O Plástico Está na Moda… Mas Não Deveria

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Promover o plástico na moda como um material nobre, sustentável, versátil e plural. Essa é a missão da iniciativa O Plástico Está na Moda, promovida pela brasileira Braskem, empresa da Organização Odebrecht, que atua no segmento petroquímico e se destaca por ser a líder mundial na produção de biopolímeros e a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas. Nas palavras da própria empresa, a iniciativa tem dois principais objetivos: 1. capacitar futuros estilistas para que eles possam conhecer as propriedades do plástico e considera-lo como uma alternativa em suas criações e 2. se posicionar sobre a atual imagem negativa do plástico, que ganhou a fama de grande vilão social, desmistificando seu uso na moda e apresentando-o como matéria-prima nobre, plural, sustentável e fashion.

A iniciativa, em parceria com a estilista Patricia Bonaldi, da marca PatBo, começou em 2018 e foi apresentada ao público pela primeira vez no São Paulo Fashion Week (SPFW). Com um caráter de concurso, uma dupla de alunos foi indicada pelos coordenadores dos cursos de moda das universidades Belas Artes, FAAP, Senac, Anhembi Morumbi e Instituto Europeu di Design para criarem peças com tecidos feitos a partir do fio de polipropileno, o famoso poliéster. A promessa de “sustentabilidade” está na origem do fio: garrafas pet recolhidas do lixo gerado nos eventos da SPFW.

As peças criadas passaram por uma banca julgadora formada pela própria Patricia Bonaldi, Paulo Borges do SPFW, Sarina Kut da Berlan, Gustavo dela Rue da Profil e Glayton Basso da Braskem. A peça vencedora foi incorporada na coleção desfilada pela PatBo no SPFW n46 e todas as peças ficaram expostas no stand da iniciativa dentro do evento.

Em 2019, a iniciativa chega à sua segunda edição e, assim como na primeira, que contou também com Lilian Pacce e Vogue Brasil como plataformas de publicidade da iniciativa, segue na missão de comprar narrativas para esmaecer o trabalho de conscientização e responsabilização que tem sido feito por parte de ONGs, instituições, pesquisadores e cientistas acerca dos danos do uso intensivo do poliéster na moda. O que a Braskem está fazendo não é novidade e segue o modus operandi do resto da indústria do plástico: lutar para continuar poluindo o mundo – e tentando parecer “verde” no meio do caminho.

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O plástico não é fantástico 

Segundo levantamento da Textile Exchange de 2018, o poliéster é o tecido mais utilizado na moda em todo mundo. Cerca de 60% de todas as roupas produzidas globalmente são feitas de plástico. O fio de polietileno tem sua origem no petróleo. Uma fonte não renovável e cuja extração está relacionada a uma diversa gama de danos ambientais e sociais que já conhecemos bem. A maior parte do poliéster utilizado na moda não é reciclado. Apenas 14% do poliéster utilizado no mundo não é virgem e essa porcentagem corresponde a tecidos produzidos a partir de garrafas pet – e não a partir de tecidos de poliéster descartados e reciclados -, o que implica naturalmente numa lógica de extrair e descartar, pressionando cada vez mais os limites planetários.

Atualmente, já são 1 caminhão de lixo têxtil encaminhados para lixões e aterros sanitários a cada segundo. Só no Brasil, uma estimativa conservadora da Abit – Assosiação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção chegou a 170 mil toneladas de sobras têxteis de pré-consumo, mais especificamente aqueles retalhos que sobram dos cortes das peças na confecção. Esses descartes têxteis de origem petroquímica se acumulam em lixões e aterros durante centenas de anos. A cidade de São Paulo, por exemplo, responsável por abrigar o maior pólo têxtil do Brasil, o circuito Brás e Bom Retiro, está com os atuais aterros sanitários já no limite e sem espaço para abrir novos.

Em 2017, foram produzidos cerca de 53 milhões de toneladas de poliéster. As estimativas se tornam ainda mais assustadoras quando pensamos que o consumo global de vestuário aumentará 63% até 2030, como apontou o relatório The Pulse of the Fashion Industry de 2017. Sem reciclagem, essa produção toda, mais cedo ou mais tarde, vai parar no lixo, desperdiçando recursos naturais, ocupando um espaço sem precedentes ou emitindo gases poluentes em locais que optam pela incineração.

O que os dados explicitam é também uma insistência da indústria da moda em escolher a rota mais fácil ao apostar no pet reciclado e não olhar para o próprio lixo. Com milhões de toneladas de poliéster sendo produzidos anualmente, seja a partir de garrafas pet, seja a partir de matéria-prima virgem, é urgente começar a pensar em como inserir esse monte de tecidos de volta ao ciclo, freando a produção de itens novos e assim o ciclo de extração, refino, produção e incineração, que está relacionado, também, com as mudanças climáticas.  

 

Ainda estamos falando sobre pet reciclado? 

Mas nem só na completa falta de reciclagem reside o problema do plástico na moda. Está cada vez mais claro que plástico, independente da sua origem, não é alternativa para sustentabilidade, principalmente quando estamos falando da produção de roupas. Isso porque tecidos de plástico, principalmente o poliéster, desprendem micropartículas plásticas no processo de produção, uso e manutenção das peças por meio da lavagem. Não é a primeira vez que alerto para o fato de que pet reciclado na moda não é alternativa para sustentabilidade.

Estima-se que meio milhão de tonelada de microplásticos oriundas de roupas de plástico cheguem aos mares todos os anos – ou cerca de 35% dos microplásticos encontrados nos oceanos. Essa quantidade é equivalente a 50 bilhões de garrafas de plástico. Conforme explica o relatório da fundação para economia circular Ellen Macarthur, A New Textile Economy, “nessa tendência atual, a quantidade de microfibras de plástico entrando nos oceanos entre 2015 e 2050 pode chegar em 22 milhões de toneladas – cerca de dois terços da quantidade de fibras de plástico usadas para produzir roupas anualmente”.

Ainda é muito difícil estimar os impactos negativos dessa quantidade de microplásticos nos mares e oceanos. O mais óbvio deles é que uma vez nos oceanos, animais confundem essas pequenas partículas com alimento. Assim, o plástico entra na cadeia alimentar marinha, podendo atingir aves e mamíferos marinhos e seres humanos; uma pessoa ingere mais de 5.800 detritos sintéticos por ano e à exposição aos químicos nocivos usados na produção do plástico – virgem ou reciclado – estão ligados a diversos danos à saúde. Por mais que a indústria do plástico insista no discurso de uma suposta circularidade, o que está sendo proposto é apenas uma má sustentabilidade.

 

Design de moda não é só sobre fazer roupas bonitas

Cerca de 80% do impacto de um produto é definido no momento da sua concepção. Isso significa que designers têm um papel extremamente importante nesse ciclo insano de poluição e descarte por conta do plástico na moda. Com pensamento alinhado para minimizar danos e produzir de formas a gerar impactos positivos, tecidos de poliéster podem ser aplicados de forma a minimizar a liberação de microplásticos na fase de uso, escolhendo o material para produção de itens que exigem pouca lavagem como sapatos, acessórios como bolsas e mochilas e casacos de inverno, por exemplo – ou onde ele seja imprescindível para garantir performance, como calças jeans, lingeries e roupas esportivas. Num cenário de crise climática e de sobrecarga da Terra acontecendo cada vez mais cedo, esses produtos devem invariavelmente usar tecidos que já existem.

Design não é sobre produzir produtos bonitos. Ele deve servir para identificar problemas e resolve-los, por meio de produtos ou serviços. O design pode colocar a criatividade a serviço de soluções para os problemas do plástico na moda, o que, a longo prazo, signifca encontrar alternativas reais para o desuso dessa matéria-prima na indústria. Dessa forma, a inovação e o futuro das produtoras de plástico estão muito mais relacionados a criativizar a partir dos problemas e desafios que este coloca para estilistas, empresas e marcas do que sobre desenhar meia dúzia de vestidos bonitos.

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Ao invés de abrir diálogo com as comunidades que estão apontando o problema e incentivar soluções, a Braskem escolhe ignorar a quantidade de dados e pesquisas que foram levantados sobre a questão e tentar construir uma história que, no limite, é apenas greenwashing. O plástico está na moda, mas não deveria. Esta iniciativa é uma dentre tantas outras amostras do despreparo, da falta de boa vontade e do medo da inovação que empresas têm ao lidar com os problemas que elas mesmas criaram. Mais do que isso, é o símbolo de uma atuação que ignora e usa o dinheiro para comprar sua manutenção, mesmo que isso custe à sociedade mais do que ela pode, ou deveria, suportar.

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