O Que Você Precisa Saber Sobre Ginecologia Natural

Partindo do pressuposto de que o útero é o ‘coração’ do corpo feminino, responsável por emanar e receber as emoções vivenciadas e suas consequências, a Ginecologia Natural expressa, em sua nomenclatura, a premissa básica dessa prática: quebrar paradigmas antes estabelecidos pela medicina tradicional sobre o corpo, as doenças e o ciclo menstrual das mulheres a partir da construção de um processo de autoconhecimento, de cuidado, de ser naturalmente plena e saudável.

O alicerce do que chamamos de Ginecologia Natural vem dos saberes ancestrais, mas ainda hoje, séculos depois dos nossos antepassados terem descoberto a importância dos cuidados com o próprio corpo a partir de um olhar para a natureza, ainda temos várias dúvidas sobre o que é esse processo, o que ele representa, quais são os “tratamentos” mais adequados e ficamos repletas de dúvidas quando colocamos o natural de cara com o mundo alopático da saúde mainstream. Porém, um pouco mais de conhecimento sobre o tema pode transformar a visão que você tem do seu corpo, de como as emoções podem causar doenças e, o mais importante, como a cura pode estar bem aí, dentro de você mesma.

 

Autonomia e liberdade do ser mulher (sem tabus).

Com origem nos países Andinos, mais especificamente Chile, Uruguai e Argentina, a chamada Ginecologia Natural é, na verdade, um movimento que resgata os saberes ancestrais sobre como cuidar do corpo, reconhecendo-o como o instrumento mais poderoso de vida e de cura, e está intrinsecamente relacionada ao sagrado feminino, a conexão com a força e a essência da mulher, com a terra, a lua, saberes ensinados e deixados como herança por mulheres de outros tempos.

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Tendo como ponto de partida a região mais energética da mulher, a região pélvica responsável por abrigar o chakra da sexualidade, a prática da ginecologia natural reforça a necessidade de observar esse lugar feminino de forma atenta para encontrar respostas e sinais, estimulando o olhar para dentro de nós mesmas com o objetivo de decifrar as emoções e comportamentos que influenciam e propagam doenças e curas nos nossos corpos.

A Ginecologia Natural, que não é uma especialidade da Medicina tradicional, gira em torno da consciência corporal para identificar quais situações, comportamentos e emoções desencadeiam cada tipo de doença, distúrbio ou desregulamento do ciclo. Esse método possibilita diagnóstico e tratamentos holísticos, ou seja, é capaz de enxergar o corpo como um organismo integrado, com todos os seus órgãos interligados e conectados, funcionando de forma conjunta e correspondente.  

Ser adepta à Ginecologia Natural como profissional da saúde é olhar para a mulher como um ser integral, não apenas focar no problema específico sendo relatado no momento da consulta, mas sim considerar, para um diagnóstico real e assertivo, seus sentimentos, seus problemas, suas angústias e suas alegrias. Indo além, é entender também como ela interpreta os sinais enviados pelo próprio corpo, como aceita (ou não) a sua menstruação, e ainda como ela mesma vê a sua feminilidade –  ajudando-a no processo como um todo.

 

Comprovação científica não. Comprovação empírica.

É bem verdade que muitos dos métodos utilizados pela Ginecologia Natural, e que vamos falar um pouco mais sobre nesye texto, não são cientificamente comprovados, mas cada vez mais mulheres estão vivenciando-os na prática e vendo os resultados reais que eles podem trazer para um dia a dia mais saudável, indo desde a substituição da pílula anticoncepcional por um método não-hormonal ou natural (você pode entender melhor sobre a diferença entre eles na nossa matéria sobre contracepção não hormonal para iniciantes) até a cura de doenças como endometriose, síndrome dos ovários policísticos e alguns casos de HPV.

Fazendo um recorte histórico, percebemos que até hoje nós, mulheres, não somos educadas para termos uma percepção atenta do nosso corpo. Por mais que o conhecimento corporal faça parte do currículo escolar nas disciplinas de ciências e biologia em algumas instituições de ensino, a abordagem ainda não é tão próxima e pessoal como deveria ser, e está longe de incentivar o autoconhecimento por meio de práticas como o toque, um processo humano, porém ainda cercado de tabus.

Marcela Campos, especialista em contracepção natural e saúde reprodutiva holística destaca em um vídeo no YouTube que nós temos o direito de saber o que se passa em nosso corpo porque é só a partir do momento em que nos conhecemos por inteiro que nos tornamos capazes de fazer melhores escolhas, como, por exemplo, decidir qual método contraceptivo queremos usar – uma escolha muitas vezes tomada pelo nosso ginecologista e não por nós mesmas. Para ela, um obstáculo para esse autoconhecimento é o medo, cuja fonte é a desinformação e os tabus em torno da sexualidade feminina promovidos pela nossa sociedade patriarcal e machista. E todos esses fatores podem levar mulheres a um embate autodestrutivo com seus próprios corpos.

Entretanto, mesmo a passos lentos, as mulheres têm conseguido encontrar seu lugar como protagonista da própria história e, consequentemente, a Ginecologia Natural vem ganhando mais adeptas por promover um atendimento centrado na mulher como um todo – daí a visão holística -, sem julgamentos e em um formato humanizado que tenta encontrar alternativas que fogem aos padrões dos medicamentos com milhares de substâncias tóxicas e dos exames agressivos e invasivos. De acordo com o Google Trends, o número de buscas pelo termo, em 2010 por exemplo, era nulo; já em em 2014 as pesquisas por Ginecologia Natural atingiram, na escala, 69 em agosto, alcançando a marca de 100 em dezembro; e em 2018 as buscas têm crescido consistentemente até agora.

Um dos pontos centrais dessa metodologia é ajudar a mulher a fazer autoexames periodicamente através de orientações sobre como analisar o útero, a vulva e a vagina, podendo buscar auxílio apenas quando achar necessário ou quando notar que algo está diferente de como deveria estar. Esse posicionamento concede autonomia às mulheres e as enxerga como capazes de entender como seus corpos devem se comportar e reconhecer seus sinais se algo estiver ‘fora do seu devido lugar’.

 

A mulher como referência.

Bel Saide é a médica ginecologista por trás do projeto Ginecologia Natural, o resultado de uma verdadeira revolução na sua vida pessoal, profissional e, principalmente, na forma não só de se enxergar como mulher, mas de enxergar as outras mulheres. O seu processo de gravidez, o parto normal e a experiência de mãe solo inspirou Bel a praticar a obstetrícia com uma abordagem mais humana, feminina e próxima, olhando para suas pacientes de forma mais integral, abrangente e intuitiva. Na caminhada, ela entendeu que a relação de cada mulher com a sua própria vida está diretamente relacionada com as doenças que ela carrega consigo.

Nessas descobertas conheceu a Ginecologia Natural que, como ela relata em seu manifesto, resgata o conhecimento tradicional das mulheres em seus cuidados íntimos, tratando suas questões com amorosidade porque se conecta profundamente com elas para criar uma atmosfera de autoconhecimento, autonomia, transformação e libertação. Para Bel, esse processo é, ao mesmo tempo, muito particular, por estimular o carinho com um corpo que é só seu, e bastante coletivo porque incita a troca e o apoio mútuo entre o público feminino.

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A Bel médica e mulher propaga a Ginecologia Natural em seus canais na internet para romper os limites entre as quatro paredes do seu consultório e ajudar as mulheres que buscam por uma medicina mais humana, verdadeira, respeitosa e segura, capaz de dar a cada uma delas mais poder e menos dependência, centrada unicamente na mulher e em seu corpo por inteiro. Para auxiliar as mulheres nessa jornada ela escreveu o  ebook “Ginecologia sem hormônios: é possível viver sem pílula”.

 

O útero como receptor das emoções femininas.

A Ginecologia Emocional é uma interessante vertente dentro da Ginecologia Natural. Descobrimos esse conceito pela Kareemi, responsável por dar vida ao tema a partir de uma transformação pessoal e da busca pelos conhecimentos ancestrais femininos como norte para seu trabalho. Ela decidiu abdicar de sua carreira como jornalista e gestora no mercado da comunicação para focar no Desenvolvimento Humano, e depois de um grave acidente no qual perdeu seu braço direito, viu que tinha a chance de transformar uma tragédia no maior despertar para si mesma e para o mundo, criando uma realidade inteiramente nova.

Seu primeiro contato com a Ginecologia Natural foi lá em 2013, numa busca de entender e cuidar da Síndrome dos Ovários Policísticos. Nesse momento, Kareemi passou a olhar para o corpo em que habita sob uma nova ótica: dos saberes femininos ancestrais, do autoconhecimento, da meditação oriental e do empoderamento pessoal. Daí surgiu a Ginecologia Emocional, que tem como foco mudar a visão das mulheres sobre seus corpos e sobre os tratamentos convencionais, transformando suas emoções para conquistar o tão almejado bem-estar físico e emocional. A Ginecologia Emocional enxerga os problemas de saúde atuais como consequências das dores emocionais do passado e do presente de cada uma, afetando diretamente seus ciclos menstruais que funcionam como nossa bússola natural comportamental.

De acordo com o método de Kareemi, a partir do momento em que você compreende como seu estado emocional afeta seu estado corporal, causando irregularidades no seu ciclo menstrual, na menopausa e gerando doenças ginecológicas, você consegue identificar a fonte do sofrimento para se reconectar com sua própria essência, corrigindo comportamentos, mudando o rumo da sua história, curando doenças como a endometriose, o hipotireoidismo e os miomas.

Os pilares do método criado por ela, o Método A3, são autoestima, amor próprio, autoconfiança somados à consciência sobre a verdadeira beleza feminina capaz de transformar as mulheres – por dentro e por fora. Tudo isso baseado na consciência corporal, entendida como a percepção integral do seu corpo para reconhecer e identificar seus processos e movimentos. Para Kareemi, a Ginecologia Emocional vai além dos princípios básicos da Ginecologia Natural porque amplia, trabalha e conscientiza a importância da conexão de sororidade e empatia entre as mulheres, levando-as a caminhar por um caminho mais profundo e amplo que as conduzirá ao propósito da reconexão com o feminino e ao poder da autocura que nasce com o reconhecimento de seus traumas, emoções e comportamentos. Para quem se interessa em ir mais a fundo nesse papo, a Kareemi criou uma  Master Class sobre Ginecologia Emocional

 

Tratamento fora do padrão: único e pessoal.

O olhar global que a Ginecologia Natural lança sobre a mulher reflete nos tipos de tratamentos recomendados. A partir do pressuposto de que cada mulher é única, o tratamento indicado vem aliado com o que cada mulher acredita que será eficaz no corpo que habita, só assim, alcançando as respostas esperadas. Aliando conhecimentos da fitoterapia, da aromaterapia, da acupuntura, da medicina ayurvédica, medicina chinesa e de outras terapias, a Ginecologia Natural resgata a admiração pelo conhecimento do corpo feminino em seus processos inatos e naturalmente eficazes, integrados com, por exemplo, ervas medicinais.

Esse campo das ervas medicinais, inclusive, é de vastas possibilidades: a artemísia para equilibrar as energias da mulher; a camomila usada em banhos de assento que auxiliam na manutenção do pH vaginal; a malva e barbatimão no combate à candidíase; a aroeira por ser cicatrizante e antiinflamatória indicada para corrimento vaginal, hemorróidas e mucosas; a calêndula, emoliente, auxilia a vinda da menstruação e é recomendada após o aborto e o parto, além de ser usada como escalda-pés; a rosa branca, tida como adstringente, calmante e auxilia em processos de limpeza, infecção uterina e candidíase.

 

Plantas medicinais de David Hoffmann no Amazon.

 

Sobre a alimentação, ponto primordial na busca por uma vida mais saudável e equilibrada, é preciso considerar que nossos hormônios podem estar fora de órbita porque o que comemos não supre nossas reais necessidades biológicas, principalmente antes e depois do período menstrual. Ingerir refeições que contenham zinco, selênio, iodo, vitamina B6, ômega 3, magnésio e ácido fólico favorece a saúde. Não menos importante, a escolha por alimentos orgânicos e agroecológicos contribui para o seu processo como um todo pela não ingestão de agrotóxicos como fungicidas e bactericidas nocivos.

A desconstrução de mitos é considerada um tratamento dentro da Ginecologia Natural porque leva a mulher a aceitar seu processo natural de renovação de ciclos e da menstruação como a capacidade singular de gerar uma nova vida. Nesse quesito, a indicação é trocar os absorventes íntimos tradicionais – feitos de plástico e/ou algodão alvejado, com aromas sintéticos -,  responsáveis por causar mau cheiro por deixar a região íntima muito abafada e favorecer a proliferação de microorganismos, por aqueles sem química como os coletores e os absorventes de tecido. Além da questão da saúde vaginal, trocar absorventes descartáveis por opções reutilizáveis liberta a mulher do que ela enxerga como negativo para a sua vida e muda a relação com o sangue menstrual.  O uso de sabonetes compostos por ingredientes naturais é outra solução para evitar infecções.

No quesito estresse, uma das recomendações é aliviar a tensão que pode bagunçar o seu dia a dia e o funcionamento natural de suas funções corporais através da busca de ajuda e apoio de profissionais da saúde e de pessoas próximas, buscando também praticar atividades centradas no seu bem-estar, que pode ser uma caminhada no final da tarde, uma aula de yoga ou simples exercícios de respiração.

Nessa caminhada em prol da desconstrução de mitos sobre temas femininos relacionados à Ginecologia Natural, tratamentos e afins, Laís Souza, Jaqueline de Almeida, Luma Flôres e Máira Coelho criaram um manual sobre o assunto que está disponibilizado gratuitamente na internet para que todos tenham acesso. A ideia de criar o material surgiu quando elas participaram, em 2016, de uma oficina de ginecologia autônoma que aconteceu em Salvador.

A experiência despertou nelas o desejo de compartilhar com outras mulheres suas vivências, pesquisas e conhecimentos de quem teve a infância e adolescência marcada por informações superficiais acerca de temas como menstruação e reprodução, por exemplo, e agora participa de uma nova forma de interagir com seus corpos, com suas emoções, interioridade e desequilíbrios, harmonizando-se com a natureza a partir da observação do funcionamento corporal.

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