Sobre os Ossos dos Mortos: Romance de Olga Tokarczuk Revolve Feridas Profundas do Nosso Tempo

Uma mulher vive sozinha em uma pequena vila na divisa da Polônia com a República Checa no meio da floresta. Quando um vizinho morre engasgado com o osso de uma corça que havia cozinhado para o jantar, uma série de acontecimentos estranhos passa a se desenrolar na região, mobilizando os poucos habitantes do local, que se veem envolvidos numa trama policial tragicômica.

Com essa premissa, a escritora polonesa Olga Tokarczuk, laureada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2018, construiu um dos romances mais interessantes e originais do início do nosso século: Sobre os ossos mortos, publicado originalmente em 2009, chegou ao Brasil dez anos depois pela editora Todavia, com tradução de Olga Bagińska-Shinzato.

O livro de Tokarczuk tem sido lido como uma “fábula filosófica sobre a vida e a morte” (New York Times). Também é um suspense policial e uma comédia de erros misturada à crítica cultural, talvez um pouco como os irmãos Coen fazem no cinema. Adaptado pelas cineastas Agnieszka Holland e Kasia Adamik (com roteiro da própria autora em conjunto com Holland), o romance deu origem ao filme Rastros (Pokot, 2017) — uma releitura interessante, que flerta mais com o drama e o lirismo do livro do que com o estranhamento e com o humor sombrio.

Narrado em primeira pessoa pela sra. Janina Dusheiko, o romance pede a quem o lê um exercício de uma alteridade radical. Para acompanhá-la em seus sentimentos e raciocínios peculiares, é preciso que estejamos dispostos a nos aproximar de seu mundo interno singular, de sua lógica própria, e que a gente vá tentando se desvencilhar, tanto quanto possível, das defesas habituais — desafio árduo para muitas pessoas, que se veem confrontados com suas próprias limitações.

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Mas, quem vence a dificuldade de identificação das primeiras páginas tem a oportunidade de conhecer um outro mundo de riqueza ímpar. Em resenha publicada na Folha de S.Paulo, Camila von Holdefer escreve que “Tokarczuk providencia um mergulho completo na subjetividade da personagem. Mais do que uma narrativa tradicional em primeira pessoa, a autora constrói um mundo interno que depende não só de uma linguagem própria, mas de uma espécie de (por mais absurdo que possa parecer) mitologia privada”.

Olga Tokarczuk foi laureada com o Nobel de Literatura de 2018 // Foto: Divulgação

Nascida em 1962, Tokarczuk é formada em Psicologia pela Universidade de Varsóvia: “Li pela primeira vez Além do princípio do prazer, de Sigmund Freud, quando era garota, e o livro me ajudou a compreender que existem milhares de jeitos possíveis para interpretar nossas experiências, que tudo possui significado e que a interpretação é a chave da realidade. Este foi o primeiro passo para que eu me tornasse uma escritora”, conta em texto publicado no Guardian, em que também menciona o historiador Yuval Noah Harari, de Sapiens e Homo Deus, como uma de suas referências literárias. Por essa obra, a autora, também conhecida pelas ideias feministas e ambientalistas, chegou a ser acusada de eco-terrorismo.

Vegetariana como Tokarczuk, a sra. Dusheiko se entende melhor com os animais do que com a maior parte das pessoas, e nos apresenta teorias no mínimo inusitadas. Muitas dessas passagens acabam sendo genuinamente engraçadas, mas, em outros momentos, a narradora parece enxergar o mundo com uma luz tão rara que, talvez por isso, acabe se assemelhando à loucura.

Em certa ocasião, o carteiro vem lhe entregar uma correspondência e, ao chegar em sua casa, ironiza: “— E aí, como é viver numa torre de marfim, isolada dos meros mortais, com o nariz nas estrelas?”. Então ela se volta para nós, ou para si mesma, em uma de suas muitas digressões e monólogos interiores, e comenta: “Não suporto isso nas pessoas — essa ironia fria. É uma postura muito covarde; tudo pode ser ridicularizado, desrespeitado, não é preciso se envolver em nada ou estabelecer qualquer laço. (…) Os irônicos sempre têm uma visão de mundo da qual se gabam triunfalmente. Entretanto, se alguém começa a insistir e os questionar sobre os pormenores, descobre-se que ela é composta de trivialidades e banalidades”.

Conforme a leitura avança, descobrimos que a sra. Dusheiko é uma professora aposentada que passou a dar aulas de inglês para crianças, a quem prefere aos adultos, pois enquanto elas estariam abertas a outras formas de perceber e conhecer o mundo, nós acabamos tão absortos pela normatização da cultura — que nos contorna e nos engessa —, que deixamos de ver e de pensar por conta própria. Para a narradora, nem mesmo aos nomes que recebemos deveríamos nos conformar. Por isso, prefere escolher apelidos que se encaixem melhor às pessoas e às coisas. Em seu entorno, tudo está sempre em revista, ou tudo está sendo visto como se pela primeira vez — e cada coisa a maravilha, abisma, enternece ou indigna.

Durante o inverno rigoroso na Polônia, ela também é responsável por cuidar da casa dos vizinhos que preferem passar a estação aquecidos na cidade. Essas casas vazias acabam tomadas por animais — uma por uma grande família de morcegos, outra por um grupo de martas. “As martas são belos animais. Poderiam estar no meu brasão, caso surgisse essa necessidade. Parecem ligeiras e inocentes. Contudo, apenas aparentemente. Na realidade, são criaturas perigosas e astutas”, diz a narradora, enquanto parece estar falando algo de si mesma.

Em geral, embora sofra de algumas “moléstias”, a sra. Dusheiko gosta de estar sozinha, encontrando prazer em pouquíssimas companhias, como a de um antigo aluno querido, Dionísio — a quem chama de Dísio —, que acompanha/orienta na tradução de poemas escritos por William Blake, poeta e artista inglês nascido no século 18. O título do romance, Sobre os ossos dos mortos, também é retirado de um poema de Blake, assim como as epígrafes tão bonitas que abrem cada capítulo.

Também descobrimos que, no passado, a sra. Dusheiko havia sido engenheira responsável por construção de pontes. Se pensarmos bem, é isso o que ela continua fazendo, à sua própria maneira, agora na velhice: construindo pontes que unem mundos separados, quer seja entre dois idiomas (como professora e como tradutora), quer seja como uma espécie de intérprete humana do mundo dos animais, enraivecida pelo tratamento que a humanidade dá à natureza.

Em meio à narrativa de uma série de crimes, que se embaralham numa teia que revela a corrupção de diferentes instâncias de empresários e autoridades locais, de guardas-florestais a policiais, a sra. Dusheiko vai fazendo uma imersão cada vez mais profunda numa crítica que parte de uma outra epistemologia, de uma outra visão de mundo. Com habilidade, Tokarczuk nos confronta com os nossos próprios pré-conceitos e com os pré-conceitos estabelecidos pela cultura antropocêntrica, enquanto também vai tecendo alegorias que representam e emparelham diferentes formas de violência e de desamparo.

“Um cão com dono e esfomeado/Prediz a ruína do estado”, diz um verso de Blake citado no romance, retirado de um dos poemas mais bonitos do autor, “Auguries of Innocence” (“Augúrios da Inocência”). No original: “A dog starvd at his Masters Gate/ Predicts the ruin of the State”. No século 18, Blake já observava com desencanto os termos da relação que os seres humanos estabeleceram com os não humanos. A própria divisão que coloca cultura e natureza em pólos opostos já se mostrou muito problemática em seu esquematismo artificial. As catástrofes ambientais e as pandemias virais que permeiam o Antropoceno (como alguns cientistas chamam a era geológica marcada pela ação humana) são sintomas de um mal muito mais antigo e mais profundo.

Com habilidade, Tokarczuk nos confronta com os nossos próprios pré-conceitos e com os pré-conceitos normatizados pela cultura ocidental, enquanto também vai tecendo alegorias que representam e emparelham diferentes formas de violência e de desamparo

Em A insustentável leveza do ser (1984), romance de Milan Kundera, há uma passagem que se tornou emblemática justamente porque propõe uma digressão filosófica de ordem ética que vale retomar aqui: “O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo unânime, mesmo durante as guerras mais sangrentas. (…) A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa a nosso olhar), são as relações com aqueles que estão à nosso mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras”.

Seguindo esse pensamento, portanto, o verdadeiro teste moral da humanidade — o que ele chama de “mais radical” — são as relações que estabelecemos com aqueles que estão “à nosso mercê”. Para o narrador de Kundera, está aí o maior desvio dos seres humanos, a “derrota fundamental da qual decorrem todas as outras”. A profundidade da reflexão provocada pelo narrador se ofusca diante da gravidade com que as consequências desse fracasso ético, e de todos os tantos fracassos que se seguiram a ele, acaba agora se impondo. Entusiasmados com a ideia de dominar a natureza para que pudessem se proteger dela, os seres humanos perderam a medida e, há muito, passaram a atacá-la.

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Pois bem. Se não por ética, existem muitas outras razões para repensar os termos em que tal relação foi estabelecida. O que não faltam são argumentos contra essa forma de vida predatória. Há poucos dias, a revista Scientific American publicou um artigo que defende a importância da mudança de padrões de alimentação para evitar novas pandemias como a de COVID-19. O tema, resgatado por Paul Shapiro, retoma algo que o American Journal of Public Health publicou num editorial de 2007 argumentando que as criações e abates de animais poderiam ser a causa da próxima pandemia global: “É curioso, portanto, que mudar a maneira como os humanos tratam animais — basicamente, acabando com o consumo de carne (…) — está longe do radar de medidas preventivas significantes”.

No artigo, Shapiro também cita Michael Greger, autor do livro Bird flu: a virus of our own hatching (2006) — algo como Gripe aviária: um vírus que nós mesmos chocamos —, que descreve a indústria agropecuária como um ambiente perfeito para a propagação de doenças infecciosas: “Se alguém realmente quiser criar pandemias globais, então crie uma fábrica agrícola”, alerta Greger. Para Shapiro, as “condições em que mantemos os animais atualmente — reunindo dezenas de milhares de animais, asa com asa, focinho com focinho — servem como ‘amplificador’ para pandemias virais”. Em Contágio (2011), filme de Steven Soderbergh, um dos personagens argumenta que o vírus responsável pela gripe aviária seria uma arma perfeita se alguém quisesse espalhá-lo, ao que outro responde: nós não precisamos fazer isso, as aves já estão fazendo por nós.

Aliás, rever o filme nesse momento pode ser uma experiência inquietante. Para além das muitas coincidências, os dilemas éticos e políticos enfrentados são praticamente os mesmos de hoje (a importância do fomento à ciência, o perigo da indústria fake news e das teorias conspiratórias). Mas a discussão que infelizmente corre à margem, embora a questão seja central, é a que está na origem de todo o drama a que assistimos, e que está diretamente relacionada não apenas às relações exploratórias que estabelecemos uns com os outros, seres humanos, mas também às relações que estabelecemos com os animais, com a natureza.

O final do filme faz questão de ilustrar, de forma quase didática, qual é a origem do mal. Mas estamos tão entusiasmados com a boa notícia de uma vacina, como se a página pudesse ser virada, que voltamos a negligenciá-la. Em Epidemia (1995), filme de Wolfgang Petersen, algumas dessas mesmas tensões também estavam presentes de um modo assombrosamente realista, ainda que numa história fantasiosa repleta de reviravoltas e clichês hollywoodianos.

Talvez, naquela altura, como em tantas outras, a maior parte de nós tenha escolhido acreditar que havia sido uma exceção, um infortúnio raro, ou, tenha preferido demonizar alguns animais e culturas, como se o problema estivesse neles, e não em nós. “É fácil para nós, do mundo ocidental, abanarmos a cabeça para os mercados de animais selvagens vivos na China que parecem ser a origem da pandemia do coronavírus que agora paralisa o globo inteiro. Fácil, diga-se, porque é uma prática tão estranha a nós. (…). Mas é mais difícil sermos honestos conosco mesmos sobre quais as pandemias que podemos estar preparando devido a maneira como usamos os animais”, escreve Shapiro.

Hoje, com um pouco mais de campo amostral, temos condição de enfrentar esses dados tão robustos com mais responsabilidade. Ainda que a denegação pareça um caminho mais confortável, está aí a realidade exigindo mudanças importantes e urgentes, anunciando, em letras garrafais, a impossibilidade incontestável de sustentar nossas vidas nessa toada.

O perigo é de que, uma vez que tenhamos a impressão de estar a salvos novamente (como nunca estivemos), voltemos a nos esquecer que essa ilusão de estabilidade está alicerçada num terreno tão pantanoso que pode — e vai — voltar a ceder, caso a humanidade continue operando nessa marcha, sempre em frente, sem hesitar.

“Dou voltas em torno da casa, traço trilhas em sentidos opostos. Acontece de eu não reconhecer meus próprios rastros sobre a neve e então pergunto: quem andou por aqui? Quem deixou essas pegadas? Acho que é um bom sinal não se reconhecer”, diz sra. Dusheiko que, em sua excentricidade, tem algo tanto de tola quanto de sábia. Talvez seja hora de nos estranharmos para que, quem sabe, possamos nos conhecer.

 

Título: Sobre os ossos dos mortos (2019)
Autora: Olga Tokarczuk
Editora: Todavia
ISBN-10: 6580309695
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