Ódio à Greta Thunberg Está Relacionado à Masculinidade Tóxica, Patriarcado e Negacionismo Climático

Em 23 de setembro, Nova Iorque recebe o UN Climate Action Summit 2019, conferência que precede a 25ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP25, que será realizada em Santiago entre os dias 02 a 13 de dezembro. Reunindo líderes de diversas instâncias, o objetivo do evento é buscar ações concretas para reduzir 45% das emissões de gases do efeito estufa até a próxima década e zerar as emissões dos mesmos até 2050.

Em agosto, a conferência sobre mudanças climáticas já era destaque nas manchetes graças à ativista Greta Thunberg, que decidiu viajar do sudoeste do Reino Unido à Nova Iorque por meio de um veleiro movido a energia solar. O meio de transporte inusitado para os dias atuais é porque viajar de avião emite, em média, 285g de dióxido de carbono por passageiro por hora. A iniciativa repercutiu no mundo todo e suscitou, além de elogios, críticas dirigidas à jovem ativista das mais diversas formas: desde sua preferência por trançar os cabelos à sua síndrome de Asperger. Mas muitas delas tinham um ponto em comum: foram feitas por homens negacionistas da crise climática, da extrema-direita e anti-feministas.

Enquanto a adolescente de 16 anos não tem medo de expor os erros dos líderes mundiais em se tratando de sua inércia frente ao colapso climático e ainda tentar intimá-los a promover ações reais, o papel se inverte: políticos, doutores, jornalistas e demais conservadores da sociedade civil decidem enfrentá-la não com dados e fatos, como os apresentados pela jovem, e sim com uma retórica infantilizada e raivosa. Não causa grande espanto o fato de Greta incomodar atores que pertencem a uma elite hegemônica responsável por se beneficiar do funcionamento do sistema como ele é há séculos. Ao dizer que o capitalismo global falhou e que não há brechas para existir no futuro, Greta tira os senhores de suas zonas de conforto ao conseguir mobilizar, em um ano de ativismo, mais de 1,6 milhão de pessoas em protestos pelo clima, em 133 países.

 

políticos, doutores, jornalistas e demais conservadores da sociedade civil decidem enfrentá-la não com dados e fatos, como os apresentados pela jovem, e sim com uma retórica infantilizada e raivosa.

 

Talvez outro ponto responsável por gerar tamanho incômodo é o reconhecimento internacional dado à adolescente, que já esteve ao lado de personalidades ilustres, como o Papa Francisco e o ex-presidente americano Barack Obama; foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz e convidada para discursar em diversos locais do mundo. Às ofensas direcionadas a Greta tem também relação com ego e masculinidade frágil. Num mundo onde as mulheres se sentem obrigadas a se diminuir o tempo todo para não ferir os homens, que se sentem desconfortáveis quando sua companheira recebe um salário maior, quando seu comportamento agressivo é posto em destaque, e quando são superados em campos já conquistados, se deparar com Greta não se mostra só uma questão de proteção dos próprios interesses.

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Cruzando os limites entre crítica e ódio direcionado

Ainda que muito variadas, podemos agrupar as críticas feitas à ativista em quatro tópicos: sua idade, a autoria de suas falas, um suposto apelo imagético e sua síndrome. A começar com sua idade, talvez o ponto mais chamativo de toda notícia dirigida à Greta. A jovem iniciou um protesto simples e solitário aos 15 anos, sentando-se à frente do parlamento sueco com cartazes com dizeres como “greve escolar pelo clima”.

Em poucos meses, ela já era capa nas manchetes dos principais jornais do mundo, sempre acompanhada das palavras “menina” ou “adolescente”. É aí um ponto forte de desmerecimento de toda sua luta pela questão do meio ambiente. Muitos alegam que, pela pouca idade, Greta está sendo manipulada por organizações, grupos políticos – ainda que os comentários nunca especifiquem quais – e até mesmo por seus pais. Os comentários não vêm apenas de cidadãos comuns irritados no Twitter. Steve Milloy, o ex-funcionário do time de transição do governo Trump, chamou a ativista de “fantoche adolescente”.

Outro grupo de xingamentos se destinam a autoria de suas falas. “Nada do que ela diz é original”, João Pereira Coutinho escreveu em sua coluna, na Folha de São Paulo. Outro argumento utilizado é que “Greta não é uma cientista”, como se entender a mensagem do colapso climático fosse algo digno apenas de mestres e doutores. A esta altura do campeonato, convenhamos, não há necessidade de um Lattes exímio para captar a mensagem do aquecimento global: a crise climática está na nossa cara.

Ademais, Greta nunca se propôs a ser original. Ela se baseia em dados da comunidade científica e da ONU em seus discursos, repetindo apenas o que está sendo dito há anos. Aliado a estas argumentações, encontramos também críticas a um suposto apelo imagético da jovem. Alguns dizem que sua idade e sua síndrome transformam ela em uma personagem “blindada” de críticas. A palavra “messias” também é muito usada para desmerecer sua atuação e, ainda, subjugar quem acredita em sua luta.

 

A esta altura do campeonato, convenhamos, não há necessidade de um Lattes exímio para captar a mensagem do aquecimento global: a crise climática está na nossa cara.

 

Mas textos maledicentes também têm sido feitos por mulheres. Talvez o mais severo deles feito recentemente à Thunberg tenha sido pela colunista do Estado de São Paulo, Sheila Leirner. Além de envolver todos os tópicos acima, seu discurso atacou a síndrome de Asperger da ativista com palavras e expressões preconceituosas, como “rosto (que) não revela nenhuma empatia” e “garotinha de olhos duros”. A crítica de Leiner é bem pouco criativa na sua argumentação. O texto replica adjetivos de forma maledicente como “messias”, “manipulada”, “extrema-esquerda anticapitalista”.

Para tentar embasar suas críticas, a colunista lança mão de comentários de psicanalistas franceses à respeito do espectro de autismo. No entanto, o país é reconhecida como “atrasada cinquenta anos” em comparação a outras nações no quesito saúde mental. A coluna foi denunciada ao Ministério Público Federal, ao Reclame Aqui, ao Fórum dos Leitores do Estadão e ao e-mail oficial do mesmo, por ferir seu código de conduta e ética. A denúncia foi feita por autistas militantes, mães de autistas e sociedade civil. Além disso, mais de dez médicos, psiquiatras e psicólogos brasileiros também trouxeram à público uma carta de repúdio ao texto.

Nesse mar de ódio direcionado, Greta não costuma ficar calada. Quando deputados conservadores se recusaram a estar presente durante sua fala no Parlamento Francês – se referindo à Greta como “profetisa do apocalipse” e “Justin Bieber da ecologia” – ela respondeu: “alguns decidiram não vir hoje. Muito bem. Não são obrigados, afinal somos apenas crianças. Mas eles devem escutar a ciência. É tudo o que pedimos”. Já o jornalista conservador do jornal australiano Herald Sun, Andrew Bolt, chamou-a de “um messias profundamente perturbado”. A ativista devolveu a crítica, respondendo que estava “profundamente perturbada” com o fato de que campanhas de ódio e conspiração negacionista continuassem a acontecer em relação à crise climática. Em março, Greta já havia se pronunciado sobre como as pessoas deviam se concentrar mais na questão do clima e menos nela.

 

A relação da masculinidade tóxica e negacionismo climático

Os ataque de homens brancos contra Greta são associados a uma necessidade de reafirmar o status quo do sexo masculino. A universidade de Tecnologia de Chalmers, na Suécia, lançou recentemente o primeiro centro de pesquisa acadêmica do mundo dedicado a estudar o negacionismo da crise ambiental. Por anos, eles têm examinado teses, argumentos, tweets – e encontrando uma relação entre esses posicionamentos com a extrema-direita anti-feminista. Os pesquisadores analisaram, em 2014, a linguagem utilizada pelo grupo e afirmam que os temas comuns não eram sobre a ameaça do meio ambiente, e sim sobre uma certa sociedade industrial moderna construída e dominada por sua forma de masculinidade.

A conexão tem a ver com a ameaça sofrida pelo grupo em várias instâncias, como, por exemplo, o desenvolvimento de discursos e ações pela igualdade de gênero e movimentos como o #MeToo. O ativismo climático é outro que se opõe ao seu modo de vida. A consequência disso são homens reacionários envoltos no discurso nacionalista e conservador da direita, aliados ao negacionismo da crise climática e de movimentos feministas.

A masculinidade tóxica envolve um pacote de valores e comportamentos interligados com a forma que entendemos o ser masculino. A concepção de cuidar, compartilhar, pensar no bem estar do próximo é um conjunto de práticas e simbologias ligadas unicamente ao sexo feminino. Ao homem, é reforçado sua necessidade histórica de se provar pela sua força e liderança. Mas essas diretrizes primitivas já não fazem mais sentido ao ser vivente deste novo século, principalmente aos que buscam a liberdade de liderar e serem protagonistas de suas vozes. As temidas feministas (também chamadas por estes de usurpadoras, coração gelado, bruxas, traiçoeiras, etc), são também as que pensam na necessidade de transformar ações centradas em um único grupo ou ser em ações para o coletivo.

Como colocamos essas questões do psique em situações práticas? Acredite se quiser, mas Martin Hultman, um dos pesquisadores de Chalmers, analisou em um artigo que, para muitos céticos, a ciência climática é vista como uma feminilização do ser. O posicionamento também repercute nos Estados Unidos: em 2017, os professores de marketing Aaron R. Brough e James EB Wilkie publicaram na Scientific American uma pesquisa responsável por apontar que, em um experimento, participantes descreveram que uma pessoa que utiliza uma sacola de lona para ir ao supermercado é entendida com traços mais femininos do que alguém que usa sacolas plásticas – independente do sexo do comprador. Ainda segundo pesquisadores de Chalmers, a medida que partidos conservadores se unem a noções nacionalistas, essa retórica misógina tende a fortalecer os laços entre céticos da questão climática e misóginos.

 

Uma ativista incomoda muita gente, duas ativistas incomodam muito mais

Quanto Greta embarcou para Nova Iorque, ela também entrou na mira de negacionistas americanos. No país comandado por Donald Trump, negacionista que tirou os EUA do Acordo de Paris, há uma outra voz igualmente provocadora e capaz de invocar comentários misóginos: Alexandria Ocasio-Cortez, eleita pelo partido Democrático, em 2018.

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A outra face do ativismo climático, Ocasio-Cortez chamou a atenção da mídia ao promover o Green New Deal, plano ambiental que propõe uma economia norte-americana livre de carbono até 2030. Somente no seu primeiro mês no Congresso americano, a deputada foi mencionada 76 vezes pela emissora conservadora Fox News. Assim como Greta, ela também recebe críticas pela sua idade: Alexandria tem 29 anos e é a mulher mais jovem a assumir um cargo no Congresso. Em Julho, o The Guardian publicou uma conversa entre as duas lideranças sobre os ataques recebidos sobre suas idades, o futuro e quais táticas ativistas realmente funcionam.

Greta Thunberg e Alexandria Ocasio-Cortez são fortes referências midiáticas sobre a crise climática, mas a consciência de aquecimento global, desmatamento, predatismo em todas as instâncias ambientais passa pelo protagonismo feminino nos mais diversos meios. As mulheres são as mais atingidas pelas variações climáticas e as que mais sofrem com a poluição ambiental, por exemplo. Se quisermos de fato evitar futuros catastróficos como secas e ondas de calor recordes, derretimento das calotas polares, elevação dos níveis dos oceanos, precisamos agir. E como Greta reforça, precisamos agir agora. Isso passa, inevitavelmente, por superar a masculinidade tóxica e exigir que os homens trabalhem seus egos frágeis.

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