Festival “Tudo Sobre Mulheres” Aborda Questões de Gênero no Cinema

A cineasta Danielle Bertolini estava na Bélgica quando recebeu uma boa notícia: fora aprovada em um edital do Ministério da Cultura e, após um hiato de quase oito anos, poderia voltar a realizar o Tudo Sobre Mulheres – Festival de Cinema Feminino da Chapada dos Guimarães. A comemoração sofreu um abalo no dia seguinte, quando Danielle viu imagens dos protestos contra a visita da filósofa americana Judith Butler a São Paulo.

Em tempos tão polarizados, ela passou a temer as possíveis8 reações a um evento que propõe debater questões de gênero em uma cidade de 19 mil habitantes no interior do Mato Grosso. “Mas depois pensei: ‘Quer saber? Não poderia haver melhor momento para retomar o festival”, recordou Danielle, em entrevista por telefone ao Modefica. “Se estamos vivendo em um tempo no qual alguém faz boneca de bruxa de uma filósofa, então é a hora certa de tomar posição.”

É neste contexto que o Tudo Sobre Mulheres, criado em 2005, realizará sua sexta edição de 5 a 9 de setembro. Até o dia 29 de junho, cineastas de todo o Brasil podem inscrever filmes de até 25 minutos que abordem o universo feminino, e que serão avaliados por uma curadoria formada por mulheres da própria região: além de Danielle, a professora e produtora cultural Aline Wendpap e a comunicadora e produtora audiovisual Fernanda Solon.

Fatores pessoais e conjunturais – sobretudo dificuldades de financiamento – motivaram a interrupção do festival, e não há dúvida de que muita coisa mudou desde a última edição, realizada em 2010, tanto no movimento feminista quanto na atenção dada à participação feminina no audiovisual. Na época incipiente no Brasil, o debate sobre a mulher no cinema se fortaleceu e tem ocupado o noticiário, impulsionado por movimentos globais como #MeToo e #TimesUp. Antes mesmo de o Tudo Sobre Mulheres começar, a organizadora já percebe as diferenças: “Estou observando um engajamento e uma sororidade muito maiores”, comentou, destacando parcerias firmadas com o Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (Imune) e o coletivo de Mulheres do Audiovisual da região, entre outros grupos. “Nada disso existia antes. O audiovisual brasileiro cresceu muito e a mulher está nesse movimento também.”

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Se estamos vivendo em um tempo no qual alguém faz boneca de bruxa de uma filósofa, então é a hora certa de tomar posição.

Ao mesmo tempo, episódios como os ataques à visita de Butler e à perfomance La bête, realizada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, indicam que parte da população reage com força e até mesmo violência a determinados debates e obras artísticas. Para evitar ter de selecionar apenas filmes com classificação indicativa livre, Danielle decidiu, pela primeira vez, montar uma tenda na Praça Dom Wunibaldo, onde acontecem as sessões do Tudo Sobre Mulheres. Ela recorda que, em 2008, foi criticada e teve de pagar multa ao Conselho Tutelar por exibir ao ar livre o filme Para que Não me Ames, no qual havia uma cena de sexo – e que acabou vencendo aquela edição do festival. “Hoje não seria apenas criticada e não levaria apenas uma multa: seria linchada nas redes sociais.”

Para a diretora do festival, o momento sócio-político torna ainda mais importante levar a discussão sobre gênero a um lugar distante do eixo Rio-São Paulo. “Estamos em um local de crescimento de igrejas evangélicas e com altos índices de violência contra as mulheres e contra a população gay. Trazer essa discussão para cá é muito importante”, opinou. Danielli também vê um cenário de fortalecimento do audiovisual da região, com maior número de produções locais e a criação, neste ano, do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A organização está fazendo forte divulgação entre o público universitário e promovendo um sistema de hospedagem solidária, no qual moradores da Chapada recebem, em suas casas, jovens que não podem pagar acomodação em pousadas turísticas.

A valorização da diversidade territorial também se dá na premiação do festival, que terá alguns troféus regionais, seguindo a divisão proposta pela Agência Nacional do Cinema (Ancine): região CONNE (Centro-Oeste, Norte e Nordeste), região FAMES (Minas Gerais, Espírito Santo e Região Sul, e Rio de Janeiro/São Paulo.

Seleção e programação

Até agora, a edição deste ano já tem mais de 200 filmes inscritos. Ao contrário de outros festivais do gênero, o Tudo Sobre Mulheres põe o foco no protagonismo feminino em frente às câmeras, mas permite a participação de produções dirigidas por homens. De acordo com Danielle, o objetivo é observar “quais mulheres são filmadas e quais histórias são contadas”, e já é possível perceber uma diferença no perfil das personagens retratadas nos filmes de cineastas homens. “Antes, via um universo de protagonistas problemáticas, com depressão, síndrome do pânico, histeria. Agora, há maior valorização do empoderamento”, avalia, acrescentando que sua intenção nunca foi a de criar um “clube da Luluzinha”. “Acho que não vamos conseguir fazer uma revolução feminista só com as mulheres. Os homens têm de estar junto com a gente nessa história.”

O conceito de “universo feminino” previsto no regulamento é bastante amplo, e as curadoras não estabeleceram critérios específicos além da busca por equilíbrio de formatos (ficção, documentário e animação) e pela diversidade de temáticas e recortes. Segundo Danielli, grande número de produções inscritas incluem personagens trans, abordam questões urgentes como assédio e violência e também as novas mídias, em particular o ciberbullying.

Antes, via um universo de protagonistas problemáticas, com depressão, síndrome do pânico, histeria. Agora, há maior valorização do empoderamento.

As atividades do Tudo Sobre Mulheres têm entrada gratuita e, como o nome indica, a programação não se restringe ao cinema. Haverá performances, shows musicais, apresentações teatrais e oficinas, sempre com o feminino em pauta. Já está definida, por exemplo, uma exposição fotográfica paralela sobre Vó Francisca, famosa benzedeira da Chapada, seguindo a proposta de dar destaque à comunidade local. Em edições anteriores, o festival organizou eventos tão diversos como um encontro de mulheres da zona rural e uma oficina de políticas públicas para primeiras-damas de municípios da Baixada Cuiabana. “Procuramos pensar na realidade do território em que estamos, sempre levando a um caminho voltado para a arte”, define Danielle.

Cineastas que queiram inscrever seus filmes devem ler o regulamento e enviar o material necessário até 29 de junho, pelo site do festival. Mais informações no email [email protected] ou pelo telefone (65) 99224-8215.

 

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