Essas Garotas Estão Mostrando O Poder Das Mulheres Nos Quadrinhos

Mais do que um site, o Lady’s Comics já pode ser considerado um movimento. Segurando a bandeira “HQ não é só para o seu namorado”, as ladies Mariamma Fonseca (jornalista, estudante de artes visuais e baiana), Samanta Coan (designer gráfico, especialista em design experiencial e mestranda em Design, Cultura e Sociedade) e Samara Horta (mineira, jornalista e analista de redes sociais) decidiram juntar forças para criar o projeto responsável por dar espaço às mulheres quadrinistas ao redor do mundo.

Tudo começou há pouco mais de 5 anos, quando o Lady’s Comics ainda era um blog e as garotas começaram a procurar em livros, sebos e na internet quem eram essas mulheres que se empoderavam através dos quadrinhos. Hoje, depois de muito trabalho, construíram um verdadeiro coletivo, que além do Lady’s, tem o BAMQ! (Banco de Mulheres Quadrinistas), o Encontro Lady’s Comics (o primeiro da América Latina sobre o tema), o QUATI (Quadrinhos, Educação, Traço e Imaginação) e a Revista Risca!.

Samanta conta que tem sido uma luta angariar recursos para sustentar todos os projetos com verbas de apoios, financiamento coletivo e editais, mas de uma coisa elas têm certeza: não vão desistir jamais de valorizar – e mostrar! – a força das mulheres que emprestam seu talento ao fantástico universo dos quadrinhos, onde o machismo não é novidade.

Por falar em machismo, ele não é só pra quem desenha, mas também para quem lê, na maioria das vezes privilegiando apenas as fantasias do público masculino. E a pegada do Lady’s vai justamente contra essa premissa: ser um movimento dedicado ao trabalho das mulheres ilustradoras, cartunistas, quadrinistas e tantas outras que dão o toque feminino para esse universo.

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Com matérias em grandes portais brasileiros e ganhando cada vez mais destaque mundo afora, o Lady’s Comics bateu um papo com o Modefica, em Belo Horizonte.

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Beatriz Lopes para Lady’s Comics // Reprodução

M: Como é a produção de quadrinhos feitos por mulheres pelo Brasil e pelo mundo afora? Tem muita mulher engajada nesse universo?

LC: Sim, esse universo dos quadrinhos sempre foi permeado pela produção feminina, apesar de ser considerado uma profissão masculina. Tivemos mulheres produzindo quadrinhos desde 1896 (um ano após o “surgimento” dos quadrinhos com o personagem Yellow Kid). Elas estão em diferentes lugares do mundo como índia, África, Oriente Médio…

Vocês anunciaram que o site terá mais 15 colaboradoras. Como elas foram escolhidas e como isso vai agregar pro site e pra quem lê?

Sim! Inicialmente pensamos em correspondentes. Como muitos quadrinhos não são publicados aqui e como temos difícil acesso a eles, nós pensamos em uma maneira que pudesse conectar essas produções com as que vemos no Brasil. Saber como é feito o quadrinho de determinado país e como são suas histórias, por exemplo. A partir disso, pensamos também em ampliar o olhar por aqui. Somos três fazendo o Lady’s e, felizmente, atualmente não damos conta de acompanhar os trabalhos das meninas brasileiras. Nossas colaboradoras publicarão uma vez por mês e, entre os textos, teremos também quadrinhos.

Como é pro Lady’s ter essa visibilidade enorme e ver que um projeto deu certo?

É muito bom ver nosso trabalho alcançando mais pessoas, principalmente para falar de assuntos importantes como a visibilidade e o trabalho das mulheres nos quadrinhos. Isso nos incentivou a expandir ainda mais nosso site, criando os projetos que fazem parte do coletivo.

Conta um pouco sobre o BAMQ – como surgiu a ideia de montar esse banco e o que ele significa pro universo dos quadrinhos? Já existe outro banco desses feito por outro site aqui no Brasil?

O Banco de Mulheres Quadrinistas teve uma boa aceitação e ganhou interesse das quadrinistas em se inscreverem. Primeiro, especificamente para registrar quem são as profissionais da área, o BAMQ! está cumprindo seu papel aos poucos. Criamos alguns critérios para que esse registro contenha realmente mulheres que têm atuação significante nos quadrinhos. Mas, infelizmente por fazermos tudo por nossa conta, de forma independente e sem recurso externo, ainda não conseguimos cuidar do banco de dados com o afinco que ele pede.

A ideia é recuperar e reafirmar a memória das mulheres que trabalham ou trabalharam com os quadrinhos. Quantas vezes não ouvimos que elas não faziam HQs? Ter um banco auxilia na documentação e preservação delas, assim como permite pesquisadores irem atrás dessas vivências silenciadas que não foram pesquisadas/ouvidas ainda. Esperamos poder aperfeiçoar o BAMQ! cada vez mais.

Existe um banco de ilustradores e de quadrinhos lançados no Brasil, mas nada específico sobre mulheres nos quadrinhos.

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Qual é a visão Lady’s sobre o feminismo, assunto em voga atualmente?

Acreditamos que o movimento feminista sempre auxiliou nas conquistas em relação a trabalho, visibilidade e reconhecimento. Sem a presença da mulher na luta pelos seus direitos, o Lady’s não estaria aqui, não haveria tanta produção feminina nos quadrinhos. Ou seja: uma vez que as mulheres resisignificam esse espaço considerado masculino, elas se empoderam dessa linguagem para retratar suas próprias experiências e olhares. O Lady’s procura promover produções que são reflexos positivos sobre o feminismo.

Como vocês enxergam a representação feminina nos quadrinhos?

A representação feminina nas HQs tem os mesmos problemas que vemos em qualquer produto cultural – estereotipada e objetificada. Não tem como não nos incomodar com o que é vendido, porque existe um discurso naturalizado atrás dessas construções da personalidade e do corpo feminino. Ao reduzir de ser humano para objeto a ser consumido, como, nós mulheres, vamos nos identificar com essas personagens e com a narrativa? Tem esse lado ruim que pesa muito e é questionado. Por outro lado, há produções muito boas que nos motivam a escrever pro site, para evidenciar que elas existem e que tem muitos tipos de representações de pessoas – desde corpos até de identidade de gênero.

Ano passado lançamos a revista RISCA! com o tema ‘Memória e Política das Mulheres nos Quadrinhos’. Buscamos assuntos que víamos com uma certa urgência de diálogo e de divulgação – como a produção de HQs feitas por quadrinistas transsexuais. Nela, foi visível o quanto os quadrinhos desses artistas são necessários para gerar identificação com o público, promover a informação, a naturalização do assunto e auxiliam na desconstrução do sistema binário de gênero.

Em 2013, fizemos um minidocumentário durante o FIQ sobre a representação feminina nos quadrinhos e foi o tema que escolhemos para o primeiro Encontro Lady’s Comics, em 2014.

 

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Boobie Trap para revista Risca.

 

Fala um pouco mais obre o Encontro Lady’s Comics para nós.

O “1º encontro Lady’s Comics: Transgredindo a representação feminina nos quadrinhos” foi o primeiro evento da América Latina sobre o tema mulheres e quadrinhos. Realizamos por meio de financiamento coletivo (Catarse) e contamos com o apoio de mais de 300 pessoas para que o projeto fosse tirado do papel. No dia 25 de outubro de 2014, reunimos 15 convidados e uma público de mais de 200 pessoas, em Belo Horizonte, para um dia inteiro de debates, exposições, oficinas, painéis e espaço para venda de quadrinhos. A programação foi intensa e deu muito certo, tanto que já estamos pensando em um 2º encontro, com o tema “Primeira Viagem” pra esse ano porque é muito importante ir além da internet para conversar sobre mulheres e quadrinhos.

Sobre a participação do Lady’s no último FIQ (Festival Internacional De Quadrinhos), o que isso representou? Como foram os seminários e mesas redondas que participaram?

Cada uma teve um papel diferente nesse último FIQ. Anteriormente, falávamos apenas do assunto mulheres e quadrinhos. No de 2015, pudemos entrar em mesas que tratavam de outros assuntos. Foi bem legal ver as mulheres incorporadas nas mesas e não necessariamente falando sobre “mulheres e quadrinhos”.

Além de participar do FIQ, a cobertura que fizemos e o material que colhemos foi bem rico. Nunca se teve um número tão grande de autoras lançando quadrinhos no festival. É bem empolgante esse novo cenário que temos. Fizemos até um vídeo que mostra algumas das autoras que estavam por lá e os trabalhos que apresentaram.

Quais são as suas referências de quadrinistas? Vocês desenham?

(Mariamma) Tive muitas referências das tiras de humor publicadas em jornais, como Laerte, Angeli e Glauco. Depois fiquei alucinada com a Mafalda do Quino. Na faculdade é que fui conhecer outros trabalhos, como Palestina, Macanudo… Atualmente tem muitas outras coisas que curto, como o trabalho da Marjane Satrapi, Vera Bee, Aline Lemos, Alison e por aí vai. Hoje eu deixei de lado o jornalismo e trabalho como ilustradora freelancer.

(Samara) Não desenho, mas leio muito. Minhas referências começaram com o mangá e foram variando muito. Depois do Lady’s, por fazer pesquisas, acabei tendo contato com muitas quadrinistas e, atualmente, 90% das minhas leituras de quadrinhos são de autoras mulheres. Entre as diversas referências, leio muitas o Lu Cafaggi, Lovelove6 (Garota Siririca), Aline Lemos (Desalineada), Giovana Medeiros, Thais Gualberto, Laura Athayde, Sirlanney (Magra de Ruim) e Anna Mancini (Manzanna). E tem a autora do meu mangá preferido: Nana. Ela chama Ai Yazawa e não tem desenhado mais. Gosto muito do trabalho da Jen Wang, Alison Bechdel, Vera Bee, Marjane Satrapi e Power Paola.

(Samanta) Comecei a ler mangás, então sempre fui atrás de obras como as do CLAMP (Sakura CardCaptors, Guerreiras Mágicas de Rayearth), da Rumiko Takahashi (Inuyasha, Ranma ½), Yumi Tamura (Basara e 7Seeds) que tinham construções femininas e histórias bem interessantes. Depois do Lady’s, tive mais contato com webcomics de autoras como Jillian Tamaki, Corinne Mucha, Melissa Mendes e Julia Gfrörer. Tem também a produção brasileira, principalmente independente, como Garota Siririca, da LoveLove6; Desalineada, da Aline Lemos; o coletivo Mandíbula; Gata Garota da Fefê Torquato… Eu não desenho, eu gosto mesmo de ler, fazer vídeos e escrever sobre elas!

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No ano passado, o Troféu HQMIX (a principal premiação brasileira de histórias em quadrinhos) levantou o questionamento sobre as mulheres quadrinistas por ter uma maioria esmagadora de indicações masculinas. Como foi a repercussão disso pra vocês, defensoras da presença feminina nesse universo? E sobre o Encontro Lady’s ter ficado de fora?

A Samanta fez um post no fim do ano passado que mostra o problema que temos na cena dos quadrinhos brasileiros: 2015 foi o ano das mulheres nos quadrinhos?. Não é um problema único do Troféu, e sim de vários produtos relacionados aos quadrinhos que não estão acompanhando as discussões, os questionamentos e a seriedade de quem está promovendo isso.

A Carolina Ito foi uma das que se posicionou quando saiu a listagem do HQMIX e fez o quadrinho “Cadê as Minas?” evidenciando as produções das quadrinistas e dos eventos relacionados a mulheres em 2014. Foi muito importante porque abre as mesmas perguntas de sempre: será que esses projetos não são suficientes? Não promoveram mudança no cenário? Ou o problema é dos projetos que invisibilizam essas produções femininas? Existe muito o que questionar e dialogar com todos os envolvidos para tornar a cena mais igualitária, e não é fácil.

 

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As fundadoras do Lady’s Comics Mariamma, Samara e Samanta.

Para acompanhar e conhecer um pouco mais sobre esse trabalho incrível das meninas do Lady’s Comics: site, loja online, YouTube, Facebook e Twitter.

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