreia genial de uma amiga tão querida.

“Sempre fiquei muito perturbada com as histórias que, em uma cena feliz, sabem introduzir um sinal imperceptível de futuros fracassos, interrompendo a respiração com o espectro de uma brusca inversão da sorte”, escreve Ferrante em um ensaio citado por Fabiane. Um exemplo tão inquietante quanto familiar ao seu estilo.

E deixo para o final o protagonismo de Nápoles. Porque ando apaixonada por um projeto que trata de cidades e por esta ser uma personagem comum à maioria das obras de Ferrante. Nápoles como metonímia de Lila (ou vice-versa) e de Lilith, das sereias que encantam e amaldiçoam marinheiros, de novo assombrando e abismando. “Nápoles era apenas um lugar onde se poderia enxergar, por uma lente, todos os males do Ocidente”, diz Ferrante. Cidade terrível e fulgurante, originalmente grega e de nome Partênope, a sereia “perversa”.

Mais uma vez, embora Ferrante confesse nunca sentir o mundo antigo como um mundo distante, essa atmosfera mítica contrasta com o tom realista da obra, embora permeie toda a narrativa. Saer, referido por Fabiane, resume bem: “Mito e relato não significam: são. Transparentes e opacos ao mesmo tempo, iluminam ou ensombrecem tanto quem os escuta quanto quem os lê”. É como se seguíssemos cada passo das personagens, ouvindo o canto da cidade-sereia ao fundo.

Hoje, ao acordar e não enxergar ainda um final dessa quarentena, tenho ao menos o consolo da escrita, da imaginação como saída, nunca capaz de esclarecer, mas de aprofundar o enigma e de me fazer percorrer cidades imaginárias. Pois, como conclui Fabiane retomando as palavras de Elena Greco, embora a vida verdadeira tenda à obscuridade, embora seu sentido continue nos escapando, nada disso invalida a busca, nem a capacidade de abismar-se.

 

Título: Elena Ferrante – Uma Longa Experiência de Ausência (2020)
Autora: Fabiane Secches
Editora: Claraboia
ISBN-10: 6580162023
Compre na Amazon por aqui

 

***

Esse texto foi publicado originalmente na newsletter quinzenal do Modefica. Para acessar outros conteúdos exclusivos e inéditos como esse basta se cadastrar (gratuitamente) por aqui

Publicidade

Conheça e faça parte do Clube Modefica!
O Modefica é uma mídia independente que pensa moda, arte, alimentação e política para resiliência social e ecológica. Para manter nosso conteúdo aberto e acessível para todas as pessoas, nós precisamos da sua colaboração.
Gostou desse texto? Clique aqui e contribua com o Clube Modefica e ajude nosso conteúdo ir mais longe para amplificar a transformação positiva.
Gostou dessa matéria? Compartilhe.
Tags

.