Outras Mamas Podcast: Elas Te Contam Por que Feminismo e Veganismo Andam Juntos

Quais são as relações entre veganismo e feminismo? Uma rápida pesquisa no Google revela, em imagens, o que inspirou a dupla Thais e Babi, do Outras Mamas. 

 

Como o feminismo e o veganismo podem – ou talvez, devem – andar juntos? Tido como “o primeiro podcast feminista vegano do Brasil”, o Outras Mamas propõe uma discussão que engloba fêmeas humanas e não-humanas, olhando para como todas as opressões estão conectadas: sociais, de gênero, raça, classe e espécie. Todas têm a mesma raíz.

Conhecida como A Chata Vegana, Thais Goldkorn já tinha o conceito de feminismo consigo quando se deparou com o livro A Política Sexual da Carne, em 2017. Ela caminhava no seu 2º ano e alguns meses de vegana e, até então, nunca tinha relacionado um tema com o outro. Para a produtora, suas lutas pela causa animal e pela causa das mulheres seguiam rumos diferentes. Mas a leitura do livro trouxe um momento de epifania. “Eu falei ‘nossa, as coisas são conectadas e esse meu sentimento de lutar contra a violência, contra a opressão, tem uma mesma raiz’”, afirma.

 

Thais e Bárbara são as amigas por trás do podcast que vai você pensar mais sobre ativismo feminista e vegano. 

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Inspira pelo podcast Talvez Seja Isso, ela decidiu procurar alguém que topasse fazer episódios relacionados aos capítulos do livro. Foi aí que procurou Bárbara Miranda. Elas correram para encontrar equipamento, aprender a editar e “fuçando em tudo, na raça”, nasceu o Outras Mamas, no início de 2018.

 

Exploração da Fêmea

A ligação do feminismo e do veganismo pode ser feita em muitos pontos: o primeiro, a exploração em si. É fácil projetar a exploração da mulher, quando pensamos em hierarquia social e a do animal não é diferente. “As fêmeas são as mais exploradas durante toda a vida. Além de serem colocadas como alimento, elas também são utilizadas para reprodução e pelo que geram para gente consumir”, explica Bárbara.

A segunda ligação é feita através da linguagem: como descrevemos as mulheres que desprezamos? Elas são chamadas de vacas, porcas, baleias. A linguagem demonstra como os animais e mulheres são menosprezados na sociedade. Há também toda a construção social, com diversas nuances, da opressão. Esses detalhes são discutidos ao longo do podcast porque, apesar de serem opressões diferentes, elas acabam acontecendo de forma semelhante.

A ideia de um podcast discutindo os capítulos do livro A Política Sexual da Carne se manteve até o episódio nove. Assim que o livro foi encerrado, Bárbara e Thais se sentiram livres para abordar outros assuntos que fizessem parte desse universo. Atualmente com 22 episódios, o podcast reúne temas que ora pendem mais para o lado vegano, ora para o lado feminista. Mas a costura com ambos assuntos está sempre sendo levantada: “nós brincamos que os ensinamentos da “titia” Carol ficaram na gente e tentamos levar isso para outros temas”, explica Thais.

Os conteúdos se esbarram junto a assuntos mais específicos, como ginecologia natural, discutido com Beatriz Sabô; Comida Saudável, com Juliana Gomes; e Moda e Sustentabilidade, com a fundadora do Modefica, Marina Colerato. “No fundo, estamos sempre falando de questões que queremos quebrar, que dialogam com o novo modelo de sociedade que desejamos criar. Neste novo modelo, não queremos nem que animais ou mulheres sejam explorados desta maneira”, reforça Thais. Questionamentos como o modo em que acontece essa exploração, onde elas são parecidas e como podemos lutar contra elas são discutidas entre os episódios.

Estamos vendo medidas que o Bolsonaro já anunciou, ou que ‘desanunciou’ e voltou a anunciar, que vão atingir diretamente a vida dos animais. Mas eu não sou só vegana, minha preocupação é com o povo indígena, com as mulheres, com o povo preto.

A expansão do tema proporcionou um público mais abrangente. Thais explica que algumas ouvintes são feministas, mas possuem crenças erradas sobre veganismo e acreditam que ele nada tem a ver com sua luta. E, por outro lado, também possuem ouvintes veganas que nunca pensaram no feminismo, ou que têm concepções erradas sobre o movimento. Essa quebra, dos dois grupos, tem sido muito gratificante.

Veganismo Político

No mês de setembro, como em muitos canais de comunicação, elas também não puderam fugir do tema política. Apesar de terem recebido muitas críticas, ambas reconhecem a importância de dar a cara a tapa e se posicionar. Veganismo não só tem a ver com feminismo, mas também com política.

Ao menos é assim que pensa a corrente que Bárbara e Thais seguem. No veganismo político as pautas são diversas, nem sempre relacionadas ao veganismo. A tendência em se engajar na militância política abre espaço para discussões como terra, meio ambiente e população indígena. “Estamos vendo medidas que o Bolsonaro já anunciou, ou que ‘desanunciou’ e voltou a anunciar, que vão atingir diretamente a vida dos animais. Mas eu não sou só vegana, minha preocupação é com o povo indígena, com as mulheres, com o povo preto.”, afirma Thais.

O crescimento do veganismo no Brasil segue uma tendência mundial e, para Bárbara e Thais, o movimento aqui, apesar de recente, já cria sua estrutura ideológica. Apesar de mercados como o americano e europeu disporem de uma variedade de alimentos veganos que dão inveja aos veganos brasucas, muitos produtos nascem pelo princípio do consumo saudável e pelo ritmo já esperado do capitalismo. “Tem esse lado positivo do veganismo estar crescendo, mas nós sabemos também que uma parte desse crescimento é rentável. É o veganismo do produto, da alimentação saudável. É uma coisa das grandes empresas: assim como tem o greenwashing [lavagem verde], tem o veganwashing. Eles vêm o nicho, colocam o selinho do ‘vezinho’ e – não importa se em outros produtos exploram gente, terra ou os próprios animais -, a galera abraça”, explica Thais.

Para as veganas politizadas, a desistência de comer carne e derivados para melhorar a alimentação, ou para acabar com os maltratos aos animais não utilizando nenhum ingrediente de origem animal no dia a dia, não quebra realmente a cadeia da opressão alicerçada na lógica capitalista de exploração. “Nossa luta é politizar essa galera para entender, na raiz mesmo, o que é o veganismo e o que ele traz”, reforça Thais.

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No episódio 14, O Olhar sobre as Opressões, com Sandra Guimarães, o assunto é esmiuçado principalmente pelo argumento de que maior número de produtos veganos no mercado não significa diminuição do sofrimento animal. Com o exemplo do grande número de veganos em Berlim, elas debatem sobre o cidadão alemão que consome o leite de castanha, mas também consome o leite de vaca, e os números que provam a dificuldade de anvaçar com o veganismo de mercado.  “Eu observando o movimento lá fora, viajando e conversando com pessoas de outros países, percebi que aqui no Brasil temos a vantagem que o veganismo é novo e já tem uma base vegana [politizada] boa que está crescendo”, afirma Bárbara.

O Que Vem Por Aí

Os ouvintes podem esperar temas mais leves ou mais tranquilos, como nutrição e maternidade. Mas também se acostumar com o tom político do podcast. Bárbara também garante que encontros presenciais, com roda de conversa e oficinas, irão acontecer. Ainda sem local definido, a proposta de um primeiro evento em dezembro já está de pé. Fique de olho e não perca essa oportunidade de participar de uma vivência sobre lutas sociais, engajamento, feminismo e veganismo.

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