Sementes Negras Busca Na Autoestima Um Caminho Para O Empoderamento

Desde julho desse ano, Bárbara Albuquerque procura empoderar mulheres negras através da fotografia, com o projeto Sementes Negras. A ideia veio quando Bárbara percebeu um denominador comum na dificuldade de mulheres negras se sentirem bonitas: a baixa autoestima, muito ligada ao racismo, o preconceito na escola, na pré-adolescência. “Eu vi meninas maravilhosas se sentindo mal e peguei pra mim. Pensei ‘eu preciso fazer alguma coisa’”, relata Bárbara.

Foi aí que o hobby de fotografar se alinhou à ideia de enfatizar a beleza da mulher negra: “Pegar um momento especial, faze-las se sentirem bonitas e mostrar pra elas que elas são lindas e importantes”, afirma a fotógrafa, que vê na mídia, principalmente na publicidade, uma grande falta de representatividade da mulher negra. Conversamos mais com Bárbara sobre seu projeto.

Você pode contar um pouco sobre a série Sementes que Florescem?

Sementes que Florescem foi uma ideia que eu tive de apresentar as meninas do projeto para o público. Eu queria mostrar que elas não são um rosto, que elas têm identidade, que passam por problemas da solidão da mulher negra e de racismo. Elas precisam mostrar essa voz para as pessoas e, ao fazer isso, outras mulheres vão se identificar com elas, porque em vários posts do Sementes que Florescem a gente recebeu comentário como “nossa, você me descreveu”, “nossa, já passei por isso”. É tanta coisa que a gente tem em comum, que a vontade é de se abraçar e dizer “a gente tá aqui, vocês não estão sozinhas”, sabe?

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E essas mulheres que você fotografou, como você chegou até elas?

Eu cheguei nelas através do grupo AFROtombamento. Foi nesse grupo onde eu comecei a ver esses posts das meninas não se sentindo bonitas, se sentindo solitárias. E foi nesse grupo que eu comecei a expor essa ideia. Eu falei “gente, eu tô pensando em começar a fazer um projeto sobre empoderamento negro através da fotografia e eu queria saber se vocês topam” e, pra minha surpresa, várias meninas toparam. No primeiro ensaio tinha 6, no segundo 11.

O que te inspira no dia a dia a continuar com o projeto?

Nossa, tantas coisas. Olha, eu vou te dizer que quando eu fiz o primeiro ensaio, uma das meninas fazia química no cabelo há muitos anos. E teve uma hora que ela me chamou no canto e falou pra mim, “Bá, eu queria te dizer que essa é a primeira vez que eu tô saindo com meu cabelo sem chapinha, ao natural, ele ainda tá com química. Eu queria mostrar no ensaio como ele tá atual e eu vou começar a transição, foi o projeto que me ajudou a fazer isso”. E a mãe dela ficou falando um monte de coisa linda pra mim, “ai, você fez tão bem pra minha filha”.

Ver esse tipo de reação me deu uma força pra continuar, porque se eu consegui fazer isso com uma pessoa, já me aquece o coração de uma forma que eu falo “tá ok, já valeu tudo a pena”. E também a questão de unir essas meninas, porque a gente tem a dificuldade de ter um grupo de mulheres negras pra falar com alguém que te entende, que já passou por aquilo, que não vai falar que é “mimimi”. A gente precisa desse contato, dessa troca.

Você tem planos futuros para o projeto?

Como o Sementes surgiu como uma ideia de empoderamento e representatividade, eu estava pensando junto com as meninas em ver se conseguimos fazer uma biblioteca itinerante. Essa biblioteca seria composta de livros mais voltados para o público infantil, em que os protagonistas são negros. A ideia é entrar nas escolas da periferia, contar um livro para as crianças e no final deixar elas pegarem os livros que quiserem ler. Enfim, essa iniciativa surgiu com a ideia da representatividade porque na infância a dificuldade que a gente tem de entender essa representatividade é enorme. Quero desenvolver logo, porque as nossas crianças precisam muito disso. Em relação às fotos, minha ideia de expansão é justamente agregar mais meninas no grupo sempre.

Quais outros grupos, projetos e iniciativas você acompanha e recomenda?

De fotografia focada em empoderamento negro tem o Afroclick, um projeto muito lindo, com uns ensaios maravilhosos. No sentido de resistência, eu indico a página Mulheres Negras Resistem, eles postam lá desde matérias, vídeos, tudo sobre mulheres negras, as dificuldades, o racismo, a misoginia, tem várias ensaios super maravilhosos. Tem uma outra, o Elogie uma Irmã Negra, que é basicamente uma página de puro amor. E o Geledés.

Imagens: Reprodução

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