No SPFW 41, Alexandre Herchcovitch e João Pimenta Falam De Reuso, Upcycling, PET Reciclado E Mais

Tem algo de diferente acontecendo nessa edição da São Paulo Fashion Week. E não é sobre o fato dessa temporada marcar o início da implementação do “see now, buy now” (veja agora, compre agora), anunciado por algumas marcas que desfilam em passarelas gringas, e que deve ser totalmente implementado no evento de Paulo Borges, que já extinguiu verão/inverno do nome da semana de moda, até 2017.

Essa mudança, sem dúvidas, é interessante e digna de textão, pois anuncia uma nova era da moda e, por mais que aconteça na passarela, influencia toda a indústria. Entretanto, não é sobre isso que vamos falar aqui. É sobre como essa temporada parece ter marcado o início dos designers, fi-nal-men-te, repensando seu papel como criadores e impulsionadores de consumo.

Antes dessa edição 41, palavras como reciclagem, reuso e reaproveitamento só eram ouvidas no SPFW quando acompanhadas de algum release ou matéria sobre o mineiro Ronaldo Fraga. Podem amá-lo ou odiá-lo, mas verdade seja dita: Ronaldo foi pioneiro em problematizar a indústria da moda e falar sobre questões de sustentabilidade. Não é difícil imaginar, mesmo sendo criador talentoso, o preconceito que ele deve ter enfrentado, dos mais conservadores, no início de sua carreira.

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Desfile João Pimenta com orquestra do projeto Neojiba // Ag. Fotosite

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Aos poucos, slow fashion virou cool, vide Paula Raia; feito à mão passou a ser mais valorizado por meio de técnicas como bordado, crochê, tricô, principalmente pela força das marcas também mineiras como PatBô e GIG Couture, que caíram nas graças das blogueiras e vieram desfilar em São Paulo.

Mas ninguém queria falar de reuso, reciclagem, quem dirá veganismo. Isso parecia ser o completo oposto do “cool”, e, de fato, o que estávamos acostumados a ver anos atrás ficava bem longe da imagem desejada das passarelas. Parecia que o único capaz de fazer esse “milagre” (unir práticas mais sustentáveis com estética desejável) era mesmo Ronaldo. Não à toa, ele foi o primeiro a ser procurado pela Rhodia e Santa Constância para o lançamento oficial do Amni Soul Eco.

Agora, com o avanço da Internet, com o desastre do Rana Plaza, com os documentários que expõe os fatos por trás das nossas roupas, seja em questões de mão de obra, seja em questões ambientais e direitos do animais, com as vozes do movimento Ecoera e Fashion Revolution ecoando, com a ascensão de marcas conscientes e consumidores desejosos por consumir um produto menos devastador… fi-nal-men-te vemos as palavras ‘reuso’, ‘reciclagem’, e até ‘upcycling’ e ‘veganos’ começando a aparecer nos releases dos desfiles das semanas de moda brasileira.

Outra coisa a ser celebrada é que termos muito vagos como ‘tecidos sustentáveis’ ou ‘materiais ecológicos’ não apareceram. No lugar, vimos explicações melhores dos processos, dos tecidos e da história da produção da coleção. Parece, também, não haver mais espaço para posicionamento de “designers salvadores” de comunidades, mas sim para parcerias ganha-ganha, fortalecendo trabalhos que já acontecem há muito tempo fora dos holofotes.

Thrift Shop, Vintage, Veganismo E Amor Na Nova Fase De Alexandre Herchcovitch

Primeiro, foi Alexandre Herchcovitch em sua estreia para À La Garçonne. Em 45 dias, com a ajuda de 6 pessoas, a primeira coleção da loja vintage de Fabio Souza, especializada em mobiliário, ficou pronta. A independência e as referências do universo vintage, sem dúvidas, foram cruciais para o designer criar a coleção apresentada no último dia 27.

Jaquetas perfecto vintage ganharam novos ares com as pinturas à mão de cordas e âncoras. Tecidos garimpados de diversas décadas, como o azul risca de giz, entraram na coleção sem dificuldades. Teve bolsas de lona feitas com tecido reciclado Eco Simple e as crossbodys ganharam alças de cinto de segurança. O desenvolvimento desses acessórios foram feitos em parceria com a Recman, marca jovem, mas já conhecida por dar nova, e elegante, cara à borracha de câmeras de pneus.

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Peças feitas em tecidos antigos garimpados na À La Garçonne // Ag. Fotosite

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Perfecto garimpada e customizada e sapato vegan À La Garçonne // Ag. Fotosite

Os scarpins de salto grosso foram feitos em material sintético pela Di Cristalli, garantindo, pela primeira vez, sapatos veganos por Alexandre Herchcovitch. Na onda “see now buy now”, os sapatos clássicos e atemporais, já estão em pré venda.

Depois de ter saído das “garras” de um conglomerado de marcas, ficou mais fácil para Alexandre dizer adeus às famosas caveiras (que estamparam desde xícaras da Tok Stok a jogo de lençol da Zelo). É difícil explicar, mas a sensação é que, se seguir esse rumo, a passarela de Alexandre promete ficar mais democrática (esteticamente falando), contemporânea e jovem.

Além do amor, que desenhou corações com cordas, e pontuou colares feitos de anéis de noivado por Hector Albertazzi, o reuso, a reciclagem e os sapatos veganos atraíram a atenção da mídia especializada: por um lado, não é algo que se esperava do designer, mas, por outro, era óbvio que ele poderia abraçar a ideia e orquestrá-la com maestria.

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Há, sem dúvidas, críticas construtivas a serem tecidas como a parceria com a Hering e Converse, e como a própria assessoria de imprensa da marca posicionou o desfile para a mídia:

“A À La Garçonne valoriza o reuso de materiais e utiliza, na confecção de suas roupas, tecidos feitos com material reciclado, tecidos antigos esquecidos nas prateleiras das tecelagens e até tecidos retirados de roupas vintage. Mas, sem radicalismos, também dá espaço a novos tecidos.”

A perpetuação da ideia da moda eco e veganfriendly, e/ou mais sustentável ser “radical” é uma lástima e mostra que até designers com 20 anos de experiência, como é o caso de Herchcovitch, precisam entender como incorporar seus valores de maneira mais legítima e integrada em todo o processo. Paciência. Quando o assunto é moda pensada para além da estética, estamos todos aprendendo.

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Malas em lona de material reciclado À La Garçonne + Recman // Ag. Fotosite

Saindo Do Ateliê E Das Viagens Inspiracionais, João Pimenta Foi Entender Como São Feitos Seus Tecidos

Outro designer que arriscou no termo e no campo da sustentabilidade foi João Pimenta. Conhecido por sua alfaiataria urbana para homens, mas também usada por mulheres, e por ser o diretor criativo da West Coast, João foi à Paraíba conhecer quem planta, quem colhe e quem fia o algodão orgânico que nasce colorido.

Localmente conhecido como “algodão colorido da Paraíba”, esse algodão é plantado por pequenos produtores, incentivando a agricultura familiar e estabelecendo uma frente de combate à monocultura. Em parceria com a Natural Cottton Color, empresa responsável por transformar o fio em tecido, a malha e o moletom desfilado pelo designer foram produzidos com o algodão. Os jacquards, produzidos em Americana, interior de São Paulo, em parceria com a Innovativ, também ganharam fios do algodão da Paraíba.

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Redes de PET reciclado e jacquard com algodão da Paraíba no desfile de João Pimenta // Ag. Fotosite

Mas não para por ai, ainda no sertão, em São Bento, em parceria com a Rede Santa Luzia, usou fios de PET para criar padronagens e tecidos inspirados nas redes. Num cenário ideal, e bem possível, o uso do PET reciclado deveria ser obrigatório para substituir o poliéster. São 50 bilhões de garrafas pets produzidas e descartadas anualmente. Ao mesmo tempo, é usado petróleo virgem para produzir poliéster, cuja produção global é estimada em mais de 40 milhões de toneladas.

Sarjas e jeans foram, mais uma vez, oferecimento da têxtil brasileira Vicunha, que conta com produção nacional, e implementa melhores práticas sobre uso de água e químicos, mas longe de garantir sustentabilidade. Teares manuais e bordados complementaram o trabalho do estilista, que evolui a cada coleção.

Além da moda masculina/feminina e a referência dos uniformes, levantando um tom agênero, como sempre o fez, João abriu o desfile com 4 paraatletas medalhistas de ouro em campeonatos mundiais e panamericanos. Ao som, ao vivo, da orquestra baiana do projeto Neojiba, que ensina pessoas de baixa renda a tocar e confeccionar seus próprios instrumentos à base de plástico, os atletas entraram com suas medalhes vestindo looks da coleção.

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Dois dos quatro paraatletas no desfile de João Pimenta // Ag. Fotosite

A Importância Da Passarela Assumir Um Posicionamento

Há quem questione a real relevância da passarela no cenário global, principalmente por ser massificado e dominado por empresas de fast-fashion. Entretanto, a moda da passarela não deve ser subestimada. Nela, ainda podemos ver bons criadores desafiando o status quo quando o assunto é talento, criatividade e produção em pequena escala.

Para eles, assim como para as marcas pequenas que vêm surgindo e crescendo com o auxílio de mercados e feiras independentes, não é fácil trabalhar dentro do sistema já pré-estabelecido. É um desafio conhecer toda a cadeia e praticamente impossível fechar todas as pontas. Mas a passarela, acima de tudo, é um statment. Além do mais, ela faz parte da indústria e precisa entrar no jogo para transformá-la.

A produção de uma moda mais consciente e que desafie o sistema de produção atual precisa sair do nicho e cutucar desde o consumidor da alta moda até o “cidadão comum”. E precisa fazer isso com qualidade de produto e apelo estético, não basta ser ecofriendly, tem que ser desejável. Isso, como vimos nesses dois desfiles, designers de moda podem fazer muito bem.

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A moda suja e cruel precisa virar “cafona”, assim como a moda consciente precisa deixar a estética rústica e “hippie” cada vez mais de lado. Coisas para ficar em tempos passados, longínquos. E nessa missão, meu caros, quanto mais pessoas (seja no papel de criador, consumidor, jornalista, produtor, etc) falando sobre isso, questionando, interessados em mudar e possibilitando a mudança, melhor.

Para ver a coleção completa da À La Garçonne clique aqui. Para ver a coleção completa de João Pimenta, clique aqui.

Imagem Capa: Backstage À La Garçonne // Ag. Fotosite

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