Além dos Conflitos de Classe, “Pessoas normais” é uma História Sobre Solidão, Melancolia e Amor

Uma garota rica, triste e solitária se encanta por um garoto pobre, atlético e popular. Ambos são alunos brilhantes, cada um é desajustado à sua maneira. Fora do enquadre escolar, a hierarquia se dá de forma cristalina: a mãe dele trabalha como faxineira na casa da mãe dela. Paradoxalmente, é no território dessa casa que Marianne e Connell se encontram de forma um pouco mais relaxada — um espaço de encontro apartado da vida social (ou da falta dela), que permite uma espécie de amizade secreta, que acaba se transformando numa história de amor.

A partir dessa premissa simples, e com uma linguagem que parece tão simples quanto a história que narra — a de dois adolescentes de classes sociais diferentes que se apaixonam —, a escritora irlandesa Sally Rooney criou um romance sofisticado vestido de maneira prosaica. Para alguns, Pessoas normais (Normal people, 2019, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, com tradução de Débora Landsberg) não merece o destaque que tem recebido, pois seria mais do mesmo, um retrato de geração com estruturação literária simplória. Já para outros, Rooney esconde num livro que pode parecer banal um outro muito mais interessante, mimetizando uma linguagem jovem que soa autêntica — um pouco como fez o escritor J. D. Salinger em O apanhador no campo de centeio, com quem já foi comparada. Do livro anterior da autora, Conversas entre amigos (2017), também já foi dito que lembra o romance Suave é a noite, de F. Scott Fitzgerald.

Rooney estudou literatura americana na faculdade e esses autores de fato podem ter inspirado o seu projeto literário. Mas, conforme lia Pessoas normais, pensei foi numa frase de Virginia Woolf sobre Jane Austen, para quem, entre todos os grandes, Austen é a escritora mais difícil de se apreender no ato de grandeza. Enquanto há autores que chamam atenção para um trabalho poético específico, outros parecem escrever destituídos de grandes artifícios. O artifício de Rooney, como o de Austen, certamente está lá, mas quase não conseguimos percebê-lo. O truque ilusionista impressiona quem se empenha em decifrá-lo.

Em Pessoas normais, os protagonistas se encontram e se desencontram de diferentes maneiras — talvez uma das mais importantes seja na linguagem. É como se o mundo interno de cada um estivesse numa condição incomunicável, melancolicamente fadado à incompreensão. Talvez por isso, quando as palavras, em toda sua precariedade, conseguem estabelecer pontes, o esforço dessas tentativas soe tão comovente. Muito da relação também está nas coisas não ditas, inclusive para eles mesmos.

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É um livro que trata da impossibilidade do amor, quanto mais do primeiro amor, mas que também não se envergonha de valorizar a sua potência tão singela quanto transformadora. Um romance que descreve detalhes e narra pequenos gestos com uma atenção que os amplifica. Um livro que discute a circulação de poder que existe numa relação entre duas pessoas e no mundo que as cerca — algumas vezes de maneira direta e outras de forma mais difusa.

A princípio, Marianne tem o poder econômico, enquanto Connell tem o poder social. Conforme se envolvem, no entanto, a equação vai se embaralhando de forma menos esquemática. Quando voltam a se encontrar na universidade, Connell, leitor entusiasmado desde sempre, está estudando literatura por influência dela. Cercado de colegas ricos, que se relacionam com os livros por um viés fetichista, ele vai se tornando cada vez mais um peixe fora d’água. Ela, por sua vez, experimenta uma popularidade inédita, invertendo os papéis que ocuparam na escola. Apesar disso, ambos continuam tendo uma relação de admiração, carinho e intimidade que sobrevive às transformações e diferenças. O narrador do romance, em terceira pessoa, vai alternando a perspectiva entre a de Marianne e a de Connell, transitando de maneira muito hábil entre o mundo interno de cada um.

Há um aspecto mais físico que também é importante nessa dinâmica — o próprio apaixonamento é uma condição de vulnerabilidade —, e é quase sempre fisicamente que um acaba arrastado para o domínio do outro, ainda que o elo nunca se esgote aí. Rooney descreve esses momentos com uma precisão bonita e incômoda, muito realista.

A maior parte das resenhas do livro destaca o fato de que Pessoas normais é um romance geracional, que representaria a dificuldade de relacionamentos e de manutenção de vínculos própria da geração de Marianne e Connell, talvez da própria Sally Rooney, que, como eles, também estudou na Trinity College Dublin. Lá, Rooney entrou no curso de ciências políticas, mas acabou se formando em literatura, área em que também concluiu seu mestrado. A autora se define como marxista, e esse é um adjetivo que aparece muitas vezes ligado a seus dois romance — ainda que ela mesma tenha reservas quanto a isso.

Sally Rooney // Reprodução

Tenho dificuldade com as duas afirmações: para mim, Marianne e Connell são mais exceções do que representações exemplares de sua geração — Pessoas normais conta justamente a história de um vínculo longo, que insiste em perdurar, contra todas as probabilidades. E, se é verdade que o conflito de classes está lá, talvez seja exagero classificar o livro como marxista.

Nesse sentido, a principal crítica que consigo vislumbrar à lógica que estrutura as relações é a de que, num mundo em que os seres humanos também são tratados de forma utilitária e descartável — quer seja nas relações de trabalho, quer seja nas relações pessoais —, é raro encontrar uma história de duas pessoas que se conhecem ainda na infância, atravessam juntos boa parte da juventude e chegam ao início da vida adulta se importando genuinamente um com o outro, ainda que algumas vezes de forma atrapalhada.

Rooney não cede nem a uma ingenuidade tola, nem ao cinismo. Marianne e Connell se machucam e se desencontram, mas também estabelecem um elo que os fortalece contra o desamparo, contra a desimportância, contra o descarte.

E se o romance reconstrói esteticamente esse efeito de um primeiro amor, o que por si é impressionante, a série Normal people (2020), inspirada no livro, também é muito feliz nessa empreitada. A autora participou da adaptação e está creditada no roteiro. A escolha da atriz e do ator responsáveis por interpretar a dupla de protagonistas (Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal) é irretocável, ambos estão excelentes. A trilha sonora, por sua vez, certamente contribui para construir a atmosfera perfeita para a história que está sendo contada.

Há quem diga que série e livro pesam a mão na melancolia. Para mim, parece o contrário: Marianne e Connell encontram juntos portas de saídas dos quadros melancólicos e autodestrutivos em que cada um estava aprisionado, e assim podem construir com outras realidades, incluindo a de, quem sabe, seguir caminhos autônomos.

Pessoas normais é uma história singela de amor no seu sentido mais profundo (e não apenas no sentido romântico), e do triunfo dessa forma de amor sobre o vazio.

Título: Pessoas Normais  (2019)
Autora: Sally Rooney
Editora: Cia das Letras
ISBN-10: 8535932569
Compre na editora: site da Cia das Letras
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