Amor, Casamento E Divórcio

Sarah Jessica Parker retorna à televisão como protagonista da série Divorce, comédia dramática da HBO. A atriz, que estava afastada desde o fim de Sex and the City, divide o núcleo da trama com Thomas Haden Church. Os dois estão muito bem como Frances e Robert, um casal que enfrenta um complicado processo de divórcio.

Criada por Sharon Horgan (de Catastrophe), a série tem como premissa a ideia de que a história de uma separação pode revelar muito sobre o casamento que encerra. Embora o título aponte para a ideia de ruptura, os laços entre os protagonistas formam uma teia complexa. Através das personagens secundárias e de seus respectivos relacionamentos, experimentamos o tema sob diferentes perspectivas. Não se trata apenas da história de um casamento, mas talvez de um panorama do casamento como instituição.

Um dos acertos de Divorce é o fato de que os protagonistas dizem e fazem coisas horríveis, embora não sejam pessoas horríveis. Não há uma aura artificial de civilidade; há feridas abertas, mágoas e ressentimentos vivos.

Na ficção, como na vida, o divórcio deixou de ser uma ruptura da narrativa e passou, ele próprio, a integrar o enredo. Há mais de trinta anos, a escritora americana Nora Ephron causou comoção ao publicar O Amor é Fogo, romance com inspiração autobiográfica. O filme A Difícil Arte de Amar, que em 1986 eternizou a história no repertório popular: difícil encontrar quem não tenha sentido compaixão por Rachel, personagem interpretada por Meryl Streep, que, grávida, descobre que o marido tem um caso com uma conhecida do casal. Jack Nicholson, que interpreta Mark, poucas vezes foi tão odiado. O filme, dirigido por Mike Nichols, foi roteirizado pela própria autora.

Publicidade

Ao revê-lo, percebemos que era possível ter antecipado o desenrolar dos fatos desde o prólogo. Na sequência de abertura, Rachel e Mark chegam a uma igreja. Eles não se conhecem, cada um é convidado de um dos noivos. Ele se senta de um lado, ela, de outro. Através do espelho de um estojo de maquiagem, Rachel o observa. A noiva passa pelo corredor e cada um a acompanha com os olhos de onde está. Os olhares se encontram. Em seguida, Rachel pergunta aos amigos se Mark é solteiro, ao que uma moça responde: “ele é famoso por isso”. Então escutamos o padre citando um trecho da Bíblia em que o amor é alçado ao posto de indestrutível: “[o amor] suporta todas as coisas, acredita em todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas. O amor nunca falha”. A câmera mostra Rachel escutando, emocionada. Já Mark se esforça para não cair no sono.

No final do filme, descobrimos que o amor falhou miseravelmente, e Nicholson termina levando uma torta na cara. Nas telas, o tom ficou mais dramático; nas páginas, a história tem mais humor.

A pergunta que atua como gatilho para a cena da torta — é possível viver com uma pessoa por tanto tempo e não desconhecer algo essencial sobre ela? — também inspirou o romance Operação Impensável (editora Intrínseca), de Vanessa Barbara. Na introdução, antes de nos apresentar aos personagens e ao enredo, a autora faz um breve relato de uma história verídica: uma mulher foi casada com um serial killer por catorze anos, sem desconfiar da vida secreta do marido, que sempre lhe pareceu um homem gentil. A introdução dita o tom do que vamos ler em seguida.

No artigo “What ‘Divorce’ Understands About Marriage?”, publicado na New Yorker, a advogada Jeannie Suk Gersen cita Nora Ephron para falar sobre as perspectivas legais que envolvem o tema: “Nunca se case com um homem de quem você não queira ser divorciada”. Gersen faz uma breve retrospectiva histórica do divórcio e nos lembra de fatos curiosos, que dizem muito sobre a nossa cultura. Por exemplo: em Nova York, onde a série se passa, faz apenas seis anos que a ideia de divórcio “sem culpa” foi legalizada. Antes, era preciso justificar a separação com critérios objetivos, o que levava a investigações, acusações e processos ainda mais dolorosos. Para Gersen, muitas pessoas vivem seus casamentos sem pensar em divórcio. Mas aqueles que já presenciaram um divórcio podem ser perdoados por levar a hipótese em consideração e buscar prevenção legal, ainda que façam uma aposta sincera na relação.

Se atualmente podemos simplesmente alegar diferenças irreconciliáveis, foi um longo caminho até aqui. Mas Gersen lembra que, ainda assim, uma separação nunca é simples: sem culpados para a lei não quer dizer que o ex-casal não culpe um ao outro, que não tente se penalizar. É possível que o processo seja longo e arrastado: guarda dos filhos, pensão alimentícia, divisão de bens, são muitas as pontas onde a coisa pode pegar. Sobre o último aspecto, temos A Guerra dos Roses, de 1989, filme inspirado no romance homônimo de Warren Adler. No longa dirigido por Danny DeVito, acompanhamos a história de um casal, Barbara e Oliver Rose, interpretados por Kathleen Turner e Michael Douglas. O dinheiro está presente em todos os momentos da vida do casal, desde o leilão em que se conheceram. É a lógica que os orienta do começo ao fim. Preferem arriscar a própria vida a abrir mão da imensa casa onde viviam juntos, objeto de discórdia na partilha dos bens. Então a transformam em uma zona de guerra, com áreas demarcadas e confrontos físicos. Em uma das brigas, acabam presos no suntuoso lustre que desce sobre o hall. Despencam junto com ele e acabam mortos entre o cristal estilhaçado.

 

 

Parece impossível passar pelo tema tentando negar o seu peso. Atribuir ao divórcio, mesmo ao mais amistoso, uma atmosfera de leveza seria algo como retornar ao tom fantasioso do discurso de Coríntios e dos contos de fadas — uma nova idealização.

Em Divorce, o eco de Carrie, de Sex and the City, está presente, mas sem a afetação e a ingenuidade. Nesse sentido, gostei da resenha de Sarah Hughes publicada no Guardian: “Você já se perguntou o que teria acontecido se Carrie Bradshaw tivesse acabado vivendo nos subúrbios, casada, mais velha, mais triste e não necessariamente mais sábia, se equilibrando entre dívidas, filhos adolescentes e um marido abatido, que ela não ama como antes e para quem não tem ‘literalmente nada a dizer’? Se sim, a nova comédia da HBO pode ser para você”.

É difícil rever Sex and the City hoje e continuar gostando das personagens como há dezoito anos. A série, exibida entre 1998 e 2004, foi considerada feminista para o contexto de sua época, mas não envelheceu bem. Se os fãs mais resistentes podem se desencantar com Divorce, aqueles que se tornaram mais críticos talvez encontrem conforto aqui. No primeiro episódio, Frances pergunta: “Como alguém vai de um casamento feliz para o ponto de querer estourar a cabeça do outro com um tiro?”. Ela se refere à amiga Diane (Molly Shannon), que foi presa após apontar uma arma para o marido no meio de uma festa.

A pergunta faz pensar Garota Exemplar, suspense de Gillian Flynn. No romance, uma mulher desaparece na data em que completaria cinco anos de casamento. Narrado utilizando perspectivas alternadas, um capítulo é de Nick (o marido), outro é de Amy (a esposa), através de seu diário encontrado pela polícia. No melhor estilo ele-disse-ela-disse, a autora contrapõe a versão de cada um sobre os mesmos acontecimentos. Aos poucos, vamos descobrindo que pode haver uma terceira.

Como escrevi antes em artigo para o Leia Mulheres, tenho a impressão de que Garota Exemplar se tornou o sucesso que conhecemos porque a história pode ser lida como uma parábola do casamento, de modo bastante universal. Logo na primeira página, Nick diz: “Suponho que essas indagações pairem como nuvens negras acima de todos os casamentos: No que você está pensando? Como está se sentindo? Quem é você? O que fizemos um ao outro? O que iremos fazer?”. Assim, somos lançados do banal (no que você está pensando, como está se sentindo) ao trágico (o que fizemos um ao outro, o que iremos fazer). No meio, o estranhamento (quem é você), agravado por ser dirigido a quem pareceu tão próximo um dia. O sentimento de intimidade é atropelado pelo assombro diante desconhecido.

Este texto foi originalmente escrito para a newsletter Virginia. Aqui, foi adaptado e publicado com pequenos ajustes.

Gostou dessa matéria? Compartilhe.