(Ainda) Precisamos Falar Sobre Transição Capilar: A Importância Do Lugar De Fala Das Mulheres Negras

Em pouco tempo, o movimento pelo cabelo natural no Brasil cresceu, e cada vez mais mulheres têm tomado coragem de abandonar a chapinha e os alisamentos químicos para alcançar o sonho de assumir seus fios naturais. Consequentemente, a mídia e a indústria de cosméticos perceberam este fator social e começaram a tratá-lo de modo superficial, somente como uma tendência, a fim de conseguir visualizações e vender produtos.

Como jornalista de formação, tenho observado que o tema logo passou a ser tratado de forma rasa e até glamurizado pela mídia. Como administradora do grupo Olgas e Cacheadas, sobrevivente de uma transição capilar e mulher negra e cacheada assumida, preparei algumas reportagens especiais para o Modefica com o objetivo de falar sobre o assunto de forma mais realista e profunda, expondo os lados obscuros desse processo, a fim de preparar e orientar quem está iniciando essa jornado. Queremos falar sobre dúvidas e dificuldades comuns e que não são naturalmente tratadas pela mídia. Nessa primeira matéria, vamos falar sobre a importância da mulher negra como protagonista do movimento. 

Que tipo de informação se encontra sobre cabelo e beleza naturais? 

Na teoria, a transição capilar é bem simples: trata-se de um processo de crescimento do cabelo, para abandonar de vez quaisquer tipos de químicas utilizadas para alisamentos e assumir os fios naturais. Para alcançar esse objetivo, você deixa a raiz crescer sem retoques, até que ela não seja mais só raiz, tendo um cumprimento suficiente para cortar os fios ainda alisados que remanescem nas pontas.

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Mas, na prática, a transição capilar é um processo difícil, que exige muito empenho e cuidados constantes para o que pode ser um longo período de inseguranças e baixa autoestima. Eu costumo dizer, com base na minha experiência e de outras mulheres com quem conversei sobre o assunto, que a mudança precisa começar de dentro, para que seja mantida do lado de fora, do lado estético.

Para as mulheres negras, assumir seu cabelo natural é ir contra rituais que atendem àquele padrão de beleza europeu e confortável que nos ajuda a sermos aceitas. Para muitas de nós, o alisamento nunca foi uma opção estética escolhida somente por nosso próprio desejo, mas sim uma imposição social disfarçada de “cuidado”. Aprendemos desde cedo que alisar é igual a cuidar do nosso cabelo “ruim” e também uma maneira de nos proteger contra o racismo.

Claro que os padrões do cabelo perfeito também atingem mulheres brancas que não nasceram com os fios completamente lisos. E a transição capilar pode ser um processo doloroso para todas, afinal de contas, isso faz parte do processo de aprender a amar seu próprio corpo como ele é. E isso é revolucionário.

Na prática, a transição capilar é um processo difícil, que exige muito empenho e cuidados constantes para o que pode ser um longo período de inseguranças e baixa auto estima

Entretanto, refletindo um pretenimento que começou na web, a mídia e a indústria tem apostado em blogueiras brancas ou de pele mais clara para falar de cachos. Um grande exemplo disso é a última propaganda da Seda para divulgar um produto destinado a cabelos cacheados, onde foram escolhidas 11 embaixadoras para representar a marca. Somente duas são mulheres negras.

O casting da propaganda da Seda reflete o quanto as mulheres de pele clara se destacam até para falar de cabelo crespos e cacheados, que é uma característica, geralmente, de pessoas negras. E, já que a carta da miscigenação é tão utilizada no Brasil, vale lembrar que é importante dar destaque a youtubers e blogueiras negras para que outras mulheres negras encontrem conteúdo sobre pele e cabelo mais parecidos com os seus e sintam-se representadas.

O que o YouTube não mostra, os grupos no Facebook contam

Tendo desistido do processo de transição capilar duas vezes, a estudante de direito Gabriela* pôde sentir a diferença entre a teoria e a prática da transição. Ela conta que a reação do namorado na época foi o primeiro incentivo para abrir mão da transição e do seu cabelo natural. Ele a ajudou a criar um novo padrão inalcançável para ser seguido. “Por causa dele, eu achava que nunca ia conseguir ter o cabelo parecido com o das meninas do YouTube que eu assistia para aprender mais sobre cabelo cacheado”, lembra.

Gabriela estava no quinto mês sem alisamento, a raiz já estava aparecendo e só ouvia desencorajamentos do namorado e da família. Não demorou muito para ela voltar ao salão e fazer progressiva de novo. Nos meses seguintes, Gabriela teve que lidar com o arrependimento de ter alisado e com um relacionamento que logo percebeu ser abusivo e, em suas palavras, “mais tóxico que a química na minha cabeça”.

Mesmo depois de terminar o namoro, Gabriela não conseguiu encontrar forças para continuar a transicionar. Ela conta que gastou muito dinheiro com produtos tentando ondular as pontas lisas e até sua raiz crespa. “Eu não aceitava o que minha raiz já me mostrava, que meu cabelo não tinha cachinhos abertos e definidos. Eu tentava mudar a textura a qualquer custo”, lembra.

Ela então desistiu da transição mais uma vez quando recebeu uma chance de estágio. “Eu seria a única negra em um escritório de direito. Nessa área, meu tipo de cabelo é sempre considerado desarrumado ou antiprofissional”, argumentou a estudante. “No fim das contas, não tinha nada nas histórias delas [das youtubers que falam de transição capilar] sobre como lidar com a rejeição, só sobre como ter o cabelo definido e perfeito”, argumenta a estudante.

Então Gabriela buscou apoio em grupos sobre transição capilar no Facebook. Lá as histórias eram reais. “Reconheci e abracei minha identidade. Entendi que não precisava da afirmação de ninguém para me sentir bonita”.

No fim das contas, não tinha nada nas histórias delas sobre como lidar com a rejeição

De acordo com Katarina Mendes, uma das administradoras da página e do grupo Faça Amor, Não Faça Chapinha, histórias como as de Gabriela são mais comuns do que parecem. “Elas vêm de mulheres que passaram pela transição com apoio da família, amigos e das pessoas companheiras, mas também de mulheres que passaram sem apoio nenhum e inclusive deixaram o companheiro para continuar a transicionar. E até de mulheres que desistiram por não conseguir passar por algo tão forte sozinhas”.

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Ela falou sobre como os grupos sobre transição capilar são ambientes seguros e fortalecedores para quem decide contar seus medos, dúvidas e angústias. “Muitas mulheres se ajudam, dão dicas, fazem do ambiente uma rede mesmo, é uma delícia”.

Quando o negro assume suas raízes

“Aluno com cabelo considerado ‘exótico’ é impedido de fazer rematrícula em colégio”, “Aluna da PUC Rio ouve comentários racistas de professora em curso de moda”, “Jornalista é impedida de tirar foto de passaporte por causa do cabelo black power”.

Estes casos de discriminação acabam justificando o medo de Gabriela e outras mulheres negras de enfrentar a transição capilar. Como se não bastasse ter que lidar com a cansativa busca pelo cacho perfeito, sem ver imagens como a sua representadas na mídia e na hora de buscar informações, a discriminação é mais um peso contra. Esse tipo de coisa não acontece com pessoas brancas.

Quanto mais difícil se ver representada em condições sociais saudáveis e igualitárias, mais difícil é acreditar que se pode pertencer socialmente sem ter que se adaptar a padrões.

A mídia e a hierarquização de textura

Katarina observa que, assim como já acontecia na web, as youtubers e blogueiras brancas ganharam mais destaque nas reportagens sobre transição capilar. “A mídia dá sim mais atenção às mulheres brancas, isso, infelizmente, é indiscutível. Percebe-se que a aceitação do cabelo crespo, tipo 4, é mínima e o preconceito é máximo. É o que chamamos de hierarquização de textura”, explica.

Assim como aconteceu com Gabriela, muitas mulheres acabam saindo do padrão de cabelo liso para encontrar um padrão de cabelo afro. Pode ser cacheado, mas não crespo. Pode ter volume, mas não muito volume. Pode usar o cabelo natural, desde que seja igual o da propaganda de shampoo. “O cabelo dos sonhos é controlado e definido”, lamenta Katarina.

Para ela, o destaque dado às blogueiras e youtubers não é acessível e nem engloba todos os tipos de cabelo. “A visibilidade não é da mulher negra e crespa, é da mulher branca e que tem o chamado ‘cacho perfeito'”.

Quanto mais difícil se ver representada em condições sociais saudáveis e igualitárias, mais difícil é acreditar que se pode pertencer socialmente sem ter que se adaptar a padrões. Aqui no Modefica, já falamos sobre a importância da representatividade na música, mas, vale lembrar que representatividade importa sempre.

*Foi utilizado um nome fictício para preservar a intimidade da entrevistada.

Imagem Capa: Time Modefica

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