Meio Sol Amarelo: Romance de Chimamanda Ngozie Adichie Relembra Que “A Guerra é Muito Feia”

Um menino de treze anos é levado pela tia para a casa em que passará a trabalhar como espécie de faz-tudo. O nome dele é Ugwu e está saindo de sua aldeia para viver na cidade de Nsukka, na Nigéria, em uma área arborizada na região da universidade, realidade muito diferente da que conhecia. O homem que vai empregá-lo, Odenigbo, é um professor universitário com ideais progressistas. Estamos nos anos 1960, quando o país finalmente se tornou independente, depois de uma longa exploração inglesa, mas introjetou a subalternidade e continua referido ao modelo inglês.

Enquanto uma parte do país se vale da desigualdade extrema para perpetuar o status quo, uma outra parte passa a se organizar criticamente, defendendo ideias que se opõem ao imperialismo e ao capitalismo, que buscam descolonizar o país mais profundamente, propondo um resgate das tradições e saberes tribais. Odenigbo é um deles, para quem “a única identidade autêntica para um africano é sua tribo. (…) Eu sou nigeriano porque um branco criou a Nigéria e me deu essa identidade. Sou negro porque o branco fez o negro ser o mais diferente possível do branco. Mas eu era ibo antes que o professor aparecesse”.

Em sua casa, reúnem-se intelectuais que, servidos por Ugwu, discutem política e assuntos diversos de forma acalorada. O menino passa a idolatrar o “Patrão”, que lhe empresta livros e arranja uma vaga na escola dos filhos dos professores. A ironia é que, por mais revolucionárias que sejam as ideias de Odenigbo, a relação de subserviência que ele tanto busca combater coletivamente parece encontrar um equivalente em sua própria casa: Ugwu é um pouco como alguém da família, um pouco como um mordomo à moda inglesa, sempre disposto a servir. De quantas formas diferentes a gente não acaba reproduzindo um modelo que está tentando destruir.

Por esse arranjo que desafia esquematismos, podemos antever outras relações complexas, no plano público e no plano privado, que vão se desenrolando no romance Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozie Adichie, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, com ótima tradução de Beth Vieira. Adichie também é autora de outro romance célebre, Americanah, e, entre outras obras de ficção e não-ficção, de Sejamos todos feministas, Para educar crianças feministas e O perigo de uma história única, que parte de sua apresentação no TED Talks (disponível com legendas em português aqui).

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Odenigbo namora a linda e refinada Olanna, que, depois de anos de estudo em Londres, acaba de retornar para casa e vai lecionar Sociologia na universidade em que ele também dá aulas. Parte do romance se dedica a examinar a ruptura da harmonia entre Odenigbo e Ugwu com a chegada de uma mulher na casa, e depois em retratar a nova dinâmica do trio. Embora venha de uma família rica, Olanna compartilha com o namorado os mesmos ideais. Ela tem uma irmã gêmea, Kainene, de quem já foi muito próxima no passado, mas com quem vive um período de estranhamentos, pois, ao contrário de Olanna, Kainene voltou da Inglaterra para trabalhar nos negócios do pai. É como se as duas irmãs representassem as mentalidades que dividem o país. Mas como Adichie não se fia a arranjos esquemáticos, as personagens não são meras alegorias de formas de vida e, por isso, o elo entre ambas se torna mais interessante.

O conflito político vai sendo tensionado e escalonado até desembocar na Guerra do Biafra (ou Guerra Civil da Nigéria), quando as províncias do Sudeste reuniram para criar república autoproclamada do Biafra. A bandeira do Biafra é vermelha, verde, preta e amarela, e traz a imagem de um sol nascendo — o Meio Sol Amarelo do título do romance. Sabemos, no entanto, que o sol nunca chegou a firmar. A ideia caiu por terra, violentamente, menos de três anos depois.

 

A bandeira do Biafra // Reprodução

 

A guerra, que durou de julho de 1967 a janeiro de 1970, teve início com um confronto entre os povos Hauçás e Ibos. Em 1966, os Ibos, considerados a elite nigeriana, tomaram o poder do país. Seis meses depois, num contragolpe, foi a vez dos Hauçás. A estimativa é que mais de trinta mil pessoas de etnia ibo tenham sido massacradas nesse ataque. Os sobreviventes se uniram formando a República do Biafra.

Mas, ainda que as tensões étnicas e culturais tenham deflagrado o conflito, a questão econômica acabou sendo decisiva, já que o controle da região do delta do rio Níger, rica em petróleo, estava em disputa. O bloqueio imposto pelo governo da Nigéria acabou resultando em desabastecimento de comida e mais de cem mil militares e cerca de um milhão (estima-se um número entre quinhentos mil e dois milhões) de civis morreram de inanição. A guerra acabou em janeiro de 1970, deixando o país devastado.

A escritora Chimamanda Ngozie Adichie // Reprodução

Chimamanda Ngozie Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, sete anos depois. Foi a terceira geração afetada pela guerra. A autora dedica o livro a seus avós: “Meus avós, que não conheci, Nwoye David Adichie e Aro-Nweke Felix Odigwe, não sobreviveram à guerra. Minhas avós, Nwabuodu Regina Odigwe e Nwamgbafor Agnes Adichie, duas mulheres extraordinárias, conseguiram. Este livro é dedicado à memória deles: ka fa nodu na ndokwa. E a Mellitus, onde quer que ele esteja”, escreve ela.

Em uma entrevista, Adichie conta que lê sobre a Guerra do Biafra desde que tinha doze anos de idade e que, aos dezesseis, chegou a escrever uma peça de teatro com o tema. Em Meio Sol Amarelo, esses anos de pesquisa dão consistência a cada linha e a experiência afetiva também é bem deslocada para as páginas. A autora conta que, embora Meio Sol Amarelo seja uma obra de ficção, todas as personagens e também os eventos narrados são inspirados em pessoas e em histórias reais. Através das jornadas de Ugwu — personagem tão comovente —, Odenigbo, Olanna, Kainene e Richard (escritor inglês que se torna namorado de Kainene), acompanhamos os meandros da guerra e somos transportados para a ambiência da absurda brutalidade que atingiu os povos da Nigéria.

Com riqueza de detalhes, Chimamanda Ngozie Adichie reconstrói, literariamente, esse episódio violento que marcou profundamente o país. Como, infelizmente, a história do continente africano ainda permanece opaca para a maioria de nós, esse romance tem, além do valor estético, também um valor quase documental, um valor de testemunho. Deveria ser lido e discutido nas escolas e nas faculdades. Deveria ser lido e discutido por todos nós.

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