Mulheres Nas Artes: Laurie Anderson Orquestra Sobre A Vida E A Morte Em “Coração De Cachorro”

Laurie Anderson é uma artista contemporânea conhecida por transitar por várias linguagens da arte e, embora a maioria dos seus trabalhos se volte para a criação sonora e performances, ela acaba de colocar no mundo o seu primeiro filme. Assim como sua carreira, o longa de Anderson é o resultado de uma trajetória experimental.

Apesar de Laurie ser uma entusiasta da tecnologia, o filme-documentário “Coração de Cachorro” tem uma estética caseira, além de um caráter íntimo muito bem explorado através de seus questionamentos pessoais relacionados a acontecimentos externos responsáveis por afetar o mundo, como o fatídico 11 de setembro.

É delicado falar em estética caseira, porém, no caso de “Coração de Cachorro”, o adjetivo carrega uma conotação positiva. Laurie trabalha as cenas acrescentadas à paisagem sonora e à sua voz, narrando e direcionando o sentido das imagens de uma maneira muito orgânica e natural. O filme nos envolve logo no primeiro momento porque nos adaptamos rapidamente ao ritmo de sua voz.

A narrativa é construída numa toada, assim como pensamentos fluídos, como quando hipotetizamos coisas sobre nós, sobre eventos, e relacionamos com diversas coisas que estão ao nosso redor. O nosso pensamento é tão veloz e arbitrário que somos capazes de fazer inúmeras reflexões sobre um tema num curto espaço de tempo, sem ao menos nos darmos conta. Talvez por isso durante o filme seja possível atingir um nível de consciência muito parecido com a meditação. E quando atingimos esse estado, nós nos aproximamos mais de nós mesmos, da nossa melhor e pior parte.

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É um sentimento muito humano, apesar do centro da história ser a cachorra Lolabelle. Ou, sobretudo, sobre o fim da vida de Lolabelle. É sobre a morte e a vida, e o que acontece no vão entre cada momento.

Nesse recorte de tempo, Laurie resgata trechos da sua infância e expõe seu sentimento confuso sobre a mãe através de eventos que ficaram como resquícios mal-resolvidos na sua memória, e ao serem trazidos para dentro da obra, se tornam evidentes, bonitos, mais suaves ou tão mais tristes e intensos.

É, de fato, um sentimento paradoxal. E não é isso o que sentimos o tempo todo? Quando saí do cinema e me perguntaram se o filme era bom eu disse que sim. Mas não é só bom, é também triste, engraçado, dramático, bonito, envolvente. Chorei, ri e fiquei com medo. Lembrei então da única obra que tinha me causado tantos sentimentos diversos de uma vez. Foi em um monólogo da Denise Stoklos chamado “Olhos recém-nascidos”, um ensaio sobre a perda, fins e recomeços.

O filme parte de uma experiência pessoal, mas combina dados sobre a nossa cultura e nosso tempo de maneira bem direta e objetiva, quando usa imagens de gravação de câmeras do metrô. Como numa espécie de colagem visual, Laurie Anderson compartilha seu mundo através desse diário em vídeo, que é também um caderno de rascunhos, um álbum de fotografias, e muitas anotações relevantes sobre suas referências no mundo da arte.

Imagens: Reprodução

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