Jessica Jones Pode Te Ajudar Entender Uma Coisa Ou Duas Sobre Feminismo

Antes de Jessica Jones estrear, não estava muito empolgada com a série. Honestamente, estava um pouco cansada de produções de super-heróis. Como antes de ver Demolidor o meu desinteresse era igual e acabei gostando muito, resolvi assistir à nova produção da Marvel e, assim como a outra série, esta me prendeu e terminei a temporada em poucos dias.

Apesar de as duas séries fazerem parte do mesmo universo da Marvel, a jornada dos personagens durante os episódios é diferente. Demolidor mostra Matt Murdock caminhando para se tornar um herói, questionando a moralidade e o que é certo a se fazer para salvar sua cidade. Já Jessica Jones é uma personagem com super poderes em constante conflito entre abraçar o lado herói ou ignorar as possibilidades dos seus poderes, por medo de prejudicar mais pessoas ou simplesmente por não se identificar como uma super-heroina.

Jessica não consegue se relacionar com outras pessoas, lutando durante a série toda para superar os traumas em meio a doses exageradas de bebidas. Enquanto Demolidor acompanha a construção de um herói, Jessica Jones explora um momento pós-traumático de uma pessoa cuja a vida foi destruída – e que foi responsável por destruir outras vidas também.

Para quem pretende ver, é importante ressaltar os triggers warning (aviso de gatilhos) para: estupro, gaslighting, relacionamento abusivo, perseguição, aborto, suicídio, assassinato, tortura, e dependência química. A série trata de temas densos, principalmente para mulheres; eu me senti angustiada em diversos momentos. Jessica Jones é assombrada pelo passado, relembrando constantemente das situações pelas quais passou ou vendo outras pessoas passando por situações semelhantes. Além, é claro, de ser atormentada pelos problemas do presente, principalmente após o vilão, Kilgrave, reaparecer em sua vida.

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A empatia que senti por Jessica e pelas outras personagens femininas foi, sem dúvidas, meu ponto de sensibilidade para com a série. Por mais que estejamos falando de pessoas dotadas de poderes especiais, as situações podem ser facilmente trazidas para a realidade. Os flashbacks, por exemplo, mostram a protagonista presa em um relacionamento abusivo, ainda que por dentro sempre lutando para sair dele.

O superpoder do vilão Kilgrave é controlar pessoas pela fala, de fazer seus comandos serem obedecidos apenas por estarem no mesmo ambiente que ele: se faz uma pergunta, a pessoa é obrigada a responder sinceramente; se fala algum comando, a pessoa é obrigada a obedecer. Os personagens relatam que, apesar de claramente lutarem internamente contra os comandos, no momento em que o vilão fala, eles passam a “querer” aquilo – e Kilgrave usa isso para se inocentar. Ele fala em consentimento no sexo mesmo sabendo de seu poder em controlar o que uma pessoa “quer”. É importante a consciência e a reação firme de Jessica: ela sabe que foi estuprada e jamais o deixa distorcer isso.

Em certa cena de discussão, Kilgrave fala que é horrível para ele não conseguir distinguir o que uma pessoa faz por vontade própria de algo que faz porque ele manda. Jessica ironiza: “Coitadinho”. O que é isso perto de todas as pessoas que ele matou, das vítimas que abusou, da destruição que causou simplesmente porque tinha esse poder? É muito difícil acreditar que isso é um problema para ele, uma vez que não só continua usando seus poderes para motivos fúteis (como pedir silêncio em um local lotado) como também não mostra qualquer sinal de ressentimento pelo que fez no passado. Kilgrave conhece o poder das palavras e não hesita em usá-lo unicamente para benefício próprio. Muito se falou sobre a ideia de consentimento que é tratada pela série. Como na cena descrita acima, ele se lamenta sobre nunca saber se algo é consentido ou não, e às vezes parece realmente acreditar que querer é exatamente a mesma coisa que consentir, quando sabemos que não, especialmente em uma relação de poder e manipulação.

A série se passa algum tempo após a protagonista conseguir se livrar do poder de Kilgrave, e ele retorna para tentar “reconquistá-la”. Por saber não ser mais capaz de controlar Jessica com seu poder, o vilão usa outros artifícios, como ameaçar pessoas inocentes caso ela não haja exatamente de acordo com o que ele espera.

O vilão também usa o gaslighting para manipular lembranças do passado, distorcendo e confundindo a realidade. Um exemplo é a narração de alguns segundos em que a protagonista ficou fora de seu controle. Ele narra como se ela tivesse escolhido ficar ao seu lado, mas Jessica se lembra que nesses poucos segundos cogitou pular do prédio em que estavam, mas não foi rápida o bastante, pois estava confusa com aquela nova situação. Jessica é vítima constante do gaslighting de Kilgrave, mas se mantém firme em suas convicções ao insistir nas versões reais dos fatos e ao procurar outras explicações. Em todos os momentos, Kilgrave mente para construir a realidade ideal e se colocar em posição de vítima, enquanto Jessica continua lutando em busca das verdades.

Além dos temas tratados, a série também chamou atenção pelo forte elenco feminino. Todas as outras personagens femininas com as quais Jessica se relaciona estão lutando contra os próprios problemas. Trish Walker, a melhor amiga e irmã de criação de Jessica, também guarda um passado de abuso. Ela é completamente fiel à amiga e usa seu espaço na mídia para denunciar Kilgrave. Hope Shlottman é uma jovem estudante que, sob o controle de Kilgrave, assassina os próprios pais. Jeri Hogarth é uma advogada bem-sucedida obstinada a conseguir o que quer, incluindo um divórcio forçado com sua ex-esposa, Wendy Ross-Hogarth. Aqui vale mencionar que a advogada mantém um relacionamento amoroso com a secretária Pam – e aí notamos várias relações de poder: Jeri é anos mais velha, é muito mais experiente profissionalmente e é a chefe de Pam.

Talvez a principal frustração com a série tenha sido a falta de desenvolvimento da personagem Reva Connors, ex-mulher de Luke Cage (par romântico de Jessica). Apesar da presença de muitas mulheres na trama, as únicas personagens negras são Reva e Claire Temple – a enfermeira que salva e posteriormente se envolve romanticamente com Matt, em Demolidor –, e ambas têm participação importante, porém diminuída na trama. Claire é melhor desenvolvida em Demolidor, porém Reva aparentemente está em Jessica Jones apenas como uma peça necessária para o desenvolvimento do enredo. Ela aparece constantemente na memória da protagonista, mas a ligação entre as duas e o vilão só é revelada em um dos últimos episódios. Mesmo com um papel essencial para o desenvolvimento da história, Reva é deixada de lado e tratada com levianidade roteiro. Ela não tem história ou nem sequer uma fala.

Ainda que a série se passe após a morte de Reva, um pouco da história da personagem poderia ser contada por meio de flashbacks – recurso usado para mostrar o passado de Jessica e Trish. Resta esperar para ver se pelo menos um pouco de sua história será mostrada na série própria de Luke Cage. Porém, ao que tudo indica, Parisa Fitz-Henley, responsável por interpretar Reva em Jessica Jones, não está cotada (até o momento desta postagem) no elenco, indicando que se sua história for contada, será feita apenas na fala de outros personagens.

É perceptível que vários pontos da série poderiam ser melhor desenvolvidos quando levantamos questões como: por que colocar personagens femininas tão fortes, mas nenhuma delas ser negra? Por que a única personagem feminina negra original da série é tratada com tanto descaso? Por ser uma série que trata de tantos assuntos pautados pelo feminismo, é decepcionante ver que a falta de representação de mulheres continua a ser um problema. Está na hora de perceber que retratar mulheres dentro do padrão (ainda que de maneira profunda e realista) não é o suficiente.

Jessica Jones é, sem dúvidas, um marco importante para produções de super-heróis. Apesar de não ser a única história com uma mulher protagonista (ou em papel importante), a série tratou de temas urgentes e muitas vezes negligenciados, como estupro e gaslighting, com a seriedade merecida e necessária. A personagem feminina não é simpática ou agradável, e permite uma forte identificação. Falta de identificação é, possivelmente, o que me cansava ultimamente nessas produções – e para muitas mulheres isso ainda não mudou.

Foto: Reprodução

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