A Cientista Que Virou Mãe… E Candidata a Deputada Estadual em Santa Catarina

Se em algum momento você já buscou informações sobre a realidade da maternidade no Brasil, talvez você tenha se deparado com algum texto, artigo ou documentário assinado por Ligia Moreiras. Mãe, bióloga, cientista, ativista, feminista e agora, depois de tantos títulos, candidata à deputada estadual pelo PSOL em Santa Catarina.

Formada em biologia pela Universidade Estadual Paulista, mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo, doutora em Ciências e Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Santa Catarina, Ligia trabalha com o empoderado de mulheres e, em especial, mulheres mães, dando luz à causa da violência obstétrica. O resultado da tese do seu segundo doutorado gerou o vídeo-documentário “Violência Obstétrica: A voz das brasileiras”, que recebeu prêmio no seminário internacional feminista “Fazendo Gênero”. Ligia é referência em todos os projetos de leis contra violência obstétrica e seu estudo já foi utilizado pela OEA (Organização dos Estados Americanos) em ação contra o Brasil por violação dos direitos humanos das mulheres.

Além disso, a candidata é a criadora do blog e site Cientista que Virou Mãe, onde reúne, atualmente, mais de 40 colaboradoras que se dedicam a falar sobre assuntos relacionados à maternidade e dar apoio a mulheres que estão, muitas vezes, lutando sozinhas nesta fase. Autora do livro “Educar Sem Violência: Criando filhos sem palmadas” e “Mulheres que viram mães”, ambos publicados pela Editora Papirus, ela também possui diversos artigos publicados de maneira independente.

Ativista há oito anos pelos direitos das mulheres, Ligia se reconhece como feminista interseccional e coloca as  questões de raça, classe e gênero como prioridade na sua agenda política: “Eu sou uma mulher branca para quem nunca faltou o que comer, que teve acesso à boa educação pública, então eu sou uma mulher muito privilegiada. Ter consciência disso faz parte da minha visão de mundo”, afirma.

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Maternidade e feminismo

Em 2010, a maternidade trouxe para Ligia o reconhecimento como feminista. Ela estava em seu segundo doutorado e procurava informações, apoio emocional e teórico para a nova fase na qual vivia. “Me reconheço como feminista desde que me tornei mãe de uma menina. Desde adolescente, eu tinha muito claro para mim as questões de ser mulher, como isso dificultava nossa vida. Mas eu não tinha o termo. Por reconhecer as opressões que recaem sobre mim, logo identifiquei que isso recairia sobre ela e, portanto, eu precisava estar preparada”, explica. Ao buscar pelo feminismo, Ligia transformou sua vida: “eu passei a viver com mais intensidade as questões sofridas pelas mulheres aqui no Brasil”.

A explicação sobre corpo e mente feminina é, historicamente, feita por homens, como descrito em livros como “Um Teto Todo Seu”, de Virginia Woolf. Em pleno século XXI, podemos reconhecer um cenário diferente, mas os resquícios permanecem. Ao procurar informações sobre maternidade, Ligia se deparou com noções rasas, sem profundidade, produzidas a via de regra, por pessoas que não são mães, mas atendem aos interesses de patrocinadores: as grandes corporações e indústrias que querem vender produtos de maternidade e infância e utilizam-se das mulheres como meio de chegar a este fim.

Ao dar-se conta desta deficiência, Ligia criou o blog, e atualmente site, “Cientista que Virou Mãe”. “Como sou cientista, tenho bastante familiaridade com produção de informação, com pesquisa, base de dados confiáveis. Então, comecei a produzir essas informações e compartilhá-las com outras mulheres, que as estavam buscando, como eu. Hoje, o site conta com mais de 40 escritoras de todo o país e é uma plataforma colaborativa e independente”, explica.

 

Diversidade e bandeiras

A participação em marchas, manifestações, o trabalho com a violência obstétrica em nível nacional somados ao documentário fizeram com que muitas mulheres sugerissem à Ligia levar o tema para a política institucional.“Meu ativismo e militância pelas mulheres, especialmente pelas mulheres mães e crianças, vem surtindo efeitos muito bons, no sentido de chamar a galera para pensar nessa pautas que são muitas vezes silenciadas”, constata. Mas a decisão só veio depois de 14 de março de 2018, quando a então vereadora Marielle Franco foi assassinada na região central do Rio de Janeiro.    

Foi nesse momento que a candidata passou a refletir sobre a responsabilidade como cidadã na mudança política que ela deseja. “Ficou evidente para mim que, quando pessoas como eu, que podem ter algum tipo de evidência política, não se colocam à disposição, acabamos deixando as poucas que estão lá numa situação de maior risco, como foi o caso da Marielle”, ressalta. “Ela estava praticamente sozinha nas pautas políticas que defendia. Se todas nós deixarmos o medo e nos colocarmos à disposição, certamente vamos aumentar a velocidade da transformação que queremos ver”, completa.

Porém, Ligia salienta que a ausência de mulheres na política não é culpa das mulheres. Há uma construção social nos dizendo que posição política é algo que pertence “naturalmente” ao homem. Por mais que vemos esforços para mudar esse cenário, até mesmo com legislação que obriga partidos a terem 30% de mulheres nas coligações, na prática as coisas não funcionam dessa forma. “Naquela época, eu reconhecia que a participação política de mulheres como eu, que são ativistas de base, eram importantes, mas eu não vi a possibilidade de ser esta pessoa”, relembra. Para que mais mulheres vejam a possibilidade de ser essa pessoa, a descontrução precisa passar pelo campo eleitoral partidário por meio de pressão de quem está dentro e fora do sistema.

A homogeneidade de políticos na câmara, senado e congresso, no qual os interesses predominantes são ligados a indústrias e grandes corporações, não abre espaço para pensar no bem coletivo. É por isso que Ligia defende a diversidade e representatividade na esfera política como base fundamental para que pautas de grupos minoritários sejam discutidas com veemência. “A entrada das mulheres na dimensão do poder político fará com que nossas questões sejam discutidas apropriadamente. A sociedade é muito diversa, mas o Brasil não tem a mesma diversidade de representação. Se estamos em um país que se diz democrático, a representação de toda essa multicultura é fundamental’, afirma.

 

 

Forma de Atuação & Propostas

Ligia Moreiras não deseja focar em criação de novos projetos, se estes não foram absolutamente necessários. Seu plano como deputada é fazer uma grande varredura do que já está na legislação no estado de Santa Catarina. “Temos muitas coisas. Temos que fazer valer o que já nos contempla como mulher, com olhar atento à relação de classe e raça. É muito caro criar novos projetos de lei. É dinheiro público, dinheiro nosso, que pode ser aplicado de maneira prática na melhoria de vida das pessoas”, defende. A candidata deseja evitar gastos e investir na aplicação de medidas já existentes, como a lei que institui o Observatório da Violência Contra a Mulher Catarinense.

 

Temática Racial e de Gênero

Ligia afirma que 95% dos seus projetos e ideias são voltados para a questão de gênero. “Quando entrei no meu segundo doutorado, em Saúde Coletiva, escolhi estudar o impacto da violência sobre a saúde. Estudei muito sobre a estrutura social brasileira, as forças de opressão históricas e não dá pra negar quando dizemos que violência tem cor, endereço e gênero. A questão racial e opressão de raça que as pessoas negras vivem me contempla como cidadã participativa. As mulheres negras, as mulheres pobres, precisam sempre ter preferência na legislação, no fazer político”, afirma.

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Temática Saúde da Mulher

Como mãe, mulher e doutora em saúde coletiva com ênfase em saúde da mulher, Ligia compreende a importância da maternidade positiva para influenciar a qualidade do vínculo mãe-filho, do afeto e educação da criança. A maternidade compulsória, os métodos anticoncepcionais e o aborto são pontos levantados para enfatizar a qualidade de vida da mulher.

“Discordo da maternidade compulsória. Acho que as mulheres precisam ter, de fato, escolha se querem ou não ser mães. Muitas pessoas respondem isso com ‘se não queria ser mãe, então que usasse um método contraceptivo’. Como cientista, doutora em farmacologia e saúde coletiva, posso dizer com propriedade que não temos hoje um método contraceptivo 100% eficaz. Todas estamos sujeitas à uma gravidez indesejada”, explica.  

A candidata defende que ir contra a legalização do aborto é o mesmo que dizer às mulheres que elas não têm escolha se querem ou não ser mães. Ligia afirma que a vida das mulheres, mesmo as não ligadas por vínculo sanguíneo ou afetivo, lhe é muito cara: “eu não posso fingir que não sei que essas pessoas usam estratégias para abortamento inseguro e que elas podem morrer em decorrência disso. Eu não consigo lidar com o fato que talvez algumas tenham acesso ao aborto seguro, porque têm privilégios, enquanto outras vão morrer em decorrência de aborto inseguros. Como mulher, eu não consigo aceitar a morte das mulheres”.

Pela formação, Ligia tem acesso a diversas informações que a fazem saber do número de mortes de mulheres decorrentes da criminalização do aborto e refuta o argumento de ser contra a vida dos bebês: “o abortamento até a 12ª semana de gestação de forma alguma se trata de um bebê. É questão de conhecimento básico em biologia, fisiologia”. A legalização do aborto é uma das temáticas que Ligia pretende lutar para receber reconhecimento no meio político. “Para que as mulheres que querem ter seus filhos possam continuar suas gestações e para as que não querem ser mães possam ter o direito de interrompê-la de maneira segura e acessível”, afirma.

 

Temática Lixo e Gestão de Resíduos

Além de apoiar a causa sustentável na política, Ligia lida com os princípios na sua vida cotidiana: “são questões que têm íntima relação com a vida das mulheres. Elas dizem respeito aos direitos humanos, não dá pra negar, ainda mais como eu sou bióloga. Precisamos legislar, lutar, contra o descaso com a questão ambientalista”, explica. Entre os tópicos levantados, a candidata acha necessário regulamentar práticas diárias, como a destinação do que é considerado lixo. “Acho que isso envolve uma questão educativa. Talvez 95% do que a gente considera lixo, não é de fato. É algo perfeitamente reaproveitável”, reforça.

 

Temática Reforma Agrária e Direitos dos Trabalhadores

Ligia considera a reforma agrária uma medida imprescindível: “Temos uma grande concentração de terra produtivas nas mãos de pouquíssimas pessoas”. E emenda com seu apoio à revogação total da reforma trabalhista do governo Temer para conter o alto índice de desemprego e a queda da economia:  “Os direitos dos trabalhadores também deve ser uma pauta prioritária. As mulheres trabalhadoras serão as primeiras afetadas pela reforma trabalhista”.

 

Temática Causa Animalista

Ligia afirma que o apoio de amigas vegetarianas e veganas tem ajudado na sua reflexão sobre a causa animal. “Eu olho a qualidade de vida por todos os lados e os animais têm grande prioridade na questão ambiental. Talvez, por problematizar isso de maneira tão crítica, eu deixei minha formação anterior. Eu acredito que estas questões têm a ver com a pauta feminista porque, por exemplo, nós não temos a agroecologia se não tivermos a participação das mulheres”.

 

Conheça mais sobre os eixos temáticos propostos por Ligia Moreiras em seu site oficial e acompanhe Ligia no Instagram, Facebook e Twitter.

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