Documentário “My Name Is Now” Faz Retrato Sensorial e Intimista de Elza Soares

Mais de 1.800 dias de produção, 150 horas de gravação, 60 terabytes de arquivos, 75 pessoas na equipe. Números como estes ajudam a dimensionar o que a estreia do documentário My Name Is Now, Elza Soares significa para a diretora mineira Elizabete Martins Campos: “É como concluir um ciclo de vida.”

Se parece exagero, eis mais um número: 2008. Foi naquele ano, uma década atrás, que a cineasta e a cantora assinaram o primeiro documento para viabilizar o início das filmagens. Na época, Elizabete tinha no currículo anos de cobertura cultural em um programa de televisão, além de curtas e do média-metragem Feira Hippie (2004). Tinha, também, grande vontade de passar para o longa com um tema relacionado à identidade brasileira. Achou o que procurava na figura de Elza Soares, após conhecê-la em uma entrevista e assisti-la ao vivo nos palcos.

“Fiquei encantada com a performance dela, não só musical como cênica”, contou a diretora, em entrevista por telefone ao Modefica. “Ela se encaixava em tudo o que eu pesquisava e estudava sobre criatividade, sobre o que é o Brasil, sobre dar a volta por cima. Ela era um signo, uma fênix.”

Procurada por Elisabete, a cantora fez mais do que aceitar ser tema de um documentário: embarcou, também, na proposta experimental da diretora, que encarava seu primeiro longa como um laboratório. My Name Is Now deixa de lado o formato documental convencional e a ideia de retratar a trajetória da artista com entrevistas, linhas do tempo e narrações em off. Sua aposta é em uma narrativa sensorial e imagética, conduzida pela própria Elza. Cenas da cantora conversando com a câmera como se ela fosse um espelho são combinadas a registros de apresentações e a imagens diversas: a lua e o sol, ondas do mar, fogo queimando, pessoas pulando carnaval.

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“Dizíamos que o filme não era sobre a Elza, era o filme que Elza e nós estávamos vivendo”, definiu a cineasta. “Ela é uma artista aberta a isso, que gosta de trabalhos mais orgânicos e artesanais. Fizemos um trabalho criativo com ela, buscando sua força criativa.”

Elza também se mostrou aberta à proposta intimista da diretora, que a filmou em momentos reservados e com a câmera bem próxima ao seu corpo e, principalmente, ao seu rosto. Segundo Elisabete, a opção vinha de uma “vontade de entender e de estar perto” da cantora. “Era uma coisa de buscar ser visceral como ela, de vir de dentro dela, dos poros dela, de querer filmar a garganta”, afirmou.

A evidente relação de confiança entre as duas mulheres se firmou aos poucos: Elisabete costumava mostrar suas filmagens para Elza e buscava atuar de forma colaborativa e cuidadosa. Segundo ela, nunca houve discussão sobre o que ou não filmar, e já o primeiro corte foi aprovado pela cantora.

A convivência com Elza ajudou a cineasta a ter “perseverança e paciência” diante dos obstáculos para realizar e distribuir o filme, que teve orçamento de cerca de R$ 1 milhão. Entre 2008 e 2012, Elisabete filmou basicamente sozinha, dedicando-se também à pesquisa. Só depois contratou a equipe, e em 2014, quando tinha o material montado, sentiu que era preciso fazer novas filmagens.

 

 

My Name Is Now ficou pronto em 2015, foi exibido em festivais e concorreu ao prêmio Netflix, que assegurava a entrada do filme vencedor no catálogo. Não ganhou a disputa e acabou ficando três anos “na geladeira”, até finalmente chegar às salas de Belo Horizonte (MG), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Distrito Federal (DF), Curitiba (PR) e Porto Alegre (RS) no último dia 1º.

A chegada aos cinemas se dá a partir do Circulabit, ou Circuito Laboratorial de Produção e Difusão Audiovisual, iniciativa da iT filmes, produtora de Elisabete, que visa a produção e difusão de obras brasileiras independentes em multiplataformas. O projeto, que tem diferentes eixos e inclui a busca de parceiros para lançamentos cinematográficos, levará o filme para o Porto, em Portugal, no mês de dezembro, e já há movimentações para percorrer outras cidades brasileiras.

Curiosamente, é possível que tanta espera tenha feito bem ao filme. Ouvir Elza Soares falar sobre sua trajetória como mulher negra, artista e periférica soa especialmente atual em tempos de #EleNão e diante da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais. “O audiovisual tem a força de falar com mentes e corações”, afirmou a diretora. “Acho que ver a Elza é um pouco como ver a resistência que teremos de ter para continuar sonhando.”

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