Por Que Sou Ativista de Proteção Animal Quando Há Vários Humanos Sofrendo no Mundo?

Antes de ser uma ativista dos direitos dos animais, eu era ativista de direitos humanos. Durante a faculdade de direito, eu ajudei vítimas de violência doméstica a obterem ordens de proteção. Eu estudei direitos humanos e leis de refugiados, trabalhei em uma clínica para pessoas com distúrbios mentais, passei todos os meus verões em estágios trabalhando com organizações de refugiados e focando, principalmente, em ajudar mulheres vítimas de perseguição e violência por conta de gênero como crimes de honra, mutilação forçada das genitais, tráfico sexual e estupro.

Minha primeira cliente me deixou tocar os estilhaços sob sua pele depois do Talibã bombardear a sua vila no Afeganistão e matar a maior parte de sua família. Eu também representei homens que precisavam de representação juríica, como o gentil congolês que foi torturado, e tinha marcas em seu corpo para provar isso, por causa de links dúbios com o partido de política errado.

Refugiados e vítimas de violência de gênero são um grupo de pessoas extremamente vulnerável e merecedores de atenção. A maioria deles não tem família, nem país. Vários deles vivem a vida com medo constante. Sem a ajuda de grupos internacionais de proteção e organizações não governamentais, eles estão em risco constante de exploração, abuso, perseguição, falta de moradia e morte. Mas mesmo assim eu escolhi me dedicar e dedicar a minha vida aos animais.

Eu tenho certeza que todo ativista animal já foi questionado sobre “como você pode perder seu tempo com animais enquanto há tantos humanos sofrendo? Por que você não começa com humanos e, quando todos os nossos problemas tiverem resolvidos, depois você vai ajudar animais?”.

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É claro que essa é a mentalidade dominante, baseado numa presumida superioridade dos seres humanos, tanto que o menor dos males cometidos com algum ser humano normalmente ultrapassa até mesmo o mais horrendo dano feito a algum animal. Considerando que a capacidade de sofrimento não está de maneira alguma limitada a seres humanos, esse pensamento a favor dos seres humanos nada mais é do que preconceito. Favorecer aqueles que enxergamos como semelhantes por cima daqueles que enxergamos diferentes e, logo, inferiores, é o cerne da discriminação e opressão.

Durante anos eu me senti paralisada enquanto eu olhava para esse mundo cheio de sofrimento.

Eu queria ajudar desesperadamente, mas não sabia como eu poderia escolher entre ajudar as pessoas dos países em desenvolvimento vivendo em pobreza extrema, ou as milhões de crianças morrendo anualmente por má nutrição, ou as vítimas de guerras éticas e religiosas que brutalmente tiram a vida de milhares de inocentes, genocídios como os de Ruanda, Bósnia, Darfur, atrocidades acontecendo agora mesmo na Síria, Líbia, Iêmen. Milhões de majoritariamente mulheres são compradas e vendidas no submundo do tráfico sexual todo ano para passar por crimes impronunciáveis.

Depois há os animais sendo usados para experimentos dolorosos e frequentemente cruéis em laboratórios, animais mantidos em curtumes como as raposas brincalhonas que são eletrocutadas até a morte pelo ânus para garantir que sua pele não seja danificada, ou os guaxinins que são despelados vivos para fazer forros das botas UGG ou para guarnições baratas para casacos de inverno.

Mas todos esses animais juntos são apenas uma gota no balde quando comparados com os 55 bilhões de animais mortos anualmente para virarem comida. Cinquenta e cinco bilhões de animais. A população mundial de seres humanos é de 7 bilhões e nós matamos 55 bilhões de animais por ano para comida.

 

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Cada um desses 55 bilhões de animais eram indivíduos com a capacidade de criar vínculos emocionais como famílias e amigos e levarem uma vida feliz igual a esses porcos resgatados que você vê nesse vídeo. Mas, ao invés disso, levaram uma vida de sofrimento intenso e por diversas vezes passaram por exploração sádica antes de enfrentarem o terror e a dor do abatimento.

Todos esses seres humanos e não-humanos sofrem terrivelmente. Todos eles são merecedores da nossa atenção. Eu sempre quis poder ajudar a todos. E eu ainda quero. Mas a razão pela qual eu decidi dedicar a maior parte do meu tempo a seres não-humanos ao invés de todos esses merecedores seres humanos é porque nós todos como sociedade concordamos nas questões de direitos humanos.

Quando eu digo que nós, como sociedade, não estou me referindo a comunidades com valores morais extremos como membros do ISIS, ou aqueles em nossa própria sociedade como estupradores ou assassinos em série, mas aqueles que representam a ética dominante na comunidade mundial, membros da nossa sociedade e da comunidade internacional que são cumpridores da lei.

De acordo com essa ética dominante, é errado o abuso de mulheres e crianças. É errado matar homens inocentes. Quando vemos os seres humanos que estão passando fome ou sendo exploradas, violados, sequestrados, torturados ou assassinados, nós acreditamos que é errado. A maioria dos órgãos governamentais em todo o mundo, organizações não-governamentais (ONGs) e indivíduos concordam que é errado causar dor física ou emocional intensa e sofrimento aos seres humanos. Nós criminalizamos tais danos, e nós punimos aqueles que cometem esses crimes.

O mesmo não pode ser dito sobre os animais, especialmente animais de criação, cujo abuso é aceito pela mesma comunidade moral que rejeita o abuso de seres humanos.

Mesmo aqueles de nós que acariciam seus cães e gatos com carinho, fazem isso enquanto sentados à mesa durante uma refeição composta de partes do corpo de seres igualmente sencientes cujas as vidas foram passadas em sofrimento. Como sociedade, nós ainda não vemos o que estamos fazendo com os animais como errado. Animais em nossa sociedade ainda são legalmente considerados propriedade – pelo menos,abusar de cães e gatos é agora um crime em todos os cinquenta estados americanos. No entanto, o que é crueldade e crime se feito a um cão ou gato é perfeitamente legal se feito a um animal que temos designado como alimento.

Nós não só matamos 10 bilhões de animais terrestres nos EUA a cada ano para alimentação (55 bilhões globalmente), como não seria um exagero dizer que torturamos eles também durante suas vidas curtas antes de matá-los. Nós os confinamos em gaiolas minúsculas que os levam literalmente a loucura. Nós tiramos os bebês de suas mães e assassinamos eles aos milhões (por exemplo, matamos 260 milhões de pintinhos a cada ano, porque eles são um “subproduto” da indústria do ovo).

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As vacas leiteiras são impregnadas em o que a indústria chama de “rack de estupro”, a fim de garantir que ela continue a lactar e fornecer o leite, negado a seu bebê e que na verdade ela nunca o verá. Se o bebê é do sexo feminino, ele se tornará uma vaca leiteira e, como sua mãe, será forçosamente inseminada. Em seguida, depois de dar à luz a quatro ou cinco bebês e ordenhada por diversas vezes consecutivas, muitas são as chances de que ela sofra de uma infecção dolorosa do úbere chamada mastite. Logo, ela vai ser abatida em apenas uma fração do seu tempo natural de vida, quando seu corpo torna-se demasiado fraco para continuar a produzir leite com o volume das demandas modernas do agronegócio. Se o bebê de uma vaca leiteira for macho, ele ou será morto no local, ou se transformará em um vitelo (ou seja, será confinado sozinho em uma cela escura e alimentado com uma dieta deficiente em ferro para fazê-lo anêmico porque os consumidores preferem o sabor e cor de carne que vem de bebês anêmicos).

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Animais não-humanos são inteligentes, seres conscientes, emocionais.

Se nós vivemos com um cão ou gato, nós provavelmente sabemos disso por experiência. Se precisarmos de prova, podemos pedir à comunidade científica. Em 2012, um proeminente grupo internacional de neurocientistas cognitivos, neurofarmacêuticos, neurofisiologistas, neuroanatomistas e neurocientistas reunidos na Universidade de Cambridge declarou que os animais não-humanos têm consciência – o que significa que eles podem pensar, sentir, perceber e responder ao mundo praticamente da mesma maneira como os seres humanos.

É difícil medir a dor. Geralmente com os seres humanos nós apenas pedimos para eles nos dizerem quanta dor estão sentindo e eles nos dizem. Mas quando eles não podem nos dizer, nós procuramos por sinais externos de dor, como uma tentativa de se afastar da fonte de dor, vocalizando (gritando, chorando), fazendo caretas ou se agitando para citar apenas alguns. Animais não-humanos demonstram todos esses mesmos sinais. Se conseguirmos não desviar o olhar, é fácil constatar o sofrimento das galinhas poedeiras amontoadas em gaiolas, ou as porcas confinadas para gestação em um espaço tão pequeno que não podem virar-se, ou as vacas leiteiras que são arrastadas para o abate, porque elas já estão demasiada coxas para andar.Se conseguirmos não desviar o olhar, podemos ver que todos sofrem tremendamente.

Apenas algumas centenas de anos atrás, Rene Descartes, o pai da filosofia ocidental, amarrava cães vivos em mesas e abria-os ao meio sem anestesia acreditando que seus uivos eram como os sons feitos por máquinas, nada mais que um indicativo de dor do que foi o grito feita por peças de metal da máquina. Difícil de imaginar isso. E ainda hoje, mesmo nas chamadas fazendas humanizadas, nós rotineiramente sujeitamos vacas, porcos, galinhas, perus e outros animais de criação à mutilação sem anestesia.

Se acreditamos que Descartes fez algo errado à sua época com os cães, como podemos fazer isso para com animais de criação todos os dias? Não há nenhuma razão para acreditar que um cão sente mais dor do que um porco ou que um ser humano sente mais dor que um cão. Alguns, como o biólogo evolucionista Richard Dawkins, acreditam que os seres não-humanos podem até sentir dor mais aguda do que os seres humanos. Na verdade estamos tão certos de que animais não-humanos sentem dor como os seres humanos que submetemos animais como ratos a testes de dor em laboratórios, a fim de melhor compreender a dor humana.

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima que pelo menos um milhão de frangos e perus são fervidos vivos a cada ano, só nos EUA, por causa de uma linha de produção tão rápida que suas gargantas não são efetivamente cortadas antes de chegar nos tanques de água fervente em que eles são descartados e cozidos vivos. Mais de 1 milhão de porcos morrem a cada ano no transporte, antes mesmo de chegarem ao matadouro. Eles são agrupados tão excessivamente que não podem se mover e mal conseguem respirar. Eles morrem de asfixia, superaquecimento, sendo pisoteados.

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Tornei-me um defensora dos direitos dos animais  não porque eu não me importo com a humanidade, mas porque tão poucas pessoas se preocupam com os animais não-humanos.

O sofrimento dos animais que utilizamos para a experimentação, para a pele, para a nossa comida é chocante para a consciência. Basta assistir a um vídeo feito a paisana em um matadouro para prontamente pensar que a crueldade vil que vemos é uma anomalia. Mas se assistirmos centenas e centenas desses vídeos, nós começamos a perceber que o desdém com que os trabalhadores tratam os animais, como chutar galinhas como bolas de futebol, chutar e pisotear perus destinados para o jantar de Ação de Graças, bater leitões no chão de concreto e deixá-los lá para morrer, não é anômalo, mas é a norma.

O grau e a escala do sofrimento envolvido na pecuária, em especial, está além de qualquer coisa que a humanidade já enfrentou.

O autor judeu americano, nascido polonês, Isaac Bashevis Singer disse a famosa frase: “Em relação aos animais, todas as pessoas são nazistas. Para os animais é uma eterna Treblinka”. Isto refere-se, naturalmente, ao campo de concentração nazista, onde perto de um milhão de judeus foram exterminados nas câmaras de gás. A primeira vez que ouvi a comparação feita entre a agricultura de fábrica e o Holocausto foi por alguém que perdeu a maior parte de sua família no Holocausto e que é ele próprio um sobrevivente dela.

Alex Hershaft é um pioneiro dos direitos dos animais que disse que sua experiência no Holocausto não só contribuiu para ele tornar-se vegano e um ativista dos direitos dos animais, mas como, de fato, é o verdadeiro motivo. Durante uma recente viagem a Israel, ele falou isso em uma entrevista: “O Holocausto Judeu é um evento único na história da humanidade, e a melhor maneira de honrar o Holocausto é aprender com isso e lutar contra todas as formas de opressão. Nós podemos ter sido vitoriosos na Segunda Guerra Mundial, mas a luta contra a opressão e a injustiça está longe de terminar. Para mim, o Holocausto não é uma ferramenta na luta, mas uma experiência que moldou minha personalidade e meus valores, me fez ser quem eu sou hoje, e me dirigir para combater todas as formas de opressão, incluindo a opressão das criaturas mais frágeis, os animais”.

Em seu último livro, “Doing The Most Good”, um dos filósofos pré-eminentes do mundo moderno de ética, Peter Singer, argumenta que, se estamos interessados em fazer o maior bem que podemos fazer no mundo, isto é, em reduzir o sofrimento, há três áreas principais que exigem nossa atenção. Estas são: salvar o meio ambiente, exterminar a pobreza extrema, e ajudar os animais não-humanos, especialmente os animais de fazendas-fábricas.

Além de sua importância para os não-humanos, o movimento vegan vai além. O ativismo vegan visa elevar a consciência e a consciência sobre as maneiras em que tratamos os outros seres. O movimento de direitos dos animais não apenas advoga para um seleto grupo de seres, ele defende princípios verdadeiramente universais em seu alcance.

Defensores dos direitos dos animais não apenas defendem os direitos dos chimpanzés ou vacas ou peixes. Eles defendem um mundo mais compassivo para todos os seres.

Eles trazem a consciência para as estruturas de poder que são opressivas e baseadas na exploração, que prejudicam os animais não-humanos, seres humanos e ao meio ambiente. O veganismo está enraizado no conceito de ahimsa, uma palavra sânscrita que significa não-dano a todos os seres sencientes, bem como o ambiente em que vivem. É um movimento que tem, acima de todos os valores, a redução do sofrimento, e convida todos nós a levarmos mais consciência sobre as formas pelas quais nos relacionamos com todos os seres, os animais não-humanos, bem como os seres humanos.

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Fundamentalmente, vegans defendem os valores que todos os movimentos de justiça social defendem. Eles se concentram sobre os animais não-humanos, mas o que eles realmente estão defendendo é uma sociedade em que nenhum ser senciente é usado como um meio para o final do outro. Eles estão lutando para a eliminação de todas as formas de preconceito e opressão. Eles trabalham para construir um mundo onde nenhum ser senciente é discriminado com base em qualidades moralmente irrelevantes, onde todos os seres são valorizados e respeitados, onde nenhum deles é escravizado ou torturado, onde todos os seres estão autorizados a ter liberdade para prosperar e prosseguir o seu próprio potencial inato para felicidade e alegria.

Enquanto nossa sociedade é construída sobre uma fundação de brutalidade, opressão e exploração de bilhões de seres sencientes, como é que podemos ter a esperança de ter a verdadeira justiça ou compaixão na sociedade humana?

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Ser um ativista dos direitos dos animais não é sobre como limitar a nossa compaixão a animais não-humanos, trata-se de alargar o nosso círculo de compaixão para incluir todos os seres que podem sofrer.

No mundo em que vivemos, não há comparação com a enormidade do sofrimento suportado pelos animais não-humanos, especialmente aqueles escravizados pelas indústrias de carne, laticínios e ovos. Eu sou uma defensora dos animais, porque os gritos de milhares de milhões de animais permanecem desconhecidos. Eu sou uma defensora dos animais porque nenhum ser deve sofrer, e o sofrimento de animais não-humanos é tão intenso, tão constante, tão grande, e tão generalizado.

Eu sou uma defensora dos animais porque a humanidade ainda está em negação de que são nossas próprias escolhas diárias que são responsáveis ​​pelo imenso sofrimento de um número verdadeiramente insondável de seres emocionais, sencientes e conscientes. Eu sou uma defensora dos animais simplesmente porque são os animais que precisam de mim mais.

 

Texto originalmente publicado no The Dodo e traduzido com a autorização da autora para o Modefica.

Tracey Narayani Glover é defensora dos animais, escritora, chef e proprietária do The Pure Vegan, e professora de yoga e meditação. Tracey é graduada na Escola de Direito da Universidade de Michigan e praticou na área de leis de cuidados da saúde por oito anos antes de viajar para Rishikesh, onde recebeu 200 horas de certificação de ensino yoga e decidiu que não havia tempo a perder na criação de uma vida com significado e propósito. Desde que voltou da Índia, ela dá cursos de culinária vegan e cuida de um serviço de entrega de refeições através de seu negócio The Pure Vegan. Ela é diretora e fundadora do grupo dos direitos dos animais sem fins lucrativos “ARC” (Respect Awakening And Compasion por todos os seres sencientes). Você pode se conectar com Tracey através do Facebook ou visitando seus vários sites: www.arcforallbeings.org, www.thepurevegan.com, https://arcforallsentientbeings.wordpress.com/, www.shantiwarrior.com.

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