Por Que “Desperdício” é uma Palavra Muito Mais Suja do Que Você Pode Imaginar

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Na quarta-feira, 22, nós falamos um pouco sobre o impacto do plástico no mundo e nos oceanos, destacando o novo documentário da i-D com participação do Pharrell Williams. Um dos links interessantes que fizemos dentro dessa matéria foi para o TED da designer de produto e estrategista em sustentabilidade Leyla Acaroglu. TED, aliás, que é um dos meus preferidos e desses que eu indico para todo mundo.

Quando Leyla abordou o “folclore ambiental”, e foi direto explicando porque uma sacola de plástico acaba sendo melhor que uma de papel, eu fiquei fascinada. Um dos pontos mais interessantes do seu trabalho é que ela faz algo que não vemos por aí com frequência: ela aborda sustentabilidade de forma integrada, da produção da matéria-prima ao pós-consumo. Além do mais, ela é inteligente, direta e, como eu, parece obcecada pela questão do desperdício.

[Para ilustrar o quão ligada eu sou em relação ao desperdício, vou fazer esse parênteses para contar algo que aconteceu na semana passada. Eu estava vendo os desfiles do SPFW quando, em um deles, me deparo com a passarela forrada de pedaços de papel impressos espalhados pelo chão. De repente, eu não conseguia nem mais pensar em gostar das roupas, só conseguia pensar em todo aquele papel, que foi usado por 15 minutos e muito em breve estaria a caminho de algum aterro sanitário].

O momento de obsessão com relação ao desperdício veio quando me tornei vegetariana e foi ficando mais intenso com o passar do tempo, quando fui entendendo e descobrindo o impacto ambiental astronômico que qualquer produto causa ao ser produzido. Sinceramente, eu desafio qualquer pessoa a assistir o documentário “O Veneno Está Na Mesa” sem ficar, pelo menos temporariamente, obcecado com o desperdício de alimentos.

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Como Leyla fala no vídeo, a produção do que consumimos pode parecer algo distante, mas, na realidade, é algo que está bem próximo e afeta todos nós. Pense em uma maçã ou em um pé de alface. Quanto esforço e energia são necessários para produzir um deles? Em uma descrição rápida e simplista, terra e espaço para plantar, agrotóxicos, pesticidas – prejudiciais para a terra, para os trabalhadores e para o ar – e muita água para irrigação. Finalmente esse alface ou maçã são colhidos, precisam ser transportados, por vezes embalados e rotulados, para serem vendidos em mercados ou feiras antes de chegarem às nossas mãos. Todo esse emprego de energia e impacto ambiental para metade dos alfaces e das maçãs do mundo ser jogada no lixo.

Não faz sentido para mim metade dos alimentos produzidos por ano ser jogada fora, somando um total de 1,3 bilhões de toneladas, segundo as últimas estimativas da ONU. Se um pé de alface ou uma maçã causam um impacto ambiental relevante, imagine 1,3 bilhões de toneladas de comida. Nós estamos produzindo e desperdiçando produtos como se tivéssemos cinco planetas Terras, quando, de fato, só temos um. Isso fica ainda mais sujo quando falamos da vasta utilização de ingredientes animais em diversos produtos. Por exemplo, para alimentar uma vaca – seja para produzir leite, bife ou couro – é necessário uma produção massiva de soja ou milho para ração a preços baixos (no Brasil, 44% das culturas destinam-se a produzir alimentos para os animais). Ou seja, uso de solo, agrotóxicos, água e energia só para fazer a ração.

Além disso, a pecuária bovina é responsável pela emissão de pelo menos 50% dos gases-estufa, principalmente do gás carbônico (CO2) e do metano (CH4). Para os preocupados com desmatamento, no Brasil, 75% do desmatamento na Amazônia e 56% no Cerrado estão associados à pecuária. Para os preocupados com a seca, são necessários cerca de 16 mil litros de água para produzir 1kg de carne. Some a isso toda energia e materiais gastos para abate, transporte e embalagem, que são prontamente descartados depois do consumo, processos imensuráveis, e impute todo o sofrimento animal e as questões horríveis por trás dos matadouros – que inclui não só o confinamento e abate, mas o sofrimento diário desses seres sencientes sendo expostos a processos que os façam crescer, reproduzir e produzir mais em menor quantidade de tempo.

Da comida pra moda: a síndrome do fast-fashion.

Agora que você já entendeu o quão ruim é comprar comida para jogar fora, sem nem falarmos das milhares de pessoas que passam fome enquanto isso, vamos voltar até o couro, para que possamos entrar na indústria da moda e sua cadeia de suprimentos. Quando o animal é abatido e sua pele vai virar roupa, seu couro precisa passar por um processo extenso, incrivelmente tóxico e poluente para que o ciclo natural de biodegradação (ou, mais diretamente, apodrecimento) não aconteça.

Depois que o couro chega nas mãos dos designers, até ele virar um produto no estoque de uma loja, são necessárias mais 101 etapas, todas elas causando sua dose de impacto ambiental e deixando uma tremenda pegada de carbono. Imagine isso tudo multiplicado por mais de um bilhão de animais mortos por ano para a produção de roupas, calçados e acessórios, com cada peça produzida consumindo 20 vezes mais energia do que o necessário para produzir uma igual em fibra natural (como algodão ou linho) ou sintética (como PVC e poliéster).

Porém, as fibras naturais ou sintéticas não ficam tão para trás quando a questão é poluição e esgotamento de recursos naturais. Por exemplo, a plantação de algodão é altamente destrutiva e ávida por água, e a produção massiva de viscose destrói as florestas tropicais, que são as principais responsáveis por absorver CO2 e exalar oxigênio. E mais uma vez, temos um problema quando multiplicamos isso pela escala exorbitante da moda. No seu livro To Die For, a autora Lucy Siegle chama atenção para a produção de jeans e calças de algodão: “Um espantoso número um bilhão e meio de calças jeans ou calças de algodão são produzidos em Bangladesh todo ano” – e isso é apenas em Bangladesh.

Um movimento de massa é necessário para desafiar o status quo e criar um sistema mais justo para substituir o atual.

O problema não para quando o produto chega na nossa casa. Na verdade, ele só vai se agravando: são estimados que 30% da energia consumida por um produto acontece no pós-consumo, nos processos de lavagem e limpeza deles. Você lembra de quando, no ano passado, o CEO da Levi’s falou que nós tínhamos que lavar nossas calças jeans com menos frequência? A ideia é exatamente diminuir esse impacto.

Mas é quando chegamos na fase final do ciclo de vida do produto que as coisas tomam proporções ainda mais chocantes. Com uma moda produzida de maneira cada vez mais rápida e barata para que nós descartemos as coisas e compremos com mais facilidade a preços cada vez mais baixos, todas essas roupas acabam indo para os aterros sanitários. Para ser mais específica, nos EUA, 75% das roupas são jogadas fora e apenas 15% são doadas ou recicladas. Esses 75% representam 10,5 milhões de toneladas de roupas por ano, das quais 90% poderiam ser recicladas ou reutilizadas – isso só nos EUA.

A cura não é simples, mas o primeiro passo é necessário.

Provavelmente, você está se perguntando sobre como podemos limpar essa sujeira toda. As soluções e saídas são plurais. Consumir menos (e isso implicaria numa reforma do nosso modelo economico vigente), melhor e sem desperdício é uma delas. Como designer de produto, Leyla acredita que o design realmente eficaz é uma excelente solução para resolver vários problemas de desperdício e impacto ambiental – e isso está nas mãos dos designers e da indústria. Como ela mesmo fala no vídeo, o real problema da geladeira, por exemplo, não é o quanto ela consome de energia, mas sim o seu tamanho e sua incapacidade de fazer as coisas durarem por mais tempo, problema esse que poderia ser facilmente solucionado com um design mais eficiente.

Na moda, alguns exemplos são: Stella McCartney e Patagonia, marcas que têm uma política empresarial construída em cima da sustentabilidade; Reformation, que faz reaproveitamento de tecidos e upcycling; Levi’s, que controla o gasto de água desde a produção do algodão até a manufatura da peça. Porém, como todos os profissionais da área de sustentabilidade afirmam, nada disso é realmente relevante quando falamos em escala de produção. Afinal, conciliar respeito à natureza e às pessoas com o capitalismo é uma tarefa impossível.

Todos nós precisamos nos importar mais. Todo mundo tem sua parte de responsabilidade e pode fazer diferente, mesmo eu e você – que não somos estrategistas de sustentabilidade, mas fazemos parte desse sistema megalomaníaco. Basicamente, as coisas só vão mudar quando nós levarmos o consumo e o desperdício – de comida, de roupas, de produtos de beleza, de tudo – realmente a sério e estarmos dispostos a pensar em novos caminhos para viver em sociedade.

Como Maya Singer fala em seu artigo no Style.Com, “um movimento de massa é necessário para desafiar o status quo e criar um sistema mais justo para substituir o atual”. Se formos esperar o mundo ideal (ou o governo perfeito) para fazer algo, nós provavelmente morreremos sufocados por CO2 ou soterrados em lixo. Isso não me soa muito glamouroso. Então é melhor empurrarmos as barreiras e forçarmos a mudança. Questionar nosso estilo de vida e questionar às marcas e empresas que nos cercam é um excelente primeiro passo.

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Esse artigo não aborda o custo humano da produção dos produtos. Mas você pode ler mais sobre o custo humano na moda aqui.

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