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Machismo e Consumo de Animais: Naturalização e Dificuldades de Romper Com os Códigos Sociais

Publicada em:
Atualizada em:
Texto
  • Marina Colerato
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Cinthia Santana

4 min. tempo de leitura
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Como já falamos por aqui, a distorção histórica do feminismo-vegetariano e seu silenciamento são, desde o século XVIII, barreiras difíceis de transpor. O discurso e as ações de importantes vozes ecofeministas animalistas em busca de um mundo igual para todos são constantemente desfocadas, resultando em uma maior dificuldade de questionar (e abolir) a exploração do meio-ambiente e dos seres não-humanos.

Parece não importar nossa descendência (seja ela divina ou evolucionista) herbívora, ou a epidemia do câncer ocasionada pela alimentação baseada em proteína animal, quanto mais a devastação ambiental, ou o desbalanço na distribuição de alimento entre classes ricas e pobres, menos ainda o sofrimento animal embutidos no nosso hábito de comer carne. Tudo nos é vendido como “natural”. Não há questionamentos, há apenas “natureza”. Oprimir mulheres e pessoas não-brancas, diferente de como era anos atrás, não é mais considerado ‘natural’, mas oprimir seres não-humanos ainda é considerado, por muitos, algo como “inerente à vida”.

Por todos as coisas que a comida representa – amor, cuidado, nutrição, carinho, poder, etc – nós viramos uma civilização dependente psicológica dela (prova disso é a epidemia da obesidade) incapaz de ponderar e até mesmo nos interessar sobre a procedência dos nossos alimentos. Não à toa, a palavra feminista é mais bem aceita do que a palavra feminista-vegetariana. A palavra feminista, de certa maneira, coloca as mulheres em uma zona de conforto, enquanto a palavra feminista-vegetariana é responsável por colocar as mulheres em uma zona de conforto e ao mesmo tempo tirá-las de outra.

Entretanto, é necessário “desnaturalizar” comportamentos para entender o que, de fato, eles são: construções culturais que variam de acordo com cada sociedade 1Diferenças e Igualdades (2009), Sexualidade: da natureza às representações, pág 152 – Júlio Assis Simões. A compreensão do movimento feminista (ou de pelo menos parte dele) para com as construções sociais para além de gênero (como raça e classe social) é, sem dúvidas, uma evolução do feminismo 2Diferenças e desigualdades sociais negociadas: raça, sexualidade e gênero em produções acadêmicas (2014). Cadernos Pagu 42 – Laura Moutinho. Mas a naturalização das construções sociais envolvidas na nossa alimentação é problemática, pois acaba indo contra à própria teoria de gênero, que busca exatamente a desnaturalização das nossas atitudes e hábitos na sociedade moderna.

Machismo é o conceito que baseia-se na supervalorização das características físicas e culturais associadas com o sexo masculino, em detrimento daquelas associadas ao sexo feminino, pela crença de que homens são superiores às mulheres. Especismo é o ponto de vista de que uma espécie, no caso a humana, tem todo o direito de explorar, escravizar e matar as demais espécies por considerá-las inferiores. É a atribuição de valores ou direitos diferentes a seres dependendo da sua afiliação a determinada espécie.

Em “Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”, Judith Butler, a teórica feminista e professora, explica sobre as práticas regulatórias responsáveis por produzir os corpos que governam e rapidamente é possível entender como essa prática regulatória se aplica para além do ser humano: toda força regulatória manifesta-se como uma espécie de poder produtivo, o poder de produzir – demarcar, fazer, circular, diferenciar – os corpos que ela controla”.

A teoria desconstrucionista de Butler sobre materialização do discurso também questiona o “natural” e o conceito de “natureza”, e relembra que “estudiosas feministas têm argumentado que o próprio conceito de natureza precisa ser repensado” e que “o repensar da natureza como um conjunto de inter-relações dinâmicas é apropriado tanto para objetivos feministas quanto para objetivos ecológicos […] Esse repensar também coloca em questão o modelo de construção pelo qual o social atua unilateralmente sobre o natural e o investe com seus parâmetros e significados”.

Com uma leitura mais atenta de estudos antropológicos ou históricos sobre alimentação, hábitos à mesa e nutrição, conseguimos perceber também como não nos alimentamos apenas para obtenção de nutrientes e que “comida” é um campo de estudo tão complexo quanto “sexo”. Ao olhar de perto esses estudos, notamos que pouco, ou quase nada, é ‘natural’.

Não existe natureza alguma, apenas efeitos de natureza: desnaturalização ou naturalização.

Jacques Derrida

Um exemplo claro é questionar por que no ocidente amamos cachorros e comemos vacas, mas na China e na Coreia cachorros são uma fonte de proteína animal igual a vacas ou porcos? Ao ser colocada dessa maneira, fica claro como a alimentação é uma construção cultural, porém naturalizada, assim como feminilidades e masculinidades.

Não parece coerente para o movimento feminista aceitar o consumo de animais como algo natural quando o próprio movimento e suas grandes vozes vêm destacando a ausência de uma natureza ‘pura’, onde tudo que conhecemos como natureza já está impregnado pela cultura, reconhecendo o poder da sociedade em intervir no que é, de fato, natural. Basta agora estarmos dispostas a questionar tudo o que é nos dado como natural, principalmente quando essa “natureza” é opressiva e tira vidas, mesmo que esses questionamentos nos desloquem da zona de conforto.

Ecofeminismo: Mulheres e Natureza é um série de artigos que busca discutir a importância da conexão das mulheres com os seres não-humanos e o meio-ambiente. A série tem como objetivo abordar as questões éticas e morais, além das questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao feminismo, veganismo e ecologia. Veja todos os artigos da série aqui.

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