Cinema e Ativismo: Conheça a Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental

Complexo Fabril é um dos destaques para quem quer pensar sobre mão de obra feminina e indústria têxtil // Reprodução

 

Entre os dias 01 e 14 de junho acontece a 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, festival dedicado a produções que têm como tema central questões socioambientais. Realizado pela ONG Ecofalante, a Mostra conta com 100 filmes que serão exibidos em 30 salas de São Paulo, todos com entrada gratuita. Além de 38 apresentações inéditas no Brasil e 3 pré-estreias, alguns filmes selecionados têm participação de renomes do cinema como Daisy Ridley, Emma Thompson, Oscar Isaac, Rachel McAdams e Tilda Swinton.

O festival celebra a Semana Nacional do Meio Ambiente, instituída em 1981 como sendo a primeira semana do mês de junho. Comemora também o Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, criado em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, com o intuito de chamar a atenção para os problemas ambientais e para a importância da preservação dos recursos naturais.

Alimentação & Gastronomia, Cidades, Contaminação, Economia, Mudanças Climáticas, Povos & Lugares e Trabalho são os temas da Mostra Contemporânea Internacional. A 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental conta também com Competição Latino-Americana para curta e longa-metragem, Concurso Curta Ecofalante, Mostra Escola & Circuito Universitário, e Panorama Histórico: A Amazônia no Imaginário Cinematográfico Brasileiro.

A homenagem vai para Vincent Carelli, indigenista e premiado documentarista. A programação inclui, além de seus longas-metragens recentes (os elogiados “Corumbiara” e “Martírio”), títulos marcantes realizados pelo projeto Vídeo das Aldeias, criado pelo cineasta nos anos 1980. A obra de Carelli, que estará presente, será o centro do debate Cinema de Resistência, agendado para o dia 13 de junho (terça-feira), às 20h00, no Cine Reserva Cultural.


A partir de ações concretas e positivas que já estão funcionando, Amanhã, de Mélanie Laurent e Cyril Dion, é um convite para descobrir como poderia ser o mundo de amanhã // Reprodução.

 

Os Destaques

Nessa edição 2017 há diversos filmes que passaram por festivais internacionais. Amanhã, que tem na direção Mélanie Laurent, foi eleito como o melhor documentário dos prêmios César. A obra trata de uma jornada por várias partes do mundo em busca de soluções nos campos da agricultura, energia, economia, democracia e educação. Por sua vez, O Suplício: Vozes de Chernobyl é baseado em livro da vencedora do Prêmio Nobel Svetlana Alexievich e focaliza os desdobramentos do maior acidente nuclear da história, ocorrido na Ucrânia, em 1986.

A Terra dos Fantasmas Vista pelos Bushmen (Alemanha) foi vencedor do prêmio do público no badalado Festival SXSW – South by Southwest, nos Estados Unidos. E o festival IDFA-Amstardã, considerado como a “Cannes” do documentário, selecionou quatro obras presentes no evento: Uma Caçadora e Sua Águia, o nacional Aracati e os inéditos no Brasil Algo de Grandioso (França) e Salero (EUA), este último descrito como uma viagem poética pela maior planície de sal do mundo, localizada na Bolívia.

Com participações no Festival de Veneza, estão incluídos Complexo Fabril (sul-coreano que venceu o Leão de Prata no evento italiano), o francês Gigante (eleito melhor produção sobre ecologia e desenvolvimento sustentável), Champ des Possibles (Canadá) e o brasileiro Salon.

Sete filmes da programação foram selecionados para as recentes edições do Festival de Berlim. Na Mostra Contemporânea Internacional estão três títulos inéditos no Brasil: o chinês Minha Terra, o holandês  Desejo de Carne e Batalha Inuk, sobre as dificuldades de uma nação indígena esquimó. Na Competição Latino-Americana figuram outras quatro obras que passaram no festival alemão: o argentino Damiana Kryygi e os curtas-metragens Aurelia e Pedro (mexicano vencedor de menção especial na mostra Generation Kplus), o brasileiro Das Águas que Passam e O Mergulhador,  do México.

 

Seleção Modefica

• Para pensar sobre moda e métodos de produção:

Complexo Fabril (Coréia do Sul, 2015, 95 min) | horários e salas.

Do diretor Heung-Soon Im,  o longa-metragem inédito no Brasil lança um olhar poético sobre o significado do trabalho a partir de mulheres operárias na Ásia. O filme mostra como o rápido desenvolvimento da economia sul-coreana teve como um de seus suportes a opressão às mulheres trabalhadoras. A obra aborda a vida das mulheres da classe trabalhadora que se dedicam à indústria têxtil a partir da década de 1960 e termina no Camboja, onde se encontra hoje a repetição da mesma história de trabalho não-regular e marginalizado.

 

 No meio do trabalho intensivo e condições insalubres, as mulheres lutam por melhores condições desde o começo do trabalho fabril // Reprodução

 

Máquinas (Índia/Alemanha/Finlândia, 2017, 75 min) | horários e salas. 

“Máquinas” se passa em uma fábrica têxtil da Índia, movendo-se através dos corredores e entranhas da gigantesca estrutura para revelar um local de trabalho desumanizador. Com forte linguagem visual, fotos marcantes ​​e entrevistas com os próprios trabalhadores, o diretor Rahul Jain conta uma história de desigualdades e opressão. No Sundance Festival, o longa-metragem  foi vencedor do prêmio de melhor documentário da mostra World Cinema. Inédito no Brasil, o longa conquistou ainda o prêmio da crítica internacional e o prêmio especial do júri no Festival de Documentários de Tessalônica (Grécia).

 

Para mostrar sua visão sobre o tema, Jain se aventura por uma grande fábrica de têxteis em Gujarat, na Índia, capturando seu funcionamento interno com poucas palavras e muitas imagens // Reprodução
 

Cheirando Mal (EUA, 2015, 91 min) | horários e salas.

Do diretor Jon J. Whelan, o longa inédito no Brasil começa com um novo pijama infantil com um péssimo odor e um pai solteiro tentando descobrir o que esse cheiro poderia ser. Ao invés de obter uma resposta direta, o diretor de Cheirando Mal, o norte-americano Jon J. Whelan, tropeça em uma questão ainda maior: alguns produtos em nossas prateleiras simplesmente não são seguros. Divertido, esclarecedor e às vezes quase absurdo, o filme leva a uma jornada por varejos, laboratórios, reuniões empresariais, e até aos salões do Congresso. Acompanhamos este pai em conflito com agentes políticos e empresariais, todos tentando proteger os segredos mais ocultos da indústria química.

 

De roupas a produtos de beleza, Cheirando Mal mostra como nossos produtos de todos os dias estão contaminados pela ganância da indústria química, pouca ação dos governos e agências reguladoras e falta de interesse da população // Reprodução
 

• Para pensar sobre alimentação:

Os Libertadores (Bélgica, 2015, 82 min) | horários e salas.

Documentário belga premiado no Festival de Innsbruck, na Alemanha, Os Libertadores aborda a agricultura alternativa e seu comércio, focalizando fazendas de pequena escala, dirigida por famílias, e como o solo desempenha um papel importante para uma agricultura sustentável. Dirigido por ean-Christophe Lamy e Paul-Jean Vranken, o filme demonstra de forma impressionante que ter uma interação duradoura com a natureza assegura a geração de alimento valioso e possibilita uma autonomia robusta.

 


A agroindústria não é apenas prejudicial para o ser humano e para o meio ambiente, mas também não é capaz de vencer a fome global // Reprodução
Desejo de Carne (Holanda, 2015, 74 min)

Nós somos viciados em carne? Por que comer muita carne nos deixa com um sentimento de culpa? E por que existe um abismo conceitual tão grande entre o animal e o pedaço de carne que vem dele? Em Desejo de Carne, a apresentadora da TV holandesa e diretora do filme Marijn Frank explora o dilema entre o amor pela carne e os argumentos racionais contra os produtos da indústria de carne. Ela é uma jovem mãe que tenta, mais uma vez, parar de comer carne tornando-se aprendiz de um matadouro e fazendo terapia. O filme, que foi exibido no Festival de Berlim, examina de forma divertida valores morais, hipocrisia e o simbologia ligada à carne.

 


Carne? Não, obrigada. // Reprodução
 

Espólio da Terra (Áustria, 2015, 91 min) – dir: Kurt Langbein * INÉDITO NO BRASIL

Terras agrícolas estão se tornando cada vez mais valiosas e escassas e, após a crise financeira em 2008, o capital financeiro global redescobriu este segmento de negócios. A produção austríaca “Espólio da Terra”, de grande circulação no circuito internacional de festivais, mostra como funciona o “colonialismo 2.0”. A obra retrata os investidores, que discorrem sobre a economia saudável, da garantia do fornecimento de alimentos e de prosperidade para todos (entre eles, o brasileiro Blairo Maggi, conhecido como o “rei da soja” e atualmente Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Mas também dá voz às suas vítimas, que nos falam sobre despejo, trabalho escravo e a perda de sua base econômica.

• Para pensar sobre mulheres e ambientalismo:

Substantivo Feminino (Brasil, 2016, 60 min) | horários e salas. 

De Daniela Sallet e Juan Zapata, o filme resgata a história de duas mulheres pioneiras e fundamentais para a militância ambiental no Rio Grande do Sul e no Brasil. Mais do que isso, a atuação de ambas tive inserção internacional no movimento em defesa do meio ambiente. Giselda Castro e Magda Renner eram donas de casa quando começaram sua luta em 1964, com ações de cidadania junto à população carente, tendo percorrido o mundo, integrando organizações internacionais e o Comite de ONGs do Banco Mundial. Foram inclusive vigiadas pelo Serviço Nacional de Informações – SNI no período militar. O documentário revela peculiaridades dessas mulheres ricas que ousaram contrariar interesses econômicos.

 


Mulheres pelo meio ambiente não é um tema novo no Brasil // Reprodução
 

• Para pensar sobre a sociedade:

Frágil Equilíbrio (Espanha, 2016, 81 min) | horários e salas. 

Nesse longa três histórias em diferentes continentes se entrelaçaram: em Tóquio, dois executivos japoneses têm suas vidas presas no ciclo vicioso do consumismo e do trabalho exaustivo; uma comunidade africana arrisca suas vidas diariamente para atravessar para o primeiro mundo; e, na Espanha, famílias são despejadas pela crise econômica e pela especulação imobiliária. Dirigido por Guillermo García López e inédito no Brasil, o longa tem as histórias articuladas pelas palavras de Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, que trata de questões universais que ameaçam a humanidade, questionando as bases do mundo em que vivemos. O filme foi vencedor do Prêmio Goya 2017 para melhor documentário espanhol.

 


“A vida é um milagre. E temos que cuidar delas” // Reprodução
 

Até o Fim da Terra (Canadá, 2016, 81 min) | horários e salas.

Narrado pela atriz e roteirista britânica Emma Thompson, vencedora de dois prêmios Oscar, “Até o Fim da Terra” e com participações de personalidades como Naomi Klein, escritora e ativista canadense, autora de “No Logo”, a produção canadense  dirigida por David Lavallée dá voz àqueles que não apenas denunciam a ascensão da energia extrema, mas que também imaginam o novo mundo que forma em seu lugar. O filme mostra que, com a interrupção de crescimento na produção de petróleo convencional, passou a ocorrer a expansão de formas de extração de energia mais perigosos, e que inclusive consomem muito mais energia do que pensamos. Entre essas formas estão as tar sands (“areias de alcatrão” – uma combinação de argila, areia, água e betume) e o fracking (fraturamento hidráulico, que é utilizado para realizar perfurações e extração de gás, o chamado gás xisto).

 


Um dos pontos importantes do filme é mostrar como o governo Obama investiu mal nos programas de energia e como precisamos pensar sobre o fim do crescimento econômico // Reprodução
 

O Suplício: Vozes de Thernóbil (Luxemburgo/Áustria/Ucrânia, 2015, 87 min) | horários e salas.

Baseado no livro vencedor do prêmio Nobel “Vozes De Tchernóbil: A História Oral do Desastre Nuclear”, da escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich, o longa-metragem O Suplício: Vozes de Chernobyl focaliza o mundo em torno do maior acidente nuclear da história, ocorrido na Ucrânia, em abril de 1986, sobre o qual sabemos muito pouco. Dirigido por Pol Cruchten, o filme se estrutura a partir dos relatos de testemunhas oculares, como cientistas, professores, jornalistas, casais e crianças. Eles falam de suas antigas vidas cotidianas e então da vida depois da catástrofe, formando um longo e terrível, mas necessário, suplício.

 


Imagens belas e marcantes ilustram a história triste de Tchernóbil// Reprodução
 

A Era das Consequências (EUA, 2017, 81 min) | horários e salas. 

O longa-metragem, do norte-americano Jared P. Scott, trata-se de uma vigorosa investigação, sob o ponto de vista da estabilidade mundial e da segurança nacional dos Estados Unidos, na qual oficiais militares fazem análises para além das manchetes das crises de refugiados, da Primavera Árabe, dos conflitos na Síria e até mesmo do surgimento de grupos radicais como o Estado Islâmico. Eles revelam como o impacto das mudanças climáticas interagem com tensões sociais, provocando escassez de recursos, imigração e conflitos ao redor do mundo. O cineasta Jared P. Scott ganhou notoriedade ao codirigir em 2015 “Requiem for The American Dream”, no qual o intelectual Noam Chomsky questionava a concentração de riquezas por um grupo seleto de pessoas, revisitando o ideal do “sonho americano”.

 


Imagens belas e marcantes ilustram a história triste de Tchernóbil// Reprodução
 

O Jabuti e a Anta (Brasil, 2016, 71 min) – Eliza Capai | horários e salas. 

A seca em São Paulo é o ponto de partida do longa-metragem “O Jabutio e a Anta”, que traz uma reflexão sobre os impactos de nosso estilo de vida. Inquieta com as imagens dos reservatórios vazios no sudeste do Brasil, uma documentarista busca entender as obras faraônicas agora construídas no meio da floresta amazônica. Entre os rios Xingu, Tapajós e Ene, ecoam vozes de ribeirinhos, pescadores e povos indígenas atropelados pela chegada do chamado desenvolvimento. O filme da diretora Eliza Capai foi selecionado para o Festival do Rio e para a Mostra de Internacional Cinema de São Paulo. A realizadora assina também o longa “Tão Longe é Aqui”, sobre o encontro da cineasta com mulheres africanas de culturas distintas.

 


Belo Monte é, ao mesmo tempo, símbolo do atraso e do avanço. No lugar de investimento em energia eólica e solar, devastação e destruição // Reprodução

Gostou dessa matéria? Compartilhe.
Tags

. .