Falso Espelho: Jia Tolentino Propõe Reflexões Incômodas Sobre Autoimagem e Autoilusão

“A loucura cotidiana perpetuada pela internet é a loucura dessa arquitetura que instala a identidade pessoal no centro do universo. É como se estivéssemos em um posto de observação olhando para o mundo inteiro com um binóculo que faz tudo se parecer com nosso próprio reflexo”. O argumento difícil de contestar é da escritora Jia Tolentino e faz parte de seu livro Falso espelho: reflexões sobre a autoilusão, recém-publicado no Brasil pela editora Todavia, com tradução de Carol Bensimon, uma antologia de ensaios que, em pouco tempo, já se tornou best-seller nos Estados Unidos.

Tolentino nasceu em 1988 no Canadá, descendente de filipinos, e se mudou para os Estados Unidos ainda na infância. Começou a usar a internet aos dez anos, participou de um reality show aos dezesseis e também serviu no Quirguistão pelo Corpo da Paz, experiências que relata nesse livro e em que parte de si mesma para examinar a geração a que pertence e a cultura que a permeia. Das questões psíquicas às sociais, ela vai tentando construir uma narrativa que organize e analise alguns acontecimentos fatídicos do século 21 — como a ascensão do conservadorismo e a eleição de Trump —, mas evita se apressar em conclusões. É o processo, sobretudo, o que parece interessar a ela. “Os últimos anos me ensinaram a deixar de lado meu desejo por conclusões, a aceitar que nada é estático e que a negociação será perpétua e, principalmente, a esperar que as pequenas verdades continuem surgindo com o tempo”, escreve.

Jia Tolentino // Divulgação

Na introdução, conta que Falso espelho foi escrito “entre a primavera de 2017 e o outono de 2018, um período no qual a identidade americana, a cultura, a tecnologia, a política e o discurso pareciam se fundir em uma intolerável supernova de conflitos em constante evolução, uma fatia de tempo em que a experiência cotidiana parecia, ao mesmo tempo, um elevador parado e uma montanha-russa de um parque de diversões, período em que muitos de nós pensávamos que as coisas não podiam ficar piores, mas é claro que depois pioraram”.

A antologia é formada por nove ensaios: “O eu na internet”, “Entrando em um reality show”, “A otimização constante, “Heroínas puras”, “Êxtase”, “A história de uma geração em sete golpes”, “Viemos da velha Virgínia”, “O culto da mulher difícil” e “Com temor, eu te desposo”. Misturando uma escrita autobiográfica, que parte das experiências pessoais da autora, com uma sondagem crítica mais distanciada, apoiada em leituras e análises teóricas (Tolentino dedica um capítulo à parte às leituras de apoio), o livro não é apenas uma coisa, nem outra. A combinação tem rendido bons frutos: a escrita da autora, hoje articulista da revista New Yorker, tem sido comparada a de Joan Didion, uma das ensaístas mais importantes do país.

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Os elogios a Falso espelho soam merecidos: estamos diante de uma autora que busca evitar simplificações, ainda que se seja lida por um público amplo e jovem, que costuma ser menosprezado. Se, vez ou outra, Tolentino até cometa uma ou outra, a verdade é que, na maior parte do tempo, consegue manter a argumentação com uma complexidade acima da média.

A escritora inglesa Zadie Smith é uma das leitoras a quem a escrita de Tolentino encantou. Ela comenta que é “fácil escrever sobre as coisas como você desejaria que elas fossem — ou como os outros dizem como elas deveriam ser. É muito mais difícil pensar por si só, com o mínimo de autoengano. E é ainda mais difícil num momento como esse, quando nossas ideias estão, mais do que nunca, sujeitas a manipulação, monetização e vigilância”. Para Smith, ainda assim, Tolentino “conseguiu falar de muitas verdades inconvenientes — num estilo de causar inveja. Um livro desafiador, de inteligência cortante, que fará muitos de nós olhar duramente para o espelho”.

Título: Falso Espelho: Identidade e autoimagem num mundo assolado pelo eu  (2020)
Autora: Jia Tolentino
Editora: Todavia
ISBN-10: 6551140130
Compre na editora: site da Todavia
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