O Que Feminismo, Direito dos Animais e Sustentabilidade Têm Em Comum?

modefica-IDENTIDADE-SELO-ECOFEMINISMO“Ecofeminismo: Mulheres e Natureza” é um série de matérias que busca discutir a importância da conexão das mulheres com os seres não-humanos e o meio-ambiente. A série tem como objetivo abordar as questões éticas e morais, além das questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao feminismo, veganismo e ecologia.

 

Você pode ouvir essa pauta no player abaixo. Todos os textos da série Ecofeminismo: Mulheres e Natureza estão disponíveis para audição no Spotify, iTunes, Google Podcast ou no seu player preferido.

 

 
Você já parou para pensar como os seres não-humanos e o meio ambiente são tratados como objetos à disposição do ser humano e do sistema para gerar lucro e benefícios próprios? Às vezes, essa percepção nos passa longe, não reconhecemos os chamados ‘sistemas da diferença’, das quais mulheres, pessoas não-brancas, seres-não humanos e meio ambiente fazem parte, e cometemos atos tão opressivos quanto os que sofremos como mulheres para com os animais e o meio-ambiente.

Já está dado por toda uma extensa teoria e crítica feminista que mulheres e animais fazem parte do mesmo sistema de dominação. A naturalização da mulher como inferior ao homem não difere da naturalização dos animais como inferiores aos seres humanos. Assim como a mulher é um objeto a serviço do homem e do sistema, os seres não-humanos e o meio-ambiente são objetos a serviço do ser humano e do sistema.

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Como afirma Donna Haraway em seus escritos “Gênero para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra”, existe uma história sócio-política por trás do discurso colonialista ocidental das categorias binárias sexo/gênero e natureza/cultura que foi ignorada e precisa ser analisada se quisermos entender os sistemas de dominação naturalizados – seja de mulheres, pessoas não-brancas e não ocidentais, animais ou meio ambiente:

“Esse discurso [colonialista ocidental] estrutura o mundo como objeto do conhecimento, em termos de apropriação, pela cultura, dos recursos da natureza. Uma variada literatura recente, liberatória e oposicional, tem criticado esta dimensão epistemológica e linguística, etnocêntrica de dominação daqueles que habitam categorias “naturais” ou vivem nas fronteiras mediadoras dos binarismos (mulheres, pessoas não-brancas, animais, o meio ambiente não-humano).”

Em seu Manifesto Ciborgue, Haraway mostra ainda a fragilidade das barreiras que dividem o humano e o animal ao falar sobre o trabalho dos primatologistas, pesquisadores “trabalhando em ‘fronteiras’, onde as diferenças entre animais e humanos são definidas – diferenças que são mais confusas do que as pessoas pensam. Se os macacos não são fundamentalmente diferentes das pessoas, então nosso sentimento de superioridade relativamente aos animais pode estar baseado em um castelo de areia” [1].

Sob o patriarcado como ordem social, a natureza, os animais e as mulheres são objetificados, possuídos e estão sujeitos ao controle masculino sobre seus sistemas reprodutivos

 

Andrée Collar

Animais, negros, mulheres, indígenas, estrangeiros, homossexuais e pessoas trans estão à margem das normas regulatórias e, por isso, são partes dos mesmos sistemas de diferença [2]. Como Butler constata em forma de questionamento em sua teoria de desconstrução do “sexo”, esses corpos não valem a pena proteger, salvar e prantear. E, mesmo dentro dos sistemas de diferença, alguns corpos valem mais que outros [3]

É importante mantermos essas relações em mente, procurando lutar contra todas as opressões, porque como falou a ativista feminista negra, Aph Ko, “ser membro de uma classe oprimida não te isenta de ser opressivo com outros. Devemos abster-se de ficar falando, confortavelmente, apenas da nossa própria opressão específica”.

Não é possível pensar em um mundo livre de opressão feminina, racismo, machismo e sexismo com o patriarcado como ordem social. Enquanto houver abatedouros, haverá guerras. Enquanto houver opressão sistêmica para com um, haverá opressão sistêmica para com todos.

“Aquele homem ali diz que as mulheres precisam ser auxiliadas ao entrarem em carruagens, e levantadas sobre as valas, e ter o melhor lugar de todos os lugares. Ninguém nunca me ajudou em carruagens, ou sobre poças de lama, ou me dá qualquer lugar melhor! E eu não sou uma uma mulher?” – Sojourner Truth

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