Isso É Realmente “Natural”? Entenda Os Termos Mais Comuns Escritos Nas Embalagens Da Sua Comida

Orgânico, natural, “free-range”, “no GMO”, certificado humane, fair trade… As nomenclaturas das embalagens dos produtos que comemos costumam ser tão complexas e variadas quanto a dos produtos cosméticos que compramos. Porém, tenho a leve impressão que elas chegam ser até mais confusas para a maioria das pessoas que ainda não entenderam muito bem como funciona a indústria alimentícia, seus rótulos e seu marketing.

O primeiro passo para descomplicar rótulos e comprar comida de maneira consciente é entender que grandes corporações alimentícias têm ações na bolsa de valores e precisam que seus produtos vendam (muito). Como Marion Nestle elucida em seu livro What To Eat (2007) (não tem versão em português, mas quem lê em inglês precisa ter em casa), as empresas precisam mostrar aumento de vendas a cada 90 dias e, se isso não acontece, um CEO é demitido.

O que colocamos na mesa para nós e para nossas crianças é igual a um grande cifrão e não há limites quando o assunto é manter um cargo milionário e as vendas crescendo. A autora explica que: “Para as empresas de alimentos, isso (esse crescimento constante dos lucros) significa lançar novos produtos, identificar onde os consumidores estão gastando seu dinheiro e, em seguida, fazer qualquer coisa para entrar nessa ação. Eles têm influência, dinheiro, fazem muito lobbying, e muitas vezes vão fazer de tudo para descaracterizar – ou ampliar – o escopo de um determinado termo (como “orgânico”, por exemplo), a fim de fazer seus produtos se encaixarem nessa definição. Isso pode ter como consequência, a longo prazo e na melhor das hipóteses, uma clientela confusa com termos e, na pior das hipóteses, termos completamente sem sentido”, explica a autora.

A melhor solução de todas é: fuja de produtos que pertençam a grandes corporações sempre que possível. Compre em feiras locais, direto do produtor, produtos que têm o selo de agricultura familiar, prefira produtos à granel e valorize o produto de empresas menores. Porém, nem sempre dá para fugir de uma Nestlè ou Pepsico, nós sabemos, por isso é importante que você entenda o rótulo e os selos nas embalagens dos produtos.

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Para isso, nós fizemos uma lista bem prática e simples que vai desmistificar algumas crenças populares sobre cada selo e nomenclaturas, e explicar se você pode confiar neles ou não.

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(Para Produtos Vegetais)

O Que Deveria Significar?

100% orgânico, sem sementes transgênicas, sem pesticidas ou herbicidas; sementes e alimentos não foram irradiados, e não foram utilizados fertilizantes sintéticos.

O Que De Fato Significa?

– Selo Orgânico Brasil: Todas as coisas acima. Não é permitido o uso de substâncias que coloquem em risco a saúde humana e o meio ambiente. Não são utilizados fertilizantes sintéticos solúveis, agrotóxicos e transgênicos.

Para ser considerado orgânico, o produto tem que ser produzido em um ambiente de produção orgânica, onde se utiliza como base do processo produtivo os princípios agroecológicos que contemplam o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais.

– Selo USDA Organic: Todas as coisas acima. O selo orgânico mais rigoroso do mundo é o americano USDA. Empresas brasileiras que exportam seus produtos, e produtos importados orgânicos, normalmente contêm esse selo, que é extremamente burocrático e oneroso para conseguir.

– Selo Mercado Comum Europeu: Todas as coisas acima. Para produtos orgânicos importados da Europa ou para produtores que queiram exportar para UE.

Ecocert: Todas as coisas acima. A organização francesa com sede também no Brasil atua desde 1991 em pró da produção orgânica e do plantio responsável.

Não confunda produto orgânico com produto light ou diet! É um erro comum e tem muita gente acreditando e espalhando a ideia que produto orgânico é sosso, sem sabor e destinado ao público fitness. Isso é uma falta de informação tremenda. Existe açúcar orgânico, por exemplo, e ele não é nem light, nem diet, nem adoça menos que o açúcar convencional. A diferença do produto orgânico está no cultivo e no impacto que ele gera nas pessoas e no meio ambiente.

Por Que Se Importar?

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Enquanto as grandes monoculturas tradicionais destroem o ambiente onde estão sendo cultivas, o plantio orgânico tenta recuperar os danos. Segundo o próprio Ministério da Agricultura, “o Brasil, em função de possuir diferentes tipos de solo e clima, uma biodiversidade incrível aliada a uma grande diversidade cultural, é sem dúvida um dos países com maior potencial para o crescimento da produção orgânica”. Vale ficar atento porque, na teoria, na embalagem de um produto não pode simplesmente estar escrito “orgânico” sem que ela tenha o selo. Você pode saber mais aqui e aqui, e mais embaixo quando falamos sobre os transgênicos.

(Para Produtos Animais)

O Que Deveria Significar?

Que os animais tiveram uma vida feliz e saudável, correram em pastos, se organizaram em sociedade e formaram famílias antes de chegar no abate. Eles não foram alimentados com transgênicos ou coisas nocivas à saúde, e também não foram entupidos de hormônios como os produtos de origem animal não orgânica.

O Que De Fato Significa?

Apenas que os animais não comeram ração transgênica e não foram criados com hormônios e antibióticos. Existe um mito social espalhado por aí que produtos orgânicos de origem animal são iguais a produtos orgânicos de origem animal livre de crueldade. Isso é um tremendo enganado. Deixando de lado todas as questões que envolvem o termo “criação e abate humanizado”, nunca se esqueça que o certificado orgânico se refere apenas ao tipo de alimentação do animal (que tem que ser orgânica e pode ser milho e soja orgânicos, não necessariamente pasto) e a uma criação livre de hormônios e remédios nocivos. Mais nada.

Por Que Se Importar?

Porque é importante entender, de verdade, o produto que você está comprando. Se você come carne ou derivados de animais, opte pelo orgânico se puder, a produção orgânica é inegavelmente melhor se comparado à produção tradicional de carnes, mas entenda que o selo orgânico nada tem haver com bem estar animal.

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O Que Deveria Significar?

O termo natural nos remete a algo que vem direto da natureza, bem no estilo “da horta do tio do sítio para a nossa mesa”, certo? Sem químicos, sem agrotóxicos e sem um monte de coisa nociva para a saúde. Pois esqueça completamente essa ideia.

O Que De Fato Significa?

Nada. É mais um termo sem controle e qualquer um pode escrever isso na embalagem de qualquer produto alimentício, mesmo que ele contenha pesticidas, corantes e xarope de milho com alta concentração de açúcar. Um exemplo? Ketchup. Quantos ketchups você deve ter visto por ai com o termo “natural” e se for ler com atenção os ingredientes vai ver que, a maioria deles, contém xarope de milho com alta concentração de açúcar.

Por Que Se Importar?

Se uma empresa está tentando me passar para trás e utilizando o greenwashing de maneira descarada para pegar minha grana, eu definitivamente não vou apoiá-la.

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O Que Deveria Significar?

“Comércio justo” em todas as suas formas. Trabalhadores ganham bem, têm condições justas de trabalho e são tratados com responsabilidade.

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O Que De Fato Significa?

Realmente que aquele produto que tem o selo da Fair Trade International foi produzido com ingredientes de comércio justo. A organização coloca uma série de padrões que precisam ser alcançadas para ceder o selo fair-trade à empresa e ao produto. Porém, isso no Brasil é um grande desafio, pois nas produções fair-trade não é permitido (obviamente) trabalho infantil, o que é culturalmente muito comum nas plantações nacionais.

Cacau, açúcar, soja e arroz são os produtos nacionais com maior taxa de mão de obra escravista. As alternativas acabam se resumindo a produtos orgânicos, que já garantem uma série de altos padrões ao fornecer o selo à empresa, ou produtos importados que têm o selo.

Vale notar que o selo fair-trade não garante uma produção livre de agrotóxicos e com qualidade e padrões certificadas pelo selo “orgânico”. Um dos motivos pelos quais há um debate contínuo sobre selos “fair-trade” serem concedidos a grandes produções, especificamente nos EUA onde os critérios de fair-trade ganharam visões opostas, e selos diferentes. A dica é ficar com o FTI.

Por Que Se Importar?

Ter garantia que o produto, antes de chegar às minhas mãos, fez de tudo para construir uma sociedade melhor é motivo suficiente para apoiar o selo da FTI e querer que ele chegue ao maior número de produtores possível. Quando você apoia o produto com o selo, você apoia a prática Fair-Trade.

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O Que Deveria Significar?

Primeiro, é importante entender que GMO significa Genetically Modified Organisms, em tradução livre “organismos geneticamente modificados”. No Brasil, transgênico. São, maioritariamente, produtos de origem vegetal que tiveram seu DNA modificado para resistir a pesticidas, infestações, e tudo que interfira negativamente na produção. Se um produto tem o selo “No-GMO Verified” quer dizer que ele não tem ingredientes transgênicos.

O Que De Fato Significa?

Que comprar um produto selado NO-GMO é a garantia que o produto que você está comprando é totalmente livre de transgênicos. Soja, canola, milho e algodão são as plantas geneticamente modificadas mais comuns do mercado.

No Brasil, a alternativa mais comum é procurar produtos com o selo “orgânico”, já que um dos quesitos para a obtenção do selo é não usar produtos de origem transgênica.

Por Que Se Importar?

Sem entrar nas questões da nossa saúde quando nos alimentamos com produtos transgênicos, é imprescindível levar em consideração o monopólio estabelecido pelas grandes produtoras de sementes geneticamente modificadas como DuPont e Monsanto, e o impacto negativo que esse monopólio causa na vida dos pequenos e médios produtores. Indicamos, mais uma vez, o documentário “O Veneno Está Na Mesa”, que você pode ver online aqui, para entender melhor sobre essas questões. Quanto menos transgênico, melhor.

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O Que Deveria Significar?

Produtos livres de ingredientes de origem animal – inclusive os chamados subprodutos como mel, leite, ovos, etc.

O Que De Fato Significa?

Nessa caso, é a mesma coisa. As certificações vegans para alimentos são as mesmas que para os cosméticos (Vegan Society e Vegan Action), e esse termo é mais difícil de ser usado de maneira aleatória, até porque muitas pessoas alérgicas recorrem a produtos veganos quando se trata de alimentação, então as empresas costumam ser mais cuidadosas.

Por Que Se Importar?

Os animais têm comportamentos sociais, são seres sencientes e dotados de instintos naturais que nós, humanos, desconhecemos. Animais criados para o abate têm todos os seus direitos naturais privados e passam uma vida de dor e sofrimento. Além do mais, a criação de animais para consumo é uma das maiores responsáveis por impactos ambientais devastadores.

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O Que Deveria Significar?

“Free-range” significa, em tradução literal, algo como “rancho livre”. A ideia desse termo é dizer que os animais foram criados em pasto solto, de maneira natural, puderam se exercitar e viver uma vida boa.

O Que De Fato Significa?

Nada. Por mais triste que possa parecer, o termo “free range” ou “criado solto” pode ser usado por qualquer um. Não há um padrão legal que estabeleça as condições ideais para produtos animais que se proclamam “free-range”.

Por Que Se Importar?

Porque é um termo completamente sem fundamentos, que não diz absolutamente nada. É a mesma premissa do termo “natural”: greenwashing deslavado e mentiroso. Quando você compra produtos “free-range” você compra uma inverdade, uma falsa sensação de produto não cruel.

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O Que Deveria Significar?

Certified Humane significa algo como “tratamento humanizado certificado”. As pessoas acreditam que o selo garante que os animais foram criados livres, tiveram oportunidades de se organizar em “sociedade” da mesma forma que fariam se não fossem criados para o abate, e foram alimentados corretamente, sem ingredientes de origem animal ou ração – que naturalmente não fazem parte da sua dieta.

O Que De Fato Significa?

Nada dessas coisas acima. Os padrões de “certificado humano” garantem apenas que os animais viveram em uma gaiola de cerca de 0,9 metros quadrados. Superlotar gaiolas, assim como cortar o bico dos frangos fora para evitar as brigas frequentes pelo alto stress da falta de espaço e pela privação do seu comportamento social natural, também é permitido.

Por Que Se Importar?

Porque é mentira e o certificado espalha a falsa ideia de que os animais tiveram uma vida plena antes de serem abatidos. O selo nos faz acreditar também que a empresa realmente se importa, quando, na verdade, ela sabe que o selo não significa nada e não vê problema nenhum em enganar os consumidores para conseguir vendas. O meu posicionamento: eu não vou permitir que com o meu dinheiro a empresa continue com suas práticas mentirosas.

Conclusão?

Como falamos acima, sabemos que fugir dessas amarras da indústria alimentícia não é tão fácil. Mas entender e se interessar sobre o assunto é um passo importantíssimo. Depois disso, repense o que é caro e o que não é. Muita coisa popularmente conhecida como “cara”, às vezes, não é. Existe uma série de livros e pessoas que provam que a alimentação balanceada por ser super em conta, gastando menos de 8 reais por refeição.

Aproveite o poder das redes sociais e siga pessoas inspiradoras e que entendem de alimentação saudável, e, mais importante, consciente. A maioria delas dão dicas de receitas que podem ser feitas em casa a preços bem amigos, além de sugestões de como comer melhor, gastar menos e não incentivar o consumo dos industrializados. Paula Gandin, The Veggie Voice, Vegetarirango, Bela Gil, João Gordo, nós aqui do Modefica. Tem muita gente na ativa provando que é sim possível independente de cor, raça, gênero, e posicionamento político se alimentar de maneira consciente, entendendo o impacto da indústria alimentícia direta ou indiretamente nas nossas vidas.

Como falou Elettra Wiedemann em sua matéria sobre o assunto no Refinery 29, lembre sempre que “cada vez que você compra um produto, você está lançando um voto. A melhor maneira de lutar contra um sistema onde os alimentos processados não saudáveis são mais baratos do que os alimentos não processados saudáveis é a compra. Apoie os produtos que você quer ver com mais frequência e a preços melhores nas prateleiras, e abstenha-se de comprar as coisas que você não apoia”.

Imagens: Time Modefica

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