Kilombu Reúne Afroempreendedores Num App Só

Reunir afroempreendedores para incentivar, dar visibilidade e valorizar o trabalho deles. O aplicativo Kilombu foi criado por estudantes negros para amplificar o alcance de pessoas negras empresárias que lutam para divulgar seus produtos e serviços, e representam uma fatia considerável do mercado profissional. “O Kilombu é uma ação afirmativa exatamente quando se compromete a atenuar as desigualdades econômicas provocadas pela não distribuição equânime da renda produzida pelo país”, explica o cofundador Vitor Del Rey.

Uma pesquisa recente do Sebrae revelou que, em um período de 10 anos (entre 2002 e 2012), o número de pessoas negras que lideram seus próprios negócios cresceu 27%. Com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD), esse levantamento também mostrou que os negros ocupam a primeira posição quando o tópico é empreendedorismo, sendo que 50% dos 23,5 milhões de empresários que abriram suas empresas são afrodescendentes, seguidos de 49% de brancos e 1% por pessoas pertencentes a outros grupos populacionais.

O abismo social, mesmo com esses números e com o aumento do rendimento dos afrodescendentes, é encarado de frente ao falar do faturamento médio, bem distinto entre negros (R$ 1.138,00/mês) e brancos (R$ 2.460,00/mês).

Inspirados por essa realidade, três estudantes da Fundação Getúlio Vargas – FGV e do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada – IMPA enxergaram a possibilidade de criar um aplicativo que pudesse auxiliar os negros em seus projetos pessoais, tirando-os do anonimato para mostrar ao mercado brasileiro a importância e a qualificação deles, a fim de promover uma maior igualdade de oportunidades de trabalho.

Publicidade

Kizzy Terra, Hallison Paz e Vitor Del Rey, em uma iniciativa pluralista, desenvolveram o Kilombu, que além de empoderar os empreendedores negros, propaga a Ubuntu, filosofia criada por Tshiamalenga Ntumba que representa a humanidade para todos e engloba o nós como um todo social em contrapartida ao individualismo. Atualmente, Vitor toca o projeto sozinho após a saída dos colegas Kizzy e Hallison.

Na Ubuntu, uma pessoa só é uma pessoa completa por intermédio das outras pessoas, de forma totalmente comunitária e solidária, tendo sempre a essência pessoal como motor que conduz à coletividade; como afirmou Desmond Tutu, arcebispo sul-africano e ganhador do Nobel da Paz, ter a consciência de que fazemos parte de algo maior é perceber que não podemos ser plenamente humanos estando sozinhos, e sim constantemente abertos e disponíveis aos outros.

Vitor diz que “a percepção da necessidade do marketplace deriva da multiplicidade de páginas de grupos pequenos de afrodescendentes no Facebook, destinadas à venda de produtos, mas que não conversam entre si, o que é o reflexo de um mercado muito segmentado”.

Dentro dessa perspectiva, o Kilombu propaga a ideia de que as singularidades de cada empreendedor faz o mercado ser ainda mais evoluído e completo, e que é simples unir quem faz (em sua diversidade de atuação como turbanteiros, donos de lojas, escritores, pedreiros, etc) e quem compra, propiciando esse encontro benéfico de maneira online e sem fronteiras.

Juntando assim, em uma só plataforma, produtos e serviços prestados por negros, que ainda ou nunca tiveram a oportunidade de divulgar efetivamente o que produzem. O produtor cadastra o que vende, junto com sua localização e um link para as redes sociais para ser encontrado pelos consumidores.

Além dessa vitrine de divulgação, o objetivo dos criadores é fazer do Kilombu um espaço de aprendizado para que os afroempreendedores possam prosperar em seus negócios através da parceria com universidades, como a ESPM, e com núcleos da própria FGV para oferecer, gratuitamente, serviços de consultoria em Marketing, Comunicação, Administração e Finanças que visam a maior capacitação de quem anuncia no aplicativo.

A ideia é, ainda, de acordo com Vitor, disponibilizar anúncios dentro da plataforma, pagos através da moeda digital Kilombu Coin, para ajudar na viabilização e no crescimento de todo o projeto, que busca também a internacionalização do serviço para a América Latina e para a África.

Sendo um conceito que vai além do aplicativo, o Kilombu foi apresentado à EBAPE – Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas, que avalia a possibilidade da ideia fazer parte de um Programa à Gestão de Empreendedores Negros. Se acontecer, se tornará um curso na FGV, o NBA – Negro Business Administration, com duração de um ano, incluindo o acompanhamento em forma de consultoria para ser uma ferramenta de apoio, destacando as aulas de Psicologia voltada ao afroempresário (cadeira inexistente na Psicologia).

O aplicativo já está disponível, porém apenas para o sistema Android, e em breve os usuários do iOS também poderão fazer o download e o cadastro, tudo totalmente gratuito. Para saber mais sobre o projeto, participar anunciando produtos ou encontrar algo bacana, acesse o site do Kilombu ou a fanpage no Facebook.

Conheça e faça parte do Clube Modefica!
O Modefica é uma mídia independente que pensa moda, arte, alimentação e política para resiliência social e ecológica. Para manter nosso conteúdo aberto e acessível para todas as pessoas, nós precisamos da sua colaboração.
Gostou desse texto? Contribua com o Clube Modefica e ajude nosso conteúdo ir mais longe para amplificar a transformação positiva.
Gostou dessa matéria? Compartilhe.
Tags