“O Chão que Me Fez” é um Diário sobre Agroecologia, Autoconhecimento e América Latina

Diários de Havana — parte 3
12/08/2017

Passei uns dias meio mal essa semana. Foram bem uns três dias de cansaço, desânimo, sono,
tristeza; não me deu vontade de ir dançar, comecei a contar as horas que ainda ia ter que ficar aqui nesse apê, sozinha, até o dia da partida. Que raios vou ficar fazendo até ir embora? Por que estou aqui, por que tão sozinha, por que estendi tanto essa estada em Havana? Nove dias já não estava bom? (Acontece com frequência. Eu me empolgo e quero mais  —  mais dias, mais praia, mais dança, mais, mais  —  e acabo exagerando e me arrependendo). Então fiquei menstruada. Pronto, era isso. A TPM do mês. É assim, é importante, também sou eu.

Foi bom por alguns motivos  —  não há experiência que não sirva pra nada, por mais desagradável. Tinha umas coisas que eu precisava ver aqui dentro, e vi, e atendi. E acabei produzindo alguma “ficção”  —  assim entre aspas porque de ficção mesmo tem pouco, e não me atrevo a chamar de literatura. Provavelmente nunca verá a luz do dia. Mas foi um ótimo exercício.

Falando nisso, também aproveitei esses dias para ler muito. Pedro Juan Gutierrez e Ena Lucia
Portela, uma autora cubana contemporânea que me foi indicada pela moça da feira de livros ali em Habana Vieja. Não conheço nada melhor, em termos de escolhas literárias, do que ler histórias que acontecem no lugar em que se está (ou a que se foi, ou que se gosta). Talvez por isso eu nunca tenha me interessado muito por autores ingleses ou escoceses, essa gente que escreve de lugares frios em que nunca estive, com um sotaque que não entendo e piadas que entendo menos ainda. Eu estou em Havana e queria ler histórias daqui, Pedro Juan e Ena me deram.

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Meu coração é tão mole que vai soltando pedaços enquanto eu vou andando. Deixei vários gomos de matéria orgânica vermelha e sangrenta pelas esquinas da San Rafael, San Gabriel, Amistad, Netuno. Cachorros e principalmente gatos, muitos gatos, dezenas de gatos vivendo pelos lixos. Nada se compara ao horror da Guatemala ; os cubanos amam os cachorros, que mesmo na rua são na maioria gordinhos. E os gatos estão ali, tem muito lixo e muita comida no lixo, eles sobrevivem. Mas tem cada um pequenininho e lindo, e mais de uma vez não me contive, peguei do chão, fiz carinho  —  e daí nada mais pude fazer a não ser devolver pro chão e sair correndo. E chorando. Ou: sudando por los ojos por las calles de Centro Havana.

Se me perguntassem por que eu estava chorando, eu diria: por algo que aconteceu muito, muito tempo atrás, há décadas. E que eu nem sei o que foi. E não quero saber: só sinto. Tem a ver com desamparo, desacolhimento, abandono, tudo isso que me despertam os animais da rua. Que são um reflexo do que está aqui dentro.

E deu.

Tenho comido muito pão e não gosto, me deixa inflada. Que saudades da tapioca! Mas, veja, se comer vegetariano aqui já é meio complicado, ainda por cima abdicar do pão… não que seja impossível. A israelense que dança como uma deusa é vegana crudívora. Ela me disse que aqui em Cuba abriu mão do crudivorismo, anda cozinhando umas sopas (eu provei, de abóbora com coco, maravilhosa). Mas é o máximo de concessão que ela faz. O quarto dela é cheio de frutas. Já eu acordo tomando um pote de café, depois como um pedaço de manga e dale pão com abacate.

Uma das minhas atividades preferidas é ir na feira de manhã comprar os vegetais. Vou com minha sacolinha e meus pesos cubanos, escolho, negocio, pechincho, e me sinto a cubana.

 

Mercado da San Rafael, em Cuba // Foto: Alessandra Nahra

Os taxis colectivos estão domados. Mas olha, vou te dizer, que trampo. Fica um monte de gente esperando; quando passa um todo mundo faz sinal e se o carro para todo mundo se aboleta na janela pra perguntar pra onde e por onde o cara vai. Eles poderiam ter um cartazinho no vidro, né não? Dizendo, por exemplo: Vedado — Linnea/hasta 24. Significa que o cara vai para Vedado, pela Linnea, até a rua 24. Tudo que todo mundo pergunta e o motorista  —  sempre um ser de mau humor —  tem que responder 30 vezes. Afe, como ia ser mais fácil. Quando a noite cai, então, só piora, porque passam menos colectivos.

Ontem um cara veio me perguntar como ele fazia pra saber qual taxi ia pela rua 23. Tem que perguntar, senhor. Ele é argentino, tinha chegado ontem mesmo. Ficamos os dois pelo menos meia hora tentando embarcar e comentando  —  ok, reclamando; afinal, uma gaúcha e um argentino  —  sobre esse sistema estressante, cansativo e quiçá meio burrinho de transporte coletivo. Se ao menos tivesse uma plaquinha… mas não tem outro jeito. Os taxis diretos são MUITO caros. O colectivo custa 10 pesos cubanos, cerca de 40 centavos de dolar. O mesmo trajeto num taxi direto pode custar 10 a 15 CUC (mais que 10 ou 15 dólares).

Na volta não deu. Como disse Raúl, meu professor de salsa: na madrugada, lá em Vedado,good luck em conseguir um coletivo. Tem que pegar os diretos e negociar. Eram duas da manhã, saí do clube e consegui que me trouxessem em casa, junto com dois italianos, por 5 CUC. Tá bom.

Depois dos dias de mimimi criativo dentro de casa, ontem lavei o corpo e a alma dançando. O corpo porque dançar salsa em Cuba é ficar completamente molhado, pingando suor (aliás, lavei todas as roupas também; se tem uma coisa que me faz bem é lavar roupa, pendurar no varal e ficar olhando elas secarem; acho que é de família). Não encontrei meus professores no clube, o que prejudicou um pouco o treino dos aprendizados das aulas, mas dancei sozinha MUITO, encontrei um amigo que dança um pouco comigo, e arranjei um fã com quem dancei várias. Só não dancei mais porque ele queria conversar, me pagou cerveja, falou de sentar no Malecón pra se conhecer, encontrar amanhã etc.

Eu gosto de autonomia e independência, e naquele chão de salsa me sinto melhor quanto mais solta, sem patrão nem parceiro fixo, dançando um pouco aqui e um pouco ali, dando voltas pelo jardim (sim, é ao ar livre) e olhando as pessoas todas (tanto quanto dançar, eu amo VER as pessoas dançando). Não me deu vontade de me concentrar em uma só pessoa  —  e encarar o trabalho de ser gentil e interessada e curiosa (o que eu sou normalmente quando se trata de conhecer gente) e ao mesmo tempo deixar claro que não vai rolar mais nada, nem hoje e nem amanhã. Fui embora correndo assim que a banda  —  ótima, Azucar Negro; conheço uma certa pessoa irmã que iria amar  —  acabou de tocar. Depois me arrependi de não ter agradecido o moço por ter dançado comigo tanto.

É uma grande oportunidade, um par pra dançar. Os moços aqui costumam ou estar acompanhados, ou são professores/parceiros contratados pra dançar com aquela dama específica (turistas). Ou dançam muito bem e só querem dançar com quem também dança bem. O resultado é que, se o professor (o novo, Raúl, ou Yassel, o parceiro designado pela Mili, a primeira professora) não está, acabo dançando mais sozinha mesmo. Não tenho o dom da israelense, que começava a dançar sozinha e em menos de um minuto vinha um moço dançar com ela, atraído pela personalidade e extrema malemolência e gingado. De onde a israelense tirou e por que falta nesse corpo aqui, que afinal é brasileiro?

 

*** 

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