Roller Derby: O Esporte Que Une Saúde, Espírito de Equipe e Mulheres Maravilhosas

Quão preparada você está para por os patins e se jogar no Roller Derby? Esqueça o sedentarismo, o medo do impacto corpo a corpo, ou o simples receio de cair, e qualquer outra desculpa que aparecer na sua mente para driblar essa experiência única de conhecer uma nova faceta do seu corpo e mente.

O Roller Derby subiu pouco a pouco no gosto popular feminino no Brasil e hoje conta com mais de 30 equipes oficiais, distribuídas por todas as regiões do país. O esporte ainda é tido como “diferente”, mas em São Paulo, por exemplo, você pode achar eventos de treino aberto da Liga Ladies of HellTown, grupo pioneiro de Roller Derby em terras tupiniquins. Em 2009, o esporte ficou mais conhecido graças ao filme Garota Fantástica, interpretado por Ellen Page.

A primeira versão do esporte surgiu em meados da década de 30, nos Estados Unidos. Visto como um esporte de resistência, a principal ideia era dar muitas voltas em torno de uma pista, mas após alguns anos, perceberam que o momento mais excitante era quando dois patinadores se chocavam. Foi aí que as regras mudaram: o Roller Derby se tornou um esporte de mais contato, competitivo e, ao invés de focar apenas na resistência, seria promovido como um esporte de equipe, numa pista inclinada, com ataque e defesa.

Ao longo das décadas, principalmente a de 50, o esporte foi saindo do gosto popular, voltando a emergir no final da década de 90 e início dos anos 2000. Com novas regras, que protegem mais as jogadoras, o Derby se destaca por ser o único esporte de contato majoritariamente feminino, mais de 90% dos praticantes são mulheres.

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Partida das debutantes do Ladies of Helltown 2016 // Cortesia My Good Monster</em
 

Regras do Jogo

As regras do Roller Derby são simples: duas equipes de cinco integrantes, chamadas de Pack, percorrem na mesma direção uma pista circular, podendo essa ser reta ou inclinada. O Pack é composto pela posição de Jammer, a integrante que tem como missão ultrapassar as jogadoras da outra equipe, ganhando pontos para o seu time a cada adversária que ultrapassa; a Pivot, uma integrante que mantém a velocidade do Pack; e três outras integrantes que estão dispostas à frente para impedir que a Jammer do time adversário ultrapassem-as: as Blockers.

A Jammer é reconhecida pela estrela no seu capacete e por sair depois do seu time no percurso – ela fica atrás, escuta o primeiro apito – que é a deixa para que a Pivot e Blockers corram – e depois dois apitos um seguido do outro, para ela e a Jammer adversária correrem.

Toda partida é dividida em duas partes de 30 minutos, chamadas de Bout. Cada Bout pode conter inúmeras rodadas, as Jams, que podem durar dois minutos ou menos, caso a Jammer líder, a que estiver pontuando mais, decida terminá-la.

E como todo esporte, existem faltas e penalidades. Forçar uma passagem entre as adversárias, como dar cotovelada, faze-las tropeçar e bloquear com as costas pode causar punição para a jogadora, resultando em uma falta menor ou maior, dependendo da situação. Uma falta menor não a tira da partida, mas se ela provocar quatro dessas, terá que se retirar por dois minutos. Já as faltas maiores causam a suspensão imediata de dois minutos.

Confuso? Nem tanto, primeiramente a regra pode parecer um pouco diferente do que vemos em esportes mais tradicionais, mas é na verdade bem simples. Visualmente, torna-se ainda mais fácil, é por isso que vale à pena conferir competições no Youtube, ou ver o vídeo de regras básicas feito pela The Women’s Flat Track Derby Association, associação internacional que organiza e reúne as ligas de Roller Derby oficiais.

 

Vamos com Calma

Qualquer ideia de “violência” que possa surgir ao ouvir pela primeira vez sobre o esporte não é válida. No Roller Derby atual, o uso incorreto da força física que acarrete em qualquer violência é duramente penalizado. A Ladies of HellTown prega a segurança, o entrosamento com a equipe e confiança na hora de praticar o esporte.

Para praticá-lo com segurança, há todo um preparamento antes de realmente entrar em ação em algum jogo. Maria Lúcia Rigon joga para a Liga Ladies of HellTown há quase 6 meses, e conta que ainda não jogou oficialmente, por ser “fresh meat” – nome dado às novatas. “Eu sou da modalidade Evolutiva, ou seja, não preciso ter uma rotina de treinos tão rígida. Hoje eu participo dos treinos de base que acontecem de duas a três vezes por semana. Não são todos os dias que eu consigo ir, mas também acho importante respeitar meu corpo e minhas limitações”, conta. É recomendável também que a jogadora faça exercícios físicos fora dos treinos, como exercícios de resistência e alongamentos.

A veterana Tati Spider veio para o Roller Derby há cinco anos, quando precisava se sentir “mais viva”. Ela conta que fez por um tempo academia para fortalecimento, mas mesmo depois de parar, ela buscava fazer exercícios simples, como descer do ônibus uma estação antes para ir caminhando o restante do percurso, subir escada e fazer agachamento em casa.

Já a jogadora Paulinha, presente na Liga há seis anos, frisa a importância da união da equipe: “O que mais me surpreendeu logo de início foi o apoio que tive de todas as garotas que encontrei lá. Eu entrei sem saber patinar pra frente e elas me deram as mãos e me ensinaram do zero. Acreditar em si mesma às vezes é uma tarefa quase impossível. O meu segredo, sem dúvidas, foram essas garotas que me disseram que aquilo era possível desde que eu acreditasse em mim e corresse atrás”. Além dos treinos três vezes na semana, Paulinha também reveza com outras veteranas para treinar as freash meats.

Um dos pontos únicos do Derby é a dedicação na organização das ligas, das jogadoras e dos jogos, um espírito do-it-yourself do começo ao fim. Paulinha comenta que, atualmente, o Derby é um dos esportes que mais cresce no Brasil e no mundo, graças às facilidades de espalhar o esporte por meio de plataformas digitais. Mas as dificuldades para a popularização do esporte são várias: as regras complexas, a necessidade de uma equipe grande de arbitragem, a filosofia inclusiva e quebra de tabus – que sofre resistência da sociedade – e, principalmente, a falta de patrocínio. “Nós bancamos praticamente todos os custos de viagens e campeonatos. Hoje temos um patrocínio da Mega Roller Skate Park, onde treinamos. Mas demoramos muito pra conseguir um patrocínio, pois grande parte dos patrocinadores quer visibilidade em mídias televisivas”, afirma.

 

Coloca os Patins e Vai

Essa foi a dica da Maria Lúcia, para quem sentiu um interesse no Derby. “Vai sem medo! E se tiver com medo, vai com ele mesmo. Você vai conhecer pessoas maravilhosas e descobrir o próprio corpo de uma maneira completamente diferente”, comenta. Paulinha, que chegou ao Roller Derby por se encantar com o lifestyle das mulheres tatuadas, meias estilosas e cheias de confianças, conta da mudança que o esporte acarretou na sua vida sedentária: “Você fica bem com a sua vida, com as pessoas, com o seu corpo e principalmente com a sua mente. O Derby é um esporte totalmente inclusivo. Se você tem inseguranças em relação ao seu porte físico, ou se acha lenta, ou muito sedentária, não deixe que isso vire uma desculpa para você brilhar”.

Tati Spider reafirma o compromisso da Ladies of HellTown com as novatas: “você não estará sozinho, pegaremos na sua mão e te ensinamos a patinar e quando você menos esperar, você vai estar ensinando alguém e assim o ciclo se repete”.

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O Roller Derby tem muito embate corpo a corpo, mas violência e agressão são penalizadas // Cortesia My Good Monster
 

Um Esporte Para Todas

Roller Derby é para qualquer mulher disposta a conhecer algo novo, fazer amizades, dar uma chance para se amar e melhorar sua qualidade de vida. A única exigência é com a segurança: para praticar, é necessário ter patins Quad (modelo “clássico” usado no Derby), protetor bucal, capacete, cotoveleiras, munhequeiras e joelheira.

E foi justamente essa diversidade que encantou Tati Spider: “A primeira coisa que me surpreendeu foi a diversidade física das pessoas que praticam o Roller Derby. Você não precisa ser musculoso pra jogar, tem lugar pra magrinhas, gordinhas, baixas, altas, pra todos!”.

Maria Lúcia encontrou no esporte uma maneira de vencer a depressão. “A pessoa tímida aqui, que nunca faz nada sozinha, foi na cara e na coragem, sem conhecer ninguém e desconhecendo completamente o esporte. O que me surpreendeu, na verdade, é que não é nada parecido com os pré-conceitos que a gente tem na cabeça! É muito maravilhoso como eu percebo a minha evolução pessoal a cada treino, mesmo que seja mínima. Nunca participei de nenhum grupo tão grande e é a primeira vez que faço algum tipo de esporte, então está sendo uma experiência completamente nova e enriquecedora pra mim”, conta.

Quando perguntamos o que o Roller Derby significa para ela, Paulinha respondeu que é principalmente uma filosofia de vida, de respeito ao próximo. “Eu aprendi a aceitar o próximo a partir do momento que aprendi a me aceitar. Vi centenas de mulheres passarem por aqui todos esses anos e muitas mudanças drásticas na vida de cada uma delas. Antes era um lifestyle, depois virou um esporte, hoje posso dizer de boca cheia e peito aberto que o Derby tem uma grande parcela na formação do meu caráter”, afirma.

As Jammers têm uma estrela no capacete para serem identificadas, enquanto os capacetes das Blockers contam com faixar verticais // Cortesia My Good Monster
 

Se interessou? A Ladies of HellTown tem uma lista das cidades onde você pode encontrar uma liga. Não se acanhe em conversar diretamente com os times, eles estão sempre dispostos a trazer mais uma fresh meat par o grupo. Eventos abertos – onde qualquer um pode ir – acontecem diversas vezes ao ano, como jogos entre ligas, eventos comemorativos e recrutamento. Os treinos abertos acontecem sazonalmente, mas você ainda pode ir conferir como a habilidade e espírito de equipe nascem nas ligas de Roller Derby. Fique ligado para chamadas no Facebook e nos sites oficiais para estas datas, é a sua chance de conhecer um ambiente totalmente diferente, com ritmo e pessoas contagiantes.

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