Projeto Expõe nas Ruas a Dura Realidade da Violência Doméstica Brasileira

“Feminismo” e “empoderamento” são palavras-chaves que andam pipocando com cada vez mais intensidade nas rodas de conversa – sejam elas dentro ou fora do mundo digital. A mulher jovem tem tomado consciência da rigidez da sociedade com regras sobre seu corpo, conduta e pensamentos e tem lutado para encontrar seu espaço de fala. Entre tantas novas inspirações, na terceira onda do feminismo, é de se pensar que estamos realmente avançando. Mas será que estamos mesmo?

Com dados poucos confortantes, instituições como IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), OMS (Organização Mundial da Saúde) e CNJ (Conselho Nacional de Justiça) vêm mostrar uma realidade dura e preocupante: a taxa de violência doméstica e feminicídio no Brasil só aumentou nos últimos anos. A sociedade brasileira custa avançar na pauta: a ausência de melhorias no atendimento e suporte a vítimas por parte das instituições federais andam junto com uma sociedade responsável por normatizar a violência contra a mulher – e sempre culpar a vítima. 

Para tentar reverter esse cenário, a cada ano o número de varas e juizados exclusivos para tratar casos de violência doméstica crescem, atendendo a Meta 8 estipulada pelo CNJ. A medida foi criada a fim de fortalecer e ampliar as estruturas físicas das unidades judiciárias e o número de varas e magistrados especializados no tema. Inclui-se na meta a possibilidade de oferecer atendimento psicológico às vítimas e agressores, cursos e acompanhamento de famílias por assistentes sociais. De 2016 a 2017, o número de varas subiu de 111 para 125. No entanto, os números de Deam (Delegacia Especial de Atendimento à Mulher) ainda são débeis: segundo dados de 2016 da Secretaria de Políticas para as Mulheres, o Brasil ainda possui uma delegacia a cada 12 municípios.

 

 


 

8 a cada 24 horas

O Brasil tem o título de “um dos lugares mais perigosos para mulheres viverem no mundo”. Segundo a OMS, em 2017, foram registrados 388.263 casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, o equivalente a 8 casos denunciados por dia. Estima-se que ocorram cinco feminicídios para cada grupo de 100 mil mulheres. O aumento, comparado a 2016, é de 16%. Algumas varas ainda trabalham no recolhimento de informações, o que significa que os números registrados podem ser ainda maiores.

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Com dados tão preocupantes e pouco discutidos, um grupo de universitários decidiu colocar nas ruas a verdade nua e crua. É assim que, há dois meses, o projeto Se as Casas Falassem aborda a pauta sobre violência doméstica dentro e fora das redes. Os dados, que são sempre pregados em casas de São Paulo, são do Ministério Público, OMS e IPEA. O projeto já recebeu e aceitou pedidos de seguidores do Instagram para reproduzir as colagens em outras cidades. Catharina Mendonça, uma das idealizadoras do projeto, conversou conosco sobre a necessidade de mudar o pensamento das pessoas de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher” e sobre como a iniciativa busca fazer isso.

 

Modefica: Como surgiu a ideia do projeto?

Catharina Mendonça: Quem está por trás do projeto sou eu e mais dois amigos: o Gabriel e o Bernardo. Nós três somos publicitários e fazemos um curso numa escola de criação publicitária. Muitos dos nossos trabalhos são para propor soluções tanto para marcas quanto para causas. Em causas, nós pensamos na violência doméstica e foi então que surgiu a ideia de trazer para fora das casas uma coisa que acontece dentro delas. Decidimos por os dados na rua porque achamos que teria um impacto interessante nas pessoas.

 

M: Como é o processo de achar dados e casas para colá-los?

CM: Procuramos primeiramente os dados, depois fazemos o layout das frases, imprimimos e recortamos. A busca pelas casas acontece pelo Google Street View. Quando a casa selecionada não dá certo, vamos procurando outra na mesma rua ou região.

 

M: Qual é a reação das pessoas?

CM: Até agora só tivemos reações positivas das pessoas que nos viram colando. Elas paravam pra olhar e perguntar o que estávamos fazendo. Elas comentam coisas como “ah, é uma absurdo mesmo” porque os dados são bem alarmantes, então as pessoas que vêem também se sensibilizam com eles.

 

 

M: Você acha que a discussão sobre a violência doméstica está sendo mais posta em pauta?

CM: Está, mas acreido que ainda tem muito muito a se discutir. Não adianta nada você falar sobre isso se você não intervém. Não dá pra por a culpa na vítima ou achar que ela vai denunciar. São muitas coisas envolvidas: pode ser uma dependência emocional ou financeira do marido, pode ser “não querer destruir a família”, às vezes tem filho envolvido. Elas são muito mais dependentes do que todo mundo imagina. Tem que se meter e denunciar.

 

M: Por que vocês escolheram fazer essa ação, primeiramente, fora da internet e depois dentro dela?

CM: Acho que a ideia é partir do pensamento que muitas vezes você escuta uma briga na casa do vizinho e você não faz nada. É pra levar pra fora, pra mostrar para a vizinhança que quando você escuta alguma coisa, você pode sim fazer algo a respeito. E, aí, nós reproduzimos na internet porque o alcance é bem maior. A ideia de por na rua primeiro é para que a informação se torne ainda mais real.

 

M: Por que vocês optaram trabalhar este assunto em específico?

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CM: Porque acreditamos que, por mais que o empoderamento esteja em alta, é uma realidade com dados muito, muito alarmantes. São muitas mulheres morrendo por isso e, por mais que o assunto seja debatido, esses números não abaixam. Acreditamos que vamos conseguir amplificar a mensagem desse jeito e atingir mais pessoas. A ideia é não parar, não deixar o assunto morrer.


Para denunciar um caso de violência contra mulher, ligue 180.

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