Essas Mulheres Estão Quebrando Estereótipos do Mercado de Trabalho

Vivemos numa sociedade patriarcal machista, que continua impondo o pensamento de que existe “trabalho de homem” e “trabalho de mulher”.  Mas, gostem ou não, as mulheres estão tornando essas divisões cada vez mais fluidas provando que podem sim – aliás, têm o direito de – trabalhar com o que quiserem, com o que sabem e principalmente com o que amam fazer. As escolhas profissionais precisam ser desmistificadas porque, na verdade, não há tal coisa como aptidão baseada em gênero.

Até a inteligência feminina é tabu em relação à ideia de que as profissões associadas à força e cálculos, por exemplo, são reservadas para os homens, como mostra um estudo da ONG Plan Internacional, que defende os direitos das crianças, adolescentes e jovens com foco na promoção da igualdade de gênero. A pesquisa, que faz parte do movimento global “Por Ser Menina” criado pela ONG para garantir que todas as meninas do mundo possam aprender, liderar, decidir e progredir, revelou que 37,7% das meninas com idade entre 6 e 14 anos ainda não acreditam que são tão inteligentes quanto os meninos.

A pesquisa também revelou que elas não têm os mesmos direitos na prática e denunciam uma desigualdade de gênero gigante até mesmo nas tarefas diárias, dentro de casa, com os próprios irmãos do sexo masculino: enquanto 76,8% delas lavam a louça, 65,6% limpam a casa e 34,6% cuidam dos irmãos menores, apenas 12,5% dos irmãos homens executam a tarefa das louças, 11,4% são encarregados de limpar a casa e 10% são responsáveis por tomar conta dos mais novos. E um dos dados mais preocupantes destacados nesse estudo: “37,3% das meninas nas escolas públicas rurais e 31% nas escolas urbanas particulares declaram que as pessoas da família ficariam chateadas se elas quisessem fazer coisas que geralmente os meninos fazem”. É inevitável que essa mentalidade e essa cultura persistente migre para todos os campos da vida de uma mulher, inclusive no trabalho fora de casa.

A barreira do estereótipo de gênero, porém, vem sendo quebrada porque as mulheres estão reconhecendo (e exigindo) seu lugar, suas habilidades, suas competências e sua inteligência. Abaixo, listamos 4 delas para você conhecer e se inspirar.

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Serviço de pedreiro? É pra mulherão!

Paloma Cipriano, estudante de Publicidade de 24 anos, nascida em Sete Lagoas/MG, está derrubando qualquer estereótipo relacionado aos serviços de construção, reforma e acabamento. Considerada uma especialista em, literalmente, colocar a mão na massa, Paloma decidiu assumir a obra da casa em que ela mora com a família, que está em reforma desde quando ela nasceu. Como nunca teve uma presença masculina em casa, aos 16 anos fez um curso de alvenaria e acabamento para aprender a resolver o que fosse preciso. Primeiro, ela começou a assistir tutoriais de profissionais da área na internet, hoje ela tem seu próprio canal no Youtube com mais de 318 mil inscritos e vídeos com mais de 5 milhões visualizações, como o “Como rebocar a parede” e “Como passar massa corrida fácil com rodo e rolo”.

Das coisas mais simples às que você nunca imaginou que poderia fazer dentro de casa sem a ajuda de um pedreiro ou de um mestre de obras, Paloma está pronta para ajudar. Fazer lustre, envernizar parede, aplicar piso vinílico, instalar placa de gesso, construir um balcão com tijolos maciços, assentar pastilhas de vidro e aplicar rejunte são alguns outros exemplos do que ela já ensinou, além de ajudar as pessoas a também conhecer ferramentas e saber como usar cada uma delas. Para Paloma, o importante é tentar fazer o que precisa ser feito, economizando com mão de obra e tendo a incrível sensação de um trabalho feito com o próprio suor.

Quando você dá o play em um vídeo de Paloma, cheios de alto astral e bastante intuitivos, você entende que tem espaço para a mulher onde ela escolher trabalhar, dentro ou fora de casa, e que mesmo enfrentando a resistência machista e o preconceito (vindo também por parte das mulheres), pode fazer como Paloma: nunca desistir de seguir em frente, com coragem e persistência, trocando o ‘pensar que é difícil’ pelo ‘fazer dar certo’.

 

Inovações científicas? É pra mulherão!

Vamos começar com dados importantes aqui: a presença das mulheres no meio científico ainda é um grande tabu que precisa ser transposto. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep, no Censo da Educação Superior 2016, existem 57% de mulheres estudando em universidades no Brasil contra 43% de homens. Em cursos de licenciatura a porcentagem aumenta para 71,1% de público feminino e apenas 28,9% de estudantes do sexo masculino. Porém, quando são analisados os cursos de áreas consideradas ‘tradicionalmente masculinas’ por exigirem objetividade, força e destreza, como engenharias, computação e matemática, a proporção se inverte e o número de homens é bem maior em todas as regiões do país, o que comprova que as mulheres ainda se identificam com atividades mais relacionadas ao cuidado, como pedagogia, nutrição, enfermagem e assistência social. Infelizmente, isso só desencoraja o ingresso das mulheres nessas áreas e o enfrentamento do preconceito enraizado na sociedade.

Mas esse cenário não se encaixa na carreira almejada por Natália Oliveira. A cientista pós-doutoranda de Recife, que trocou o sonho de cursar arte para adentrar o universo forense investigativo, é um ótimo exemplo de quebra de estereótipos desde que decidiu participar do concurso “Dance your Ph.D.”, da internacionalmente prestigiada revista Science, com seu trabalho intitulado “Desenvolvimento de biossensores para aplicações de Ciências Forenses”, provando que a ciência não só é lugar de mulher, como é espaço para mulheres com ideias e projetos geniais.

 


O vídeo de Natália para o Dance Your Ph.D. levou nas categorias Voto Popular e Química.
 

Do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami, da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, para ganhar para o mundo, ela criou um videoclipe para explicar a importância dos biossensores defendida em sua tese através da linguagem da dança – o grande desafio do concurso. Até aí, nada demais, mas o vídeo que mostra como usar o equipamento desenvolvido por ela – a única brasileira na disputa – para identificar DNA em cenas de crime, tem sete dançarinos se movendo com passos poderosos ao estilo ‘Vogue’ (criado pelo público LGBT e popularizado em todo o mundo a partir dos anos 1990), resgatado pelo grupo recifense por ser uma forma de expressar a resistência, a contracultura, a moda e o estilo de vida que buscam.

Em poucos meses, ela transformou sua tese em uma coreografia, executada dentro do laboratório e nas ruas do Recife Antigo, enviou o vídeo no último dia da competição superando o medo da aceitação do júri por causa dos integrantes e do figurino do clipe totalmente fora do padrão hetero-normativo. Saindo à frente de outros 53 cientistas de diversas nacionalidadese, foi a vencedora das categorias “Química” e “Voto Popular”.

 

Pilotar para ganhar o céu? É pra mulherão!

A pergunta é muito simples: quantas vezes você entrou em um avião pilotado por uma mulher? A participação feminina nessa profissão cresce a cada ano, como mostra um levantamento da ANAC divulgado neste ano, e o número de licenças de mulheres na aviação cresce 106% nas categorias de piloto, posição historicamente dominada pelos homens. Ainda assim, a diferença é assustadora, já que o país tem 1.465 pilotas e 46.556 profissionais masculinos em atividade. Assustadores são também os desafios quando se decide lutar contra a desigualdade de gênero, dentro e fora de um avião. E é exatamente nesse ponto que entra Fernanda Prieto para fazer cair pela gravidade abaixo a crença de que pilotar não é coisa de mulher.

Fernanda é uma das pilotas brasileiras que faz parte dessa estatística que só cresce, e foi influenciada pelo pai, também piloto, a seguir seu sonho de ganhar os céus comandando um avião. Ela faz isso há mais de 20 anos – quando tinha 17 tirou a sua habilitação para voar (brevê) antes mesmo da CNH -, conciliando a carreira que já ultrapassa a marca de 10 mil horas de voos nacionais e internacionais com o dia a dia de mãe de dois filhos.

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Enfrentando as turbulências do preconceito nítido nos olhares dos passageiros, a comandante da Gol Linhas Aéreas segue acreditando que as mulheres, cada vez mais, se sentem fortalecidas para escolherem a profissão que quiserem, exigindo respeito, igualdade de tratamento e confiança. Essencialmente, o cargo de pilota já é desafiador, e Fernanda Prieto, com muito estudo e dedicação, agarrou as oportunidades e, literalmente, voa alto para garantir pousos empoderados.

 

Liderar uma oficina mecânica? É pra mulherão!

Esse é, definitivamente, um ambiente dominado por homens no Brasil, e na maior parte dos países do mundo, mas Daniella Lima decidiu ir na contramão do tradicionalismo, do machismo e do preconceito para assumir não o papel que a sociedade queria para ela, e sim o que ela mesmo sonhava em ocupar. Abdicando do cargo de assistente administrativa na organização WWF, e aproveitando o tempo livre durante a sua licença-maternidade, Daniella fez cursos no SENAI que a qualificaram para abrir abrir sua própria oficina mecânica, e sofreu preconceito até no ambiente escolar onde os homens tentavam intimidá-la por ser a única presença feminina.

De acordo com o SENAI-SP, as mulheres já são 3% dos alunos nos cursos de manutenção automotiva, o que significa mais de 900 mulheres por ano; a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2015 mostrou que o público feminino empreende mais do que o masculino, com uma taxa de 15,4% contra 12,6%, o que respalda a sábia opção de Daniella.

O desejo de atuar na área surgiu porque ela se sentia enganada sempre que precisava consertar o carro, pagando mais do que os clientes homens pelo serviço, o que a fez pensar que poderia aprender a profissão e oferecer um serviço honesto focado nas mulheres, na cidade de Rio Branco, no Acre, oferecendo serviços mecânicos, borracharia e lava-jato.

Daniella faz questão de colocar um toque feminino em todos os consertos, devidamente trajada com botas cor de rosa, maquiagem e bijuterias, e as clientes podem acompanhar o andamento do trabalho através do Whatsapp e recebem uma ligação na semana seguinte para saber se está tudo certo com o carro. Além disso, ela conversa com suas clientes – 70% são do público feminino e 30% representam os homens que decidiram não dar marcha ré e voltar quando foram atendidos por uma mulher – mostrando o que realmente precisa ser feito para que elas entendam a execução, de forma didática e personalizada, e não apenas paguem pelo serviço ou sejam enganadas por outros mecânicos.

Ela quer, através do seu exemplo – premiado em 2016 pelo SEBRAE Mulher de Negócio -, incentivar outras mulheres a adentrarem essa área naturalmente masculina e hostil mostrando que lugar de mulher é onde ela quiser estar.

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