Conheça as Histórias de Afeto Por Trás do Longa “Café Com Canela”

É bem provável que você nunca tenha imaginado o município baiano de Cachoeira como um polo cinematográfico. Afinal, esta pequena cidade de cerca de 34 mil habitantes está não apenas fora do eixo Rio-São Paulo como localizada no Recôncavo da Bahia, a cerca de 120 km da capital, Salvador. Mas é de Cachoeira que vem um dos filmes brasileiros mais celebrados do ano: Café com Canela, primeiro longa-metragem de Glenda Nicácio e Ary Rosa.

Café com Canela narra o reencontro de duas mulheres que vivem no Recôncavo. Em São Félix está Margarida, professora aposentada que, em luto pela morte do filho, há anos mora sozinha e quase não sai de casa. Do outro lado do rio, em Cachoeira, está Violeta, ex-aluna de Margarida que agora é casada e mãe de dois filhos. Batendo de porta em porta para vender coxinhas, Violeta se depara com a antiga professora e decide ajudá-la a recomeçar.

O processo de transformação se dá aos poucos, em meio a xícaras de café com canela, sessões de faxina e passeios de bicicleta – bem ao estilo local. “Cachoeira é um lugar que proporciona encontros”, contou a diretora Glenda Nicácio, em entrevista por telefone ao Modefica. “Existe uma possibilidade maior de cuidado, de reparar mais, de se dedicar aos pequenos momentos. O Café é muito feito disso.”

Glenda e Ary buscaram referências menos em outros filmes e cineastas, e mais nas relações entre mulheres que viam nas ruas da cidade, marcada pela tradição matriarcal e de grande população negra.

Não por acaso, afeto tornou-se a palavra mais frequentemente citada entre aqueles que conversam sobre o filme. Glenda e Ary buscaram referências menos em outros filmes e cineastas, e mais nas relações entre mulheres que viam nas ruas da cidade, marcada pela tradição matriarcal e de grande população negra. O longa também registra as próprias descobertas da dupla: mineiros, os diretores se conheceram em Cachoeira em 2010, integrando a mesma turma do curso de cinema da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). De colegas de faculdade os dois passariam a amigos, parceiros criativos e sócios na produtora Rosza Filmes – além de vizinhos, um grande facilitador na hora das reuniões.

Publicidade

 

Talentos locais

Café com Canela começou como um roteiro de curta-metragem escrito por Ary, que passou por cerca de 30 tratamentos até se tornar o longa que se vê nas telas. A dupla começou a conceber o trabalho em 2011, mas só em 2014 o projeto tornou-se viável financeiramente ao ser contemplado por um edital de arranjos regionais. “Pensar o Café é pensar a trajetória das políticas públicas, seja das universidades do interior, seja da regionalização do cinema”, ressaltou Glenda.

Os cineastas sabiam que o desafio não era pequeno: embora o curso da UFRB ocupe posição de destaque, Cachoeira está longe de ter a estrutura de uma metrópole no que diz respeito à produção cinematográfica. Importar talentos de outros lugares do Brasil, ou mesmo de Salvador, não era a prioridade da dupla, que tinha um pensamento estratégico: ajudar a fortalecer os profissionais locais para ter uma equipe-base em projetos futuros. “Era uma visão sustentável mesmo”, definiu a diretora.

Pensar o Café é pensar a trajetória das políticas públicas, seja das universidades do interior, seja da regionalização do cinema.

A estratégia guiou todo o trabalho, a começar pela seleção das protagonistas: a experiente Valdineia Soriano, do Bando de Teatro Olodum, foi escolhida para interpretar Margarida, enquanto Aline Brunne, também estudante de Cachoeira, assumiu o papel de Violeta. A equipe de cerca de 50 pessoas era majoritariamente local, com “soluções criativas” ajudando a preencher as lacunas de produção.

 

Oficinas e parcerias

Uma destas soluções foi a realização de uma oficina de cenografia, ministrada por três cenotécnicos profissionais a cerca de 30 pessoas, entre integrantes da equipe do filme, moradores da cidade, estudantes universitários e alunos de escolas públicas. Durante um mês, o grupo se encontrou diariamente para um curso no estilo work in progress: enquanto aprendiam, construíam a locação usada como a casa de Margarida em um espaço de galpão na propriedade da Rosza Filmes. Neste trabalho coletivo, montaram e desmontaram os diferentes cômodos (quartos, cozinha, sala, corredor) conforme as necessidades de filmagem. “Aprendemos desde quais são os equipamentos até cortar os materiais, construir as paredes, pintar…”, contou Glenda, que também assina a direção de arte.

Na criação dos figurinos, outra solução criativa: uma parceria com a Cooperativa de Trabalho em Costura e Artesanato de Maragogipe, cidade próxima a Cachoeira. Embora as costureiras nunca tivessem criado figurinos para cinema ou teatro, o profundo conhecimento sobre a moda e os costumes da região fez com que acrescentassem bastante ao projeto. “Elas colaboraram muito no sentido de indicar tecidos e cortes. Apresentávamos uma ideia e elas falavam: ‘Acho que ela não usaria isso, não, as meninas aqui geralmente gostam mais assim’. Era um espaço de saber muito mais delas do que nosso”, explicou Glenda.

 

Os bastidores das gravações de Café Com Canela mostram os detalhes da produção.

 

O esforço em fortalecer a comunidade local se mostrou bem-sucedido não só pelo sucesso de Café com Canela, mas pelo fato de muitos dos profissionais terem sido recontratados para trabalhar em Ilha, segundo longa-metragem de Glenda e Ary, que estreia neste mês no Festival de Brasília.

Voltar ao evento encerra um bonito ciclo para a dupla, já que a trajetória de Café com Canela começou na própria capital, há um ano. Glenda se recorda das perguntas que ela e Ary ouviram durante o festival: “Vocês pensam em ficar em Cachoeira? Vocês acham que vão conseguir?” A resposta, segundo a diretora, segue a mesma: “Cachoeira é nosso plano A, B e C.”

Gostou dessa matéria? Compartilhe.
Tags

.