São Paulo Por Elas: Cidadania, Menos Muros e Mais Inclusão São Caminhos Para Uma Cidade Melhor

No mês do aniversário da cidade, 5 arquitetas e urbanistas contam o que poderia ser melhor na cidade e os possíveis caminhos para chegar lá // Pixabay

São Paulo fez 463 anos na semana passada e para comemorar o aniversário de uma das maiores cidades do mundo, nós convidados cinco arquitetas e urbanistas para falarem, a partir de seus pontos de vista e experiências, sobre temas como ocupação de espaços públicos, planejamento urbano, segurança e acessibilidade. Nosso principal objetivo é gerar debate e refletir como podemos, juntas, enriquecer essa conversa e fazer de São Paulo, nosso ponto de partida, uma cidade mais inclusiva e colaborativa.

São Paulo por Andrea Sender:
Segurança, Manutenção e Gentrificação e Desigualdade.


Andrea é Arquiteta e facilitadora de processos comunitários // Cortesia

 

Segurança: A questão da segurança em São Paulo entrou em um ciclo vicioso. Ao invés de ocuparmos os espaços públicos, dando vida e, consequentemente, mais segurança a eles, nos fechamos cada vez mais em espaços privados ou semi-privados, dando espaço para que os usos indevidos tomem conta do que é de todos nós. Para mim, não resolveremos a insegurança ou, muitas vezes, a “sensação de insegurança”, somente colocando policiamento nas ruas. Precisamos ocupar os espaços públicos, gerando os usos que queremos para eles, e afastando os usos que acreditamos ameaçar o direito à cidade.

Manutenção: Se quisermos ter uma cidade limpa e bem cuidada, precisamos também fazer a nossa parte. Faço parte do negócio social Acupuntura Urbana, no qual transformamos espaços públicos com base no engajamento comunitário e empoderamento cidadão, e quando iniciamos um processo, sempre convidamos as comunidades a saírem do papel de “reclamadores” e assumirem o papel de “fazedores”. Assim, convidamos os cidadãos a serem protagonistas das mudanças que querem ver na cidade, reivindicando ativamente pelos seus direitos e tomando iniciativas concretas para estas transformações.

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Criamos pontes entre os diversos setores, na busca de uma PPPP (Parceria Público, Privada e População) e, coletivamente, transformamos espaços públicos com base nos sonhos das comunidades, gerando um legado físico e afetivo o que, consequentemente, proporciona uma maior manutenção por parte dos próprios cidadãos. Ao invés de somente reclamarmos, temos que ser parte ativa destas melhorias, colocando a mão na massa e apoiando o poder público a dar conta dos problemas que identificamos na cidade.

Gentrificação e Desigualdade: No nosso dia a dia, convivemos com as diversas “São Paulos” que existem atualmente. Periferias extremamente carentes, zonas muito privilegiadas e uma desigualdade escancarada. O preconceito vem dos dois lados e precisamos mesclar todas estas realidades para que todos possamos entender que, no fundo, temos todos os mesmos direitos e deveres de cidadão e que, para criarmos uma cidade mais justa e menos gentrificada, temos que pensá-la coletivamente.

As periferias precisam sim de muito mais infraestrutura (educação, saúde e até saneamento básico), mas precisam também ser reconhecidas como parte importante da nossa cultura, da nossa cidade, da nossa sociedade. Existem projetos incríveis em diversas periferias de São Paulo, como o A Banca no Jardim Ângela, reservas naturais que nos fazem sentir muito longe da selva de pedra, como o Ecoativa na Ilha do Bororé.

Mas muitas pessoas não reconhecem estes tesouros por simples falta de conhecimento ou medo do que é diferente das suas realidades. Uma solução para isso é um maior número de programas de inclusão, onde sejamos colocados todos juntos e todos tenhamos voz ativa e sejamos reconhecidos como cidadãos de direitos e deveres.

 

São Paulo por Kaísa Isabel Tembela Santos:
Planejamento Urbano e Acessibilidade.


Kaísa é Arquiteta e Urbanista. Estuda autonomias em diferentes esferas // Roniel Felipe

Planejamento Urbano: Aproximando-se dos habitantes de São Paulo, nos damos conta que estes escolhem um espaço dentro do município para chamar de cidade, a sua cidade. E seguimos assim, ano a ano, cada um com a sua São Paulo. Para os arquitetos e urbanistas, é importante trabalhar com estes olhares, um percurso a pé “trabalho – faculdade – casa” é distinto de um percurso de duas horas de ônibus para “trabalho – creche – escola – e aí casa”.

Agora, administrativamente falando, a partir do momento que não se reconhece esta imensidão (ao impedir que cada vez mais soluções se estabeleçam nas Subprefeituras e que estas Subprefeituras estejam conectadas realmente com o seu entorno), a demanda para problemas locais, ora costurando-se com soluções vindas de Subprefeituras vizinhas, ora em comunhão com outros setores que tenham a função de gerir soluções em macro escala, permitiria a descentralização de poder.

Acessibilidade: Sempre que falamos de acessibilidade para o município de São Paulo, muitos reclamam que a topografia do município é acentuada, porém o problema não é somente este. Olhando para o passado, quando foi necessário encontrar resultados para qualquer outra instância de mobilidade ou transporte, em nome de progressos, estes foram encontrados. O progresso denominado “redução de desigualdades” é um que vem sendo jogado de lado. Trabalhando há um tempo com acessibilidade, consegui ter um apanhado de que o nosso maior problema, hoje, é a barreira atitudinal para a inclusão de pessoas.

As leis estão aí, as normas já estão vigentes, mas as barreiras que criam dificuldades entre a funcionalidade e os elementos do espaço impedem a participação social da pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida ao exercício de seus direitos à acessibilidade. Relembrando, estes direitos estão garantidos, isto foi um primeiro passo, somente o primeiro, mas ainda não estamos preparados conscientemente para os próximos.

É preciso recriar o papel destes novos agentes de inclusão, sejam eles administradores públicos; arquitetos e urbanistas; psicólogos sociais; psicólogos políticos; antropólogos; sociólogos; educadores e professores em diversas esferas; advogados e engenheiros; agentes e instituições culturais; de saúde; educacionais, entre outros. Profissões que em seus processos, do macro ao micro, devem produzir novos instrumentos para fazer um novo lugar para indivíduos que estão, sim, sujeitos a uma denominação coletiva.

 

São Paulo por Lucia Meneghetti:
Ocupação De Espaços Públicos e Planejamento Urbano.


Lucia é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela UNESP, possui especialização em Cinema Documentário pela FGV, atua como profissional liberal e é aluna especial da pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo na FAUUSP // Cortesia

Enquanto temos alta vacância imobiliária no centro da cidade, a maior parte da população de São Paulo mora nas periferias, e com a oferta de empregos e serviços concentrada na região central, o resultado é um enorme deslocamento cotidiano pouco funcional, uma cidade que não está sendo apropriada de fato.

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Acredito que parte da solução para melhorar inclusão, desigualdade, moradia, segurança, mobilidade, e tornar São Paulo mais sustentável é fazer com que as pessoas ocupem de fato a cidade, se apropriem dela – seja por meio da implantação de outras reais centralidades na cidade; ou pela apropriação de ruas antes destinadas exclusivamente a circulação de carros; seja através da promoção de eventos como as viradas culturais; ou através do graffiti; ou ainda, com a ocupação da enorme quantidade de imóveis vazios existentes no centro da cidade, especialmente com habitação para população de baixa renda.

Claro que os esforços por moradia na região central existem há bastante tempo, principalmente por parte dos movimentos sociais, e são inúmeros os desafios, sendo a especulação imobiliária talvez o maior deles, mas ainda sim, acredito que o foco principal das políticas públicas deva ser promover mistura social e incentivar as pessoas a ocupar a cidade.

A ocupação precisa se dar no espaço, no tempo e até nas superfícies da cidade. Áreas exclusivamente residenciais, por exemplo, precisam ser repensadas. O uso misto do solo é fundamental para que haja movimento de pessoas e ocupação das áreas da cidade durante os diversos horários do dia e da noite.

Não podemos nos dar ao luxo de ter espaços providos de infraestrutura urbana sendo subutilizados, nem que essa subutilização se dê apenas por um período de horas. Cidades são construídas para pessoas e são elas que devem ocupar a cidade, é através dessa apropriação mista e diversificada do espaço em tempo integral que São Paulo se tornará mais viável, humana e, de fato, sustentável.

 

São Paulo por Mariana Pabst Martins:
Mobilidade Urbana, Água e Ocupação de Espaços Públicos.


Mariana é Arquiteta e Urbanista formada pela FAUUSP // Cortesia

Mobilidade Urbana: Esse é um problema que une todas as cidades da grande São Paulo. Muita gente mora em Carapicuíba ou Guarulhos, mas trabalha no centro expandido da capital, ou vice-versa. Eu mesma por muito tempo morei nos Jardins e trabalhei em Cotia e Carapicuíba e sei que falta transporte decente. Aliás, deve ser a única megalópole que não tem uma linha de metrô ligando os aeroportos com o resto da cidade. O principal parque da cidade, o Ibirapuera, e a universidade pública, a USP, também são bastante mal servidos de transportes. Esse problema agrava a carência de moradias populares, fica inviável morar e trabalhar na cidade para a população de baixa renda. Muitas pessoas tidas como “em situação de rua”, na verdade, não têm condições de voltar para suas casas na periferia e preferem dormir na rua perto do trabalho durante a semana. A grande questão é que isso é uma atribuição do estado, não do município, e o estado tem muitas outras cidades para cuidar.

Água: A água da nossa cidade foi tão negligenciada nesse último século, emporcalhamos nossos rios e, então, os enterramos para assim termos mais terras para lotear e vender. Só agora começamos a perceber como eles nos fazem falta. Temos uma generosa rede hidrográfica enterrada na cidade que deveria ser limpa e desenterrada em diversos parques lineares, nossas nascentes deveriam ser patrimônios com placas indicativas para todos saberem que ali nasce um rio.

Ocupação De Espaços Públicos: Nossos espaços públicos são mesquinhos, precisamos de mais áreas de convívio onde as pessoas possam se encontrar sem ter de pertencer à mesma classe social. Tenho visto surgir condomínios enormes, verdadeiras cidades fechadas ao longo da Barra Funda, lugares excludentes, inviáveis para o pedestre, muros impenetráveis enormes que só fazem aumentar o medo. Tudo seria mais humano e simpático se fossem condomínios abertos com comércio no térreo onde sempre teria movimento de gente, mas parece que o status quo gosta do medo.

 

São Paulo por Patrícia Morales Bertucci:
Habitação.


Patrícia é Arquiteta, artista e doutoranda em artes na ECA-USP. Trabalha e pesquisa o conceito de espaço, com o intuito de discutir a sua produção e apropriação social // Cortesia

Nesta data, em que todas as atenções se voltam para os 463 anos da cidade, que tal aproveitarmos para pensar na possibilidade de construir propostas práticas para sua melhoria? Em uma das maiores cidades do mundo, isso não seria uma tarefa fácil. De acordo com o IBGE, a população do município de São Paulo é de 10.886.518 habitantes. Se for considerada a região metropolitana, ou seja, os 38 municípios que circundam a capital, a população chega a aproximadamente 19 milhões de habitantes.

De todo modo, não quer dizer que devemos abandonar a ideia. Ao contrário, seria necessária a criação de propostas complexas, capazes de relacionar áreas diversas como habitação, mobilidade, segurança, meio ambiente, manutenção, entre outras. Logo, é preciso uma longa elaboração, que não se constituiria apenas por medidas administrativas, vindas do governo ou da iniciativa privada, mas com a participação de toda a sociedade. Afinal, o espaço urbano é produto ou obra de sua sociedade.

Porém, existe aqui alguma coisa verdadeiramente surpreendente: para que os habitantes de uma cidade possam pensar em propostas para melhorar seu habitat, a pergunta essencial deveria ser: o que é habitar? Habitar é ocupar como residência, morar. Certamente, muitos leitores vão dizer: “estou muito ocupado para pensar nesta complexa pergunta filosófica. Tenho que me ocupar do trabalho, dos filhos, das compras e dos outros tantos problemas cotidianos”.

Pois é justamente no cotidiano que percebemos que o “habitar” se perdeu na funcionalização do “habitat”, como diria o filósofo francês Henri Lefebvre, nos seus escritos sobre as cidades e a sociedade contemporânea. Apesar disso, mais do que nunca, embora que ainda de forma indistinta, o habitar está nos filósofos, nos poetas, na brincadeira, no riso, no amor e no jogo desejante dos habitantes presentes nos espaços públicos da cidade, onde existe diversidade. Para habitar é necessário estar presente; permanecer.

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