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Para Além de Peças de Roupas, Moda Inclusiva Propõe a Inclusão Definitiva de Todos os Corpos na Moda

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“Backstage O Backstage é o podcast do Modefica para falar sobre moda a partir de diversos pontos de vista e para muito além do que vemos nas passarelas, nas revistas, no Instagram e nas manchetes. Sempre com convidadxs especiais contando sua trajetória, e junto com nossa editora Marina Colerato, o Backstage debate indústria, carreira, questões de gênero e raça, temas quentes e futuro da moda. Ouça no Spotify, iTunes ou Deezer.

 

Começamos mais um episódio do Backstage, dessa vez com a presença de Daniela Auler, idealizadora e coordenadora do Projeto Moda Inclusiva, que já deu as caras por aqui quando falamos sobre o assunto lá em 2017. No papo, Marina e Daniela abordam as decepções com o alto custo de se produzir em excesso na moda, o olhar do designer, a inclusão de pessoas com deficiência para além da produção das roupas e o crescimento da visibilidade da diversidade de corpos existentes.

Daniela chegou na moda como muitas de nós: trazendo uma memória afetiva das mulheres da família costurando. Ela estudou na área, atuou em diversos segmentos, chegou a abrir uma loja na Vila Madalena, mas conta que teve uma crise por vivenciar um espaço de trabalho que não ia de encontro com sua essência. Nesse momento, ela teve a oportunidade de adentrar a Rede de Reabilitação Lucy Montoro, em São José dos Campos (SP) e trabalhar seu olhar de designer de moda para pessoas com deficiência. Apesar de ser um momento que Daniela afirma que estavam começando a pipocar os tecidos inteligentes, tecnológicos, ela se viu diante de um desafio, pois não havia literatura sobre tais peças.

Havia também o preconceito com a moda e com a pessoa com deficiência, mas ela teve o apoio de terapeutas ocupacionais e de pacientes. A construção dessa bibliografia foi feita dentro do hospital, co-criada com os pacientes. “Foi um bate-papo com essas pessoas. ‘Como é a beleza para você?’, ‘Como você se veste?’, explica, “aí tinha respostas como ‘meu sonho é voltar a usar calça jeans, (porque) eu não consigo’”. Segundo Daniela, por meio desse contato, ela percebeu que a pessoa com deficiência acaba perdendo sua identidade e a sociedade, a própria família, acaba a infantilizando.

Quando foi criada a Secretaria do Estado da Pessoa com Deficiência, Daniela já tinha um material compilado sobre as necessidades e demandas desse público e ela viu aí uma oportunidade de trabalhar a moda como uma forma de inclusão, um ato político. O Concurso Moda Inclusiva, que aconteceu durante 10 anos, espalhou não só no Brasil, mas no exterior, o termo e conceito de produzir peças de roupas para pessoas com deficiência que ajudassem a externalizar seus gostos e personalidades, assim como qualquer indivíduo.

Marina pergunta quais são as principais barreiras que Daniela enxerga para que a moda inclusiva deixe de ser um nicho. A designer explica que as marcas não enxergam como podem agregar esse público com simples mudanças que não vão encarecer seus produtos. Ela exemplifica com o uso do QR Code, que ajuda um deficiente visual a ter autonomia para comprar suas roupas – e ali podem ser colocados questões de transparência, como tecido certificado, sobre quem fez aquela roupa. É um valor agregado que beneficia a todos.

 

A adesão de novos corpos na moda

Daniela também nos conta sobre as experiências que tem nas salas de aula. Ela sempre leva um conhecido ou amigo que tenha deficiência, para que ele ocupe esse lugar de fala, e sempre recebe respostas como “como eu nunca pensei nisso?”. Ela explica que essa informação não chega naturalmente aos estudantes, e esse movimento torna a moda inclusiva mais sustentável, pois trabalha muito com a questão social. Existem também relatos de pessoas com deficiência que, após fazerem o curso de Upcycling, começam a adaptar suas peças de roupas e que retomam a vida social e a confiança em si. Para o estudante que co-cria a roupa, essa percepção da mudança na vida do outro também o incentiva a seguir trabalhando a moda com esse olhar transformador.

Se, nos primórdios do concurso, como Daniela relembra, muitos dos inscritos eram pessoas que tinham no âmbito social um primo, um vizinho, um colega de escola com deficiência, após o final deste ciclo, no 7º, 8º ano, havia mais o interesse dos estudantes em repensar a moda, em desconstruir modelagens. “Você começa a repensar os corpos”, explica.

O concurso aconteceu durante 10 anos e, após a mudança de governo, Daniela encerrou sua participação na Secretaria do Estado da Pessoa com Deficiência. Hoje, a designer mora em Paraty (RJ), e trabalha com o resgate da costura dos povos originários da região. Ela também pensa em ressignificar o concurso. “Quando (ele) começou, em 2008, foi necessário que fizesse um concurso só para pessoas com deficiência, o ‘desnivelar para nivelar’, para a pessoa olhar e falar ‘nossa, eu preciso fazer roupa para essa pessoa’”, explica, “hoje, a gente já pode pensar em corpos para todos também. E não ter um desfile só para pessoas com deficiência, mas que essa pessoa com deficiência seja contemplada dentro de uma marca”.

Daniela aproveita o momento para convidar quem tiver ideias e sugestões de um novo modelo de concurso para buscá-la. Marina retoma uma fala de Daniela para reforçar um ponto muito importante: a inclusão não deve ser apenas sobre produtos, mas também sobre uma nova forma de pensar sobre as pessoas com deficiência e tirá-las da invisibilidade e incluí-las na sociedade, de fato.

Por fim, Daniela comenta sobre o projeto Panorama da Criação Inclusiva, que terá a sua segunda edição esse ano, e dá dica de um documentário para todes assistirem: Crip Camp, dirigido pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e a ex-primeira dama, Michelle Obama, que conta o começo da história da luta das pessoas com deficiência nos Estados Unidos. Você pode ficar por dentro do trabalho da Daniela no seu instagram pessoal e no @modainclusiva.

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