Espermatozoides Em Apuros Por Causa Do Que Consumimos Todos Os Dias

Espermatozoide sob efeito de um disruptor endócrino encontrado em filtros solares // Reprodução

 

Ingredientes químicos presentes nos nossos produtos do dia a dia estão diminuindo a qualidade dos espermatozoides por ai. Em uma matéria do The New York Times, “Are Your Sperm in Trouble?” – algo como “seu espermatozoide está em risco?” em tradução livre, Nicholas Kristof levanta pesquisas que analisam a qualidade do esperma masculino nos últimos 25 anos e vai atrás de especialistas no assunto para atestar que “mesmo quando adequadamente moldados, os espermatozoides de hoje são muitas vezes nadadores patéticos, se movimentando como bêbados ou remando loucamente em círculos. A contagem de espermatozoides também parece ter caído acentuadamente nos últimos 75 anos, de maneiras que afetam nossa capacidade reprodutiva”.

Apesar de não haver unanimidade em relação ao tamanho do problema e o quanto ele pode, de fato, afetar o desenvolvimento da espécie humana e a expectativa de vida, há consentimento em todas as pesquisas em relação ao possível principal causador dessa “crise de esperma”: os ingredientes químicos, conhecidos também por serem disruptores endócrinos, presentes em pesticidas, plásticos, cosméticos, produtos de higiene pessoal e incontáveis outros produtos que fazem parte da nossa vida.

Como Kristof explica, “a crise da saúde reprodutiva masculina parece começar no útero. Fetos masculinos e femininos começam a se desenvolver praticamente do mesmo jeito, e, em seguida, os hormônios iniciam a diferenciação entre machos e fêmeas. O problema parece ser o fato dos disruptores endócrinos imitarem os hormônios e atrapalharem esse desenvolvimento, interferindo no processo biológico desses fetos se tornarem machos”.

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Shanna Swan, epidemiologista da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai disse na entrevista que para se prevenir é necessário evitar o máximo possível plásticos, incluindo alimentos ou bebidas que tenham tocado em plástico ou sido aquecidos em plástico (lembra quando falamos das questões acerca da garrafa de água?). Ela recomenda comer orgânicos para evitar resíduos de pesticidas, e evitar Tylenol e outros analgésicos durante a gravidez. Recibos de impressoras térmicas, tipo cupons fiscais, também são tóxicos e é bom se manter longe sempre quando possível. Ela indica consultar os guias de ingredientes em ewg.org/consumer-guides. Por aqui, temos uma lista de bolso com ingredientes em cosméticos que você deve evitar.

Entretanto, é muito importante lembrar que essa não é uma questão apenas de escolhas pessoais e sim um caso de saúde pública. Uma legislação mais rígida e a proibição de ingredientes conhecidos por serem disruptores endócrinos são passos importantes a serem dados tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos – pelo menos para alcançar a União Européia, que têm uma tolerância menor com ingredientes químicos, pesticidas e agrotóxicos, etc.

As indústrias de plástico, químicos e cosméticos detêm dinheiro e poder suficientes para fazer lobby, inviabilizar pesquisas que não sejam dos seus interesses e continuar usando os produtos e ingredientes que mais lhe agradam. O lado bom é que cada vez mais e mais cientistas, jornalistas e pessoas começam a entender e alertar sobre esse problema. Como bem compara Nicholas Kristof, a briga dos ingredientes tóxicos de hoje é reprise da briga da indústria do tabaco de décadas atrás. Mas, diferente do cigarro que podemos simplesmente escolher fumar ou não, os ingredientes tóxicos causando problemas hoje estão em praticamente todos os produtos e é impossível viver longe deles. O que torna essa briga ainda mais complicada e urgente.

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