Moda Étnica Pode Fomentar Resgate Identitário da Cultura Brasileira

“Backstage O Backstage é o podcast do Modefica para falar sobre moda a partir de diversos pontos de vista e para muito além do que vemos nas passarelas, nas revistas, no Instagram e nas manchetes. Sempre com convidadxs especiais contando sua trajetória, e junto com nossa editora Marina Colerato, o Backstage debate indústria, carreira, questões de gênero e raça, temas quentes e futuro da moda. Ouça no Spotify ou iTunes.

No episódio #18 do Backstage, conversamos com Julia Vidal, fundadora da marca Julia Vidal Etnias Culturais, focada em criação de produtos e conteúdos relacionados à diversidade cultural brasileira. Formada em Design Gráfico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-graduação em História da África no Brasil pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e mestranda em Relações Étnicas Raciais no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), Julia conta que todo trabalho que desenvolve na moda “tem uma vontade de gerar um despertar de consciência”. Nosso bate papo desta vez é sobre o despertar da identidade cultural indígena e afro brasileira, que estão adormecidas no brasileiro.

 

 

Julia gosta de dizer que caiu de paraquedas na moda. Ela decidiu utilizá-la como ferramenta para trabalhar a criação de produtos e conteúdo relacionados à diversidade cultural brasileira, através de coleções, pesquisas, serviços para outras marcas de moda que estejam desenvolvendo produtos com o tema. O despertar para este trabalho veio no final do curso de graduação e seu interesse pela cultura afro brasileira, o que a levou a ler livros a respeito e encontrar desenhos que a mãe fazia em seu caderno quando criança. A descoberta e a volta às memórias afetivas a fizeram conversar com a mãe sobre as histórias dos símbolos. “Você sabia que isso tinha significado? E ela falou ‘não, só desenhava’”, nos conta.

Foi aí que ela decidiu trabalhar com a iconografia, e unir design com moda. Seu primeiro trabalho foram tipografias voltadas para estamparia de roupas, com um manual de aplicação que contava as histórias dos símbolos – uma tentativa de levar conhecimento para a indústria têxtil, para que ela não se apropriasse do material. O que não foi muito frutífero. Marina lembra que, atualmente, existe mais pressão para que o setor tenha mais consciência do que produz e destaca como o trabalho da designer contribui para que estes processos sejam mais co-criados, mais horizontais.

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Julia reforça que, hoje, os movimentos indígenas e afro brasileiros são mais fortes e nos conta que, a mudança de nome de sua marca – anteriormente chamada Obalaco – vem em um momento que ela também passa a se entender como indígena. “A partir desse momento todo que eu fiquei olhando para etnias que estavam do outro lado do Atlântico, eu percebi que não estava conhecendo as etnias do meu próprio país”, afirma. Ela nos conta que esse foi um outro momento de iluminação, no qual passou a estudar mais sobre a diversidade étnica indígena. Foi nesta época, em 2015, que seus dois livros foram lançados:
O Africano Que Existe Em Nós, Brasileiros: Moda e Design Afro-brasileiros e Quinta Étnico: Cores e Vibrações Afro-brasileiras – Moda, Mitologia, Proteção. Ela também passou a ser chamada a participar da meio acadêmico. “A gente entende que, num futuro, conseguimos ter profissionais que estejam mais prontos para trabalhar com esta moda”, explica.

O comportamento do mercado pelas raízes étnicas

No mestrado, Julia não encontra muitos debates sobre a cultura indigenista, muito menos doutores aptos no tema para avaliar seus trabalhos. Foi nessa busca de insumos que ela começou a frequentar a Aldeia Maracanã, próxima do seu campus. Ela descreve o local como “um espaço urbano, a união de várias etnias. Tem uma série de saberes que estão, continuamente, sendo interseccionados”. A proposta da aldeia é a troca de saberes através de cursos, roda de conversas, festivais, seminários de línguas. Julia faz a intersecção entre as faculdades da região com o grupo, criando o que chama de uma “pequena revolução”, para o qual estas esferas se falam.

Por meio das histórias ouvidas e vividas na série de Encontros na Aldeia, que aconteceu em 2019, Julia traz para a discussão a diferença de integração e apropriação cultural. Por não temos uma relação forte com nossa identidade de território, o apagamento cultural, que está muito presente na moda, se disfarça de romantização de integração. A moda étnica e ética nos ajuda a nos reconhecermos em um contexto e, neste ponto, Julia pontua como vivemos em uma sociedade fragmentada. “Falar de moda é falar de plantio, alimentação, do território. Não é possível falar de uma coisa sem a outra”, reforça.

Marina questiona como ela entende essa troca, se a mesma é feita de forma mais horizontal. “Eu vejo que estas estruturas estão sedimentadas, cada um no seu espaço”, explica, “e fazer qualquer movimento é como mudar um grande navio de direção”. Quando o público negro se entende como um consumidor que quer consumir sua identidade, as marcas e o mercado mudam. “Eu busco horizontalizar (esse sistema), no sentido que eu posso oferecer um conteúdo de educação empresarial para dado setor daquela empresa”, afirma. Julia reforça a necessidade das empresas de entender aspectos históricos e sociais, como o colorismo, e como isso deve ser trabalhado desde a equipe de estilo, aos publicitários e na gestão do RH.

Como os símbolos presentes nas culturas indígena e afro brasileira são milenares, os designers utilizadores daqueles grafismos os entendem como algo pertencente ao coletivo, à cultura. Quando uma marca deseja trabalhar com tais símbolos, ela precisa olhar para eles deste modo. Nesse tom, Julia completa: “eu acho que o momento que estamos vivendo, de despertar a partir de uma conexão interna, a partir do momento que minha luz desperta, eu vou juntando com várias outras pessoas que estão conectadas e que a gente possa vibrar de uma outra forma”. Precisamos compreender nossas potencialidades, não nos empobrecer com elas, ter consciência desta diversidade para trabalharmos em conjunto para a construção real de um novo futuro (da moda).

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