É Preciso Abrir Caminhos Para Deixar Emergir as Narrativas Que Já Existem

“Backstage O Backstage é o podcast do Modefica para falar sobre moda a partir de diversos pontos de vista e para muito além do que vemos nas passarelas, nas revistas, no Instagram e nas manchetes. Sempre com convidadxs especiais contando sua trajetória, e junto com nossa editora Marina Colerato, o Backstage debate indústria, carreira, questões de gênero e raça, temas quentes e futuro da moda. Ouça no Spotify ou iTunes.
 
De Realengo, no Rio de Janeiro, Rafaela Joaquim encabeça um dos escritórios de tendência mais interessantes que você vai conhecer, o Coolhunter Favela. Por ser um corpo negro, como Rafa gosta de frisar, o universo da moda sempre soou por demais excludente e estudar ou trabalhar com moda não parecia uma opção: “eu não achava que eu tinha uma conexão com isso, o figurino me parecia uma coisa mais possível”, conta ela cujo primeiro trabalho de moda foi fazer o figurino de uma peça de balé.
 

 
Incentivada por uma amiga, em 2014, Rafaela se sentiu encorajada e ingressou numa faculdade de moda. Um pouco depois adentrou a escola Geração Vidigal, que hoje não existe mais, mas foi a primeira escola de moda numa favela no Rio de Janeiro. “Foi ali que eu comecei a decodificar meu pensamento através da moda”, relembra ela. Neste processo, a biblioteca do Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro do Rio, foi grande parceira no processo de aprendizagem de moda e estética. O pensamento do que era moda que Rafa começou a desenvolver no começo dos seus estudos era, conforma ela ressalta, extremamente colonizado. Inclusive, isso se refletiu nos seus próprios comportamentos: “o meu corpo enrijeceu, a minha fala baixou”, lembra.

Mas não demorou muito para o movimento negro acadêmico fomentando outra estética de moda, a geração tombamento, ganhar espaço na sua existência enquanto mulher negra trans num processo de descolonização do seu entendimento de moda, do seu corpo na cidade e de como criar uma moda para este corpo. É ai que surge a Trappo, marca que trabalhava com upcycling e trazia referências de brechó para o processo criativo das roupas.

Rafaela fala muito da corporeidade [1] negra, a partir de uma perspectiva de diáspora na cidade, um processo reflexivo que acabou extrapolando a Trappo. Neste transbordar de vontades e saberes, ela criou o escritório Coolhunter Favela, numa ideia de cascatear conhecimento e dialogar com o mercado a partir das aprendizagens e experiências de narrativas plurais. Se Rafaela precisa definir o que é e o que o Coolhunter Favela faz, ela cita o compositor Candeia: “ir na fonte de pesquisa e entregar para o povo através de arte”.

Hoje, a Trappo virou um brechó, um projeto dentro do escritório, junto com o Tok, que faz direção criativa, conteúdo e projetos com parceiros, e o Ocupa Tok, a promoção de encontro de pessoas de vários perfis e corpos por meio da moda. Rider, Senai e Flamengo são alguns dos parceiros que já chegaram na Rafa para construir outras narrativas. Porque, como ela salienta, o jeito de mudar as coisas é abrir caminhos para deixar emergir as narrativas que já existem.

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Depois da conversa completa com a Rafa, neste episódio, estreamos a seção de comentários. Retomamos  debates trazidos nos comentários dos podcasts com a Giovanna Nader, Suzana Barbosa e Nathalia Anjos. Foi mencionado o texto Ressignificando a Cidade Colonial e Extrativista, de Mario Rodriguez Ibáñez, publicado no livro Descolonizar o Imaginário: Debates Sobre Pós-Extrativismo e Alternativas ao Desenvolvimento. 

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