Mulheres Nas Artes: Ishiuchi Miyako Entra No Universo Particular De Frida Kahlo

A Galeria Michael Hoppen em Londres, situada no coração do Chelsea, é especializada em lançar e exibir os mais promissores nomes da fotografia internacional. Estivemos por lá nesse mês de junho e pudemos conferir o último e instigante trabalho da fotógrafa japonesa Ishiuchi Miyako.

Ela, que se lançou no início dos anos 70 e sempre voltou para a fotografia como forma de memória e resgate, tendo como ponto de partida coleções e arquivos fotográficos, foi escolhida para catalogar o universo particular de Frida Kahlo. Ao apresentar sua série de fotografias que registra os pertences da pintora mexicana até então intocados, desde a sua morte em 1954, Ishiuchi Miyako nos ensina como conhecer uma artista pelos olhos de outra.

Os objetos pessoais e peças do guarda-roupa de Frida foram selados no banheiro da Casa Azul, hoje o Museu Frida Kahlo em Coyoacán, pelo artista Diego Rivera, com quem dividiu sua conflituosa vida amorosa. A pedido dele, o banheiro foi mantido fechado após os 15 anos da sua morte e reaberto só em 2004, quando então, a fotógrafa foi convidada para fazer o registro.

Conhecida por suas séries anteriores que investigam, através do material, o legado do que deixamos, tanto quanto indivíduo como sociedade, Miyako segue sua linha de pesquisa, mas agora se afastando das questões da cultura japonesa, e mergulhando dentro da vida de uma das principais artistas do século XX.

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Ao todo foram mais de 300 relíquias guardadas ao longo da vida de Frida, que Miyako cuidadosamente apresentou ao público. Assim como muitas pessoas, a fotógrafa não sabia quão intensa e problemática foi a vida da artista, e foi através de seus pertences e estudos paralelos a esse trabalho que teve o primeiro contato com a história de Frida.

As fotografias, tais quais os objetos em si, dizem muito sobre a artista, a mulher, a militante, a filha e a esposa que Frida foi. Tantos papéis executados em uma vida curta marcada por grandes dificuldades físicas e emocionais, mas nem por isso sem aventuras e grandes conquistas.

“O fascínio que ela sentia por si mesma fascinava os homens… Ela correspondia completamente ao ideal surrealista de mulher. Tinha uma qualidade teatral, uma grande excentricidade. Ela estava sempre representando conscientemente um papel, e seu exotismo atraía de imediato a atenção.” afirma Nicolas Cala, crítico surrealista.

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Ao somar os fatos mais importantes da vida de Kahlo às fotografias de Ishiuchi Miyako, relacionamos imediatamente seus objetos a seu estilo de vida, como, por exemplo, compreendemos que o traje que ela adotou, o das mulheres de Tehuantepec, famosas pela imponência, sensualidade, inteligência, coragem e bravura, eram pra compensar sua incapacidade física.

No livro Frida – A Biografia, a autora Hayden Herrera explica exatamente o estilo da mulher tehuana: “Segundo o folclore, as mulheres de Tehuantepec vivem em uma sociedade matriarcal, em que as mulheres dirigem os mercados, cuidam das questões fiscais e dominam os homens. E a roupa é linda: um blusão bordado e uma saia comprida, geralmente de veludo vermelho ou púrpura, com uma prega de algodão branco na bainha. Os acessórios incluem correntes de ouro e colares de moedas de ouro, que constituem o arduamente conquistado dote das moças, e, em ocasiões especiais, um primoroso adorno de cabeça com plissês rendados e engomados, semelhantes a um rufo elisabetano de tamanho fora do comum.”

Além da função de esconder suas deficiências, sua indumentária era como uma máscara primitiva que a libertava das tradições e práticas burguesas, e uma maneira de se sentir mais “simples” e próxima do seu povo, da terra e da natureza. Um dado importante ao examinar as fotografias e consequentemente os objetos de Frida Kahlo, que invariavelmente estão também presentes em sua pintura, é sua íntima relação com a natureza. Após o acidente que causou os futuros problemas de saúde que a acompanharam até a morte, o amor pela natureza se estabeleceu com muita força em sua vida. “O amor que ela sentia pela natureza se renovou, e a mesma coisa pelos animais, cores e frutas, por qualquer coisa à sua volta que fosse bela e positiva” explica Alvarez Bravo, que fotografou Frida ocasionalmente.

O que é curioso nessa relação entre as duas artistas é que Ishiuchi Miyako estudou design têxtil, e por isso seu olhar está tão familiarizado com as formas, estruturas, cores e fibras que a sua lente foca. Ishiuchi conhece o processo de tecelagem e os diferentes sentimentos produzidos pela visão e tato, e faz uso dessa ferramenta para despertar emoções no espectador através dos objetos têxteis que fotografa, elevando as peças de roupa ou meros objetos à um verdadeiro tesouro.

O conjunto das imagens apresenta uma cartela de cores fortes e em alto contraste. Brilhos, penduricalhos, cada item meticulosamente registrado respeitando seu ornamento. As peças revelam uma insistência no uso delas, e nota-se uma grande importância à esse detalhe: velhas e antigas, as peças estão cheia de remendos e em partes esgarçadas, cerzidas, assim como o corpo de Frida que passou por diversas cirurgias e adquiriu cicatrizes. Esses rastros ecoam diretamente ao passado da artista, marcado por tentativas, muitas vezes dolorosas de se manter de pé, firme, como mulher e como artista.

O trabalho de Miyako foi construir várias analogias com a vida e a obra de Frida. Assim como em algumas fotografias, em que a imagem nada mais é do que um close de uma peça em plano fechado, constituindo uma só textura, uma só partícula do que poderia facilmente ser um detalhe de uma das pinturas de Frida Kahlo. E muito provavelmente, Frida não tratava dos seus pertences com diferença da sua arte. Quem a conhecia sabia a importância que dava a cada fita e laço que escolhia para adornar o seu corpo, assim como “bordava” sistematicamente os detalhes dos seus vestidos nos auto-retratos.

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Há também um grande destaque aos indícios da sua resistência política, através dos símbolos da luta popular que apoiou principalmente ao lado de Diego. Ambos compartilhavam de ideais nacionalistas e mantinham verdadeiro apreço pela cultura genuinamente mexicana, por isso “envergar vestimentas indígenas era uma maneira de proclamar lealdade a la raza“, ressalta Herrera.

Cada peça de roupa e cada acessório contribuiu para a configuração de um ser complexo que conseguiu se reconstruir e recriar fora de seu próprio corpo quebrado, uma personalidade única, de feminilidade agressiva e ao mesmo tempo vulnerável e bem-humorada. A pintura foi a maneira que encontrou de registrar suas descobertas ao que ocorrera ao seu próprio corpo. De acordo com Herrera, “a pintura foi uma parte da batalha de Frida Kahlo pela vida. Foi também uma parte significativa de sua autoinvenção: em sua arte, assim como em sua vida, a autorepresentação teatral era um meio de controlar seu mundo.”

Capturadas em luz natural com uma Nikon 35 milímetros, as imagens desse catálogo podem parecer enganosamente simples, porém, avaliado em conjunto, estas relíquias se tornam uma composição, uma visão panorâmica sobre uma mulher que customizava formas de canalizar suas dificuldades físicas em manifestações corajosas de identidade, força, e feminilidade.

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Ishiuchi Miyako registra com maestria o legado da artista que encarou a vida como um verdadeiro desafio a ser percorrido, deixando as marcas que sentia na pele em seus objetos e na sua arte, documentando-os de forma elucidativa todos os eventos que determinaram a sua vida.

A exposição Frida por Ishiuchi está em mostra na Galeria Michael Hoppen em Londres até o dia 12/07/2015, e em setembro o Instituto Tomie Ohtake receberá a exposição “Frida Kahlo e as mulheres surrealistas no México” .

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