Sabrina Fernandes, Socióloga e YouTuber, Explica o Que é Ecossocialismo

Se você está confusa só de ler a palavra “ecossocialismo”, não se preocupe, é normal. Muita gente nunca nem ouviu falar ou sabe muito pouco sobre. Mas exatamente por isso, o  #ModeficaNaPolítica foi conversar com a Sabrina Fernandes, a socióloga ecossocialista e YouTuber por trás do canal Tese Onze. Cheia de conteúdo, quebrando todo e qualquer estereótipo, Sabrina é referência brasileira no tema, além de dominar outras pautas tão importantes para nós como feminismo, marxismo e veganismo.

A conversa com a Sabrina não aconteceu antes das eleições por acaso. Além de descobrir juntas o que, afinal, é o ecossocialismo, também conversamos com ela sobre Eleições 2018 e quais candidatos elas está vendo por ai apoiando esse movimento.

 

Ecossoci-o-quê?

Vamos começar do início: você sabe o que é ecossocialismo? Foi assim que começamos nosso papo com a Sabrina. Ela tem um vídeo bem explicativo sobre o tema para o canal dela, mas ainda assim, pedimos para ela explicar da forma mais simples possível e ela precisou de menos de um tweet: “gente e ecologia”.

Parece uma relação natural, mas infelizmente não é, ainda mais em um momento do mundo onde palavras de ordem são intolerância, separatismo, individualismo. Sabrina define ecossocialismo, ou ‘socialismo verde’, como uma vertente teórica e militante do socialismo marxista responsável por estabelecer que não há como, em meio aos desafios do século 21, separar o debate da emancipação humana da luta ecológica, considerando também nesse debate os conhecimentos dos povos indígenas e o ecofeminismo.

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Mas esse conceito surgiu agora?

Não. O ecossocialismo tem cerca de 30-40 anos e nasceu como uma forma de autocrítica das experiências de socialismo real que só exploraram a natureza por causa do produtivismo industrial exacerbado. “O ecossocialismo não é um mero ambientalismo de esquerda, mas passa, em sua essência, pela luta socialista que considera o fim do capitalismo e a socialização dos meios de produção”, explica Sabrina. O debate ecossocialista se faz necessário porque, com a mudança climática e os avanços na integração da luta indígena e povos tradicionais na luta da esquerda, contempla os sujeitos políticos e coloca a luta contra o capitalismo como uma luta pela sobrevivência no planeta.

Por isso, como explica Sabrina, essa vertente nos leva a pensar novos modos de produção que não fomentem o antagonismo com os seres humanos nem com questões de reprodução de vida na Terra, e ainda nos faz refletir sobre a interação e responsabilidade com outras formas de vida. “É importante, também, valorizarmos as questões intergeracionais porque temos que pensar, sem egoísmo, não só em quem está vivendo aqui hoje, mas nas nossas próximas gerações que estão por vir”, lembra ela.

O ecossocialismo não é um mero ambientalismo de esquerda, mas passa, em sua essência, pela luta socialista que considera o fim do capitalismo e a socialização dos meios de produção

Dentro do pensamento ecossocialista, por causa do foco nas pessoas, na natureza e na qualidade da interação entre as duas, o ubuntu e o bem viver ganham espaço importante. Ubuntu – traduzido como “eu sou porque nós somos” – entra no debate ecossocialista para romper com o individualismo e mostrar a importância da dignidade de todos, colocando a cidadania e a convivência solidária como prioridades. O conceito de bem viver no ecossocialismo, como prega Michael Lowy, tem como foco ampliar os direitos coletivos ou comunitários, envolvendo também uma visão de economia sustentada pela solidariedade, sustentabilidade, reciprocidade, responsabilidade, integralidade e autossuficiência, e não no consumismo e produtivismo.

 

Por um planeta vivo

“Não existe vitória revolucionária num planeta morto”. Essa é a explicação da socióloga quando questionamos sobre a definição de ecossocialismo ou barbárie/ecossocialismo ou extinção. Um sistema socialista pauta sua produção em uma relação mais harmoniosa com a natureza, uma realidade bem distante da maneira com a qual vivemos hoje. “Esse sistema [de hoje] explora pessoas, o que está no centro da produção e apropriação de valor, e além disso coloniza lugares e explora a natureza na busca por recursos naturais, o que deixa um rastro de destruição e poluição em um processo que não pode mais ser normalizado”, detalha.

“Não vai adiantar os trabalhadores conseguirem transformar o sistema político e econômico em um sistema justo e igualitário se a sustentabilidade não for palavra de ordem, e se, principalmente, não mudarmos drasticamente a nossa relação com a natureza”. Como afirma Sabrina, só com essa transformação radical vamos conseguir seguir vivos por mais alguns milhares de anos nesse planeta.

 

Qualidade de vida ecossocialista x qualidade de vida capitalista

Pensar nessa relação saudável com a natureza nos leva a questionar sobre os conceitos de qualidade de vida. Na sociedade capitalista o que consideramos qualidade de vida está diretamente ligado ao consumo e ao consumismo. Mas o que seria qualidade de vida em uma sociedade ecossocialista? Primeiro, “podemos começar medindo a qualidade de vida de outras formas, o que já ajudaria a libertar os cidadãos da lógica de que a gente só trabalha para consumir bens concretos”.

Compreender que o capitalismo se utiliza de mercadorias para comprar o nosso consentimento com o sistema é um dos motivos que levam os ecossocialistas a ‘flertar’ com uma síntese entre os aspectos do marxismo humanista (emancipação humana) e os elementos da cosmovisão de bem viver dos povos latinos. Nessa vertente de pensamento, a qualidade de vida e abundância precisam ser medidas tendo como valores de referência o tempo, a saúde, atividades criativas, serviços públicos, etc – e não única e exclusivamente sua renda. Por outro lado, “ao pensarmos o bem viver, podemos incorporar diretamente outra visão de mundo na relação com a natureza, uma relação ecológica em que a abundância é medida de forma coletiva, pautada pela sustentabilidade, e sem separação entre seres humanos e natureza”.

 

Tecnologia e ecossocialismo

A modernidade está pautada pela tecnologia, e não só por isso o debate tecnológico, segundo Sabrina, é essencial na pauta ecossocialista. Ao mesmo tempo em que a tecnologia contribui para a dominação das pessoas e do planeta, ela é um instrumento de melhoria quando oferece oportunidades de aumentar a harmonia entre os seres humanos e a natureza, o que justifica a defesa da transição energética e dos investimentos públicos em tecnologias solares feita pelos ecossocialistas, por exemplo.

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Relação entre ecossocialismo, feminismo e veganismo

Claro que a gente perguntou pra Sabrina sobre feminismo e veganismo – duas bandeiras levantadas pelo Modefica em sua essência – e a relação dos temas com o ecossocialismo. Aperta o play.

 

 

Direita x Esquerda

Ecocapitalismo, capitalismo consciente e as tentativas de pintar o capitalismo de verde

Para Sabrina, o ecocapitalismo é um mito e ponto. Numa época em que, cada vez mais, candidatos querem ‘unir’ capitalismo e sustentabilidade, é bom ficar extremamente atento ao que isso realmente significa para não cair em lavagem verde política. “O que chamam de ecocapitalismo é uma contradição ainda mais insustentável do que o próprio capitalismo, pois se baseia na ideia de que é possível conciliar a fome infinita do capitalismo por recursos naturais (na busca por cada vez mais acumulação de riqueza) com as necessidades da natureza”, explica ela. 

Essa ideia também tem a ver com a forma como pensamos o tempo da sociedade humana e o tempo da natureza. “Os seres humanos, vivendo sob a pressão do regime capitalista, são capazes de destruir biomas que a natureza demorou bilhões de anos para formar. Por isso, mesmo que alguns preguem que através de incentivos e leis seja possível mediar o desenvolvimento capitalista com a preservação da natureza, a lógica de crises constantes do capitalismo exige que o sistema recupere seu ritmo de apropriação e destruição [da natureza] sempre que a classe dominante necessitar”.

 

Qual a diferença de esquerda radical e esquerda moderada e em qual das duas está o ecossocialismo?

Sabrina utiliza muito nos seus vídeos os termos esquerda moderada e esquerda radical, dentro das várias tipologias que definem a esquerda. No Brasil, de acordo com as definições da ecossocialista, “a esquerda radical se orienta, sem concessões, como anticapitalista e investe na construção do poder popular. Já a esquerda moderada ainda preza pela igualdade, mas está disposta a fazer concessões centrais no modelo de governo para a burguesia brasileira, admitindo-se como mediadora entre os trabalhadores e o capitalismo”. Por querer um rompimento total com o sistema capitalista, o ecossocialimo está na esquerda radical.

 

Eleições 2018: Quem são os candidatos e candidatas com propostas ecossocialistas?

Sobre candidatos que entendem o ecossocialismo como uma vertente, Sabrina é enfática: “a única candidatura presidencial que considera o ecossocialismo é a de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara”. Inclusive, explica ela, Guajajara foi inicialmente lançada como pré-candidata à Presidência para o PSOL pela Setorial Ecossocialista do partido, que contribuiu para várias temáticas do programa de governo da chapa e não apenas no quesito meio ambiente.

“Existem elementos no programa de Haddad e Manuela que contemplam lutas ambientais de forma ousada, como no debate de transição agroecológica (pautado principalmente pelo MST) e que pode contribuir para um programa ecossocialista no futuro”, acrescenta sobre o programa do PT. 

Falando especificamente do Distrito Federal, onde ela mora, a professora Fátima Sousa e Keka Bagno, co-candidatas ao governo, têm o bem viver como visão fundamental do plano. O mandato coletivo Mandátodos, que se lança à candidatura de deputado distrital, também levanta o ecossocialismo como bandeira, além de se envolver em várias lutas que agregam para a pauta.

Porém, nós temos outros milhares de candidatos e planos de governo nas eleições deste ano e você pode aprender a analisar suas propostas com uma lente ecossocialista.  Alguns temas essenciais são: transição da matriz energética brasileira, demarcação de territórios indígenas, compromisso com desmatamento zero, garantia de acesso a água para toda a população, programa de transição de empregos verdes, incentivo ao veganismo e a pauta de libertação animal como um todo, projetos permaculturais nas cidades e no campo, programa de soberania alimentar, incentivo à mobilidade urbana coletiva, e investimentos em tecnologia limpa em mãos públicas.

 

Gostou? Então vá além com as dicas de leitura da Sabrina

“O que é ecossocialismo” do Michael Löwy.

“O Bem Viver: Uma Oportunidade Para Imaginar Outros Mundos” do Alberto Acosta.

“Descolonizar o Imaginário: Debates Sobre Pós-extrativismo e Alternativas ao Desenvolvimento” de Gerhard Dilger.

Os dois livros mais recentes da Naomi Klein, “Não Basta Dizer Não” e “This Changes Everything” (sem tradução para o português). 

Materiais da Rede Jubileu Sul, que denunciam as contradições da economia verde.

E fica de olho porque esse ano a Sabrina vai lançar livro também.

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