Um Guia Honesto de Meditação Para Interessados e Iniciantes

Eu medito todas as manhãs.

E sim, eu reviro meus olhos para as pessoas que dizem coisas como essas, principalmente para mim mesma. Então vou expandir meu pensamento: Eu medito todas as manhãs e é uma luta diária.

O esquema é mais ou menos assim:

Eu acordo e meu eu interior mais iluminado pensa algo como: “Bom dia! Pule dessa cama e vá meditar como você se comprometeu a fazer. É uma maneira ótima de começar o dia!”. Mas meu eu menos iluminado contrapões: “É claro, essa é uma opção, mas você realmente vai fazer isso? E se você voltar a dormir? Que tal checar seu Instagram… Ou passar as próximas 4 horas respondendo emails e depois ficar estressada demais para meditar? Huh? Qualquer uma dessas opções parecem boas opções.”

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Apesar de que sim, voltar a dormir pareça uma ideia melhor, e eu esteja totalmente sem ânimo para meditação, eu respiro fundo, coloco roupas confortáveis e vou para o chão, acendo um incenso porque cerimônias são importantes para mim e começo a meditar.
 

Perguntaram a um grande guru qual era o segredo da clareza mental e, com uma risada, ele se virou e ergueu a tanga para mostrar o seu traseiro chato e caloso, conquistado depois de anos sentado e meditando.

 

Durante a maior parte da minha vida, a meditação me parecia bastante assustadora, algo que outras pessoas faziam. Você sabe, pessoas calmas e centradas com vidas bem planejadas. Eu não conseguia nem imaginar como começar a aquietar minha mente hiperativa e meditar.

Com o passar dos anos, eu tentei algumas aulas de meditação e, apesar de eu realmente ter tido algumas experiências profundas durante esse tempo, eu não conseguia entender como traduzir essa prática para o meu dia a dia ou como proceder sem que alguém me guiasse. Tipo, eu deveria apenas ficar sentada? Isso é tão chato. Além disso, eu sou muito ocupada, você sabe.

Apesar de todos os meus lamentos, meu retiro de meditação silenciosa de 10 dias realmente foi o catalisador que me lançou em uma prática de meditação séria, e enquanto esse é definitivamente um modo “extremo” de mergulhar na prática, há algumas outras formas de começar a meditar. Se você é novo em meditação, mas realmente quer tentar, aqui estão algumas das dicas que gostaria de ter recebido no começo da minha jornada.

 

NÃO EXISTE TAL COISA COMO UMA MANEIRA CONFORTÁVEL DE SE SENTAR

A maioria das meditações guiadas começará com algo como: “Comece encontrando uma posição confortável …” e quero ser a primeira pessoa a lhe dizer que estão mentindo para você. A menos que você seja extremamente flexível, um profissional de meditação avançado ou alguém que não tenha crescido sentado em carros e passando o dia em cadeiras, provavelmente você não encontrará uma maneira confortável de se sentar quando começar a meditar. Nossos corpos ocidentais modernos geralmente não estão acostumados a sentar no chão, por isso é preciso tempo, prática e paciência antes de encontrar algo que se pareça com conforto. Mas não deixe que isso te desencoraje.

Li recentemente The Posture of Meditation (sem tradução para o português) e percebi que a base para uma prática de meditação bem-sucedida é realmente encontrar a melhor maneira de se sentar (e “melhor” não necessariamente significa lótus completo, só tem que significar melhor para seu corpo). Então, no começo, permita-se encontrar uma maneira apenas moderadamente tolerável de se sentar. Você pode tentar algumas dessas ferramentas para ajudar:

 

Almofada de meditação.

A maioria de nós, acostumados com mesas e cadeiras no estilo ocidental, tem quadris relativamente apertados, o que custuma tornar a tarefa de ficar sentado no chão uma tarefa desconfortável. Uma almofada não só é mais macia que o chão, como também ajuda a posicionar os quadris ligeiramente acima dos joelhos, aumentado a pressão nessa área e expandindo levemente os quadris. Isso tornará a meditação mais confortável (graças à gravidade).

Há diversos tipos de almofadas para prática meditativa, assim como há também uma variedade de maneiras de usá-las. Eu estou longe de ser uma especialista no assunto, no entanto, eu já tentei algumas coisas que posso compartilhar por aqui.

A primeira almofada de meditação que comprei era estofada com algodão. Eu a encontrei no Etsy, é fofa e recebe muitos elogios quando eu estou fazendo meditações em lugares públicos. No entanto, descobri que essa forma e esse estofamento em particular não são muito confortáveis para o meu corpo, a menos que eu a vire de lado e a use na postura seiza (postura de joelhos).

Eventualmente, fiz um upgrade para uma almofada zafu cheia de cascas de trigo sarraceno. Pode ser usada na posição tradicional ou seiza também. Pessoalmente, acho que os cascos de trigo sarraceno oferecem o tipo certo de apoio para o meu corpo, embora o seu corpo possa ser diferente e tudo bem (é por isso que existem almofadas diferentes – para corpos diferentes!).

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Eu não tenho tornozelos ou joelhos muito sensíveis, no entanto, se você tiver, você pode colocar um cobertor, uma toalha ou um tapete embaixo deles para tornar o contato com o chão mais confortável. Eu realmente não acredito que o sofrimento é um caminho necessário para a clareza da mente, então use quantos cobertores e travesseiros e ferramentas você precisar para uma prática de meditação bem-sucedida.

 

Banco de meditação.

Eu descobri os bancos de meditação lá pro último dia do meu retiro de meditação silenciosa. Eu poderia ter me poupado de tantas horas de sofrimento se eu soubesse que eles eram uma opção, mas acho que o sofrimento fazia parte do retiro, então tudo deu certo no final… talvez?

Eles são especialmente úteis para pessoas como eu que têm quadris estreitos e que não gostam de sentar de pernas cruzadas, mas se você tiver joelhos sensíveis, tente colocar um cobertor, uma toalha ou um tapete por baixo para conforto extra.

Bloco de yoga.

Eu uso blocos de yoga para a minha prática de yoga em casa, no entanto, eles também funcionam muito bem como um banco para manter seus quadris elevados. Esta não é minha ferramente preferida para o uso diário, mas em um piscar de olhos, funciona muito bem como um assento de meditação.

 

Cobertor, toalha ou cadeira.

Embora definitivamente existam ferramentas que você pode adquirir para ajudar com sua prática de meditação, você realmente não precisa comprar nada.

Você pode tentar usar um cobertor ou toalha dobrado para elevar seus quadris e te propiciar um assento mais macio (você pode até mesmo enrolar um cobertor para tentar criar seu próprio apoio seiza), e você também pode usar uma cadeira (não, isso não impedirá você de alcançar a clareza mental). Se você tiver problemas nas costas, no quadril ou no joelho, começar com uma cadeira pode ser a melhor solução temporária ou permanente.

 

Empacote-se.

Durante a meditação, nós respiramos devagar e não nos movemos, então é muito fácil ficar com frio. Eu sempre me aqueço antes de meditar para ter certeza de que não terei uma desculpa para parar a prática no meio. Eu normalmente coloco um poncho, cachecol ou até mesmo um cobertor (às vezes todos os três). Eu também adoro usar minhas meias  com os dizeres “apenas respire” como um lembrete de aquecimento para… você sabe, apenas respirar.

Falando sobre o que vestir: eu recomendo fortemente a escolha de roupas soltas e macias. Eu prefiro usar calças soltas e tops soltos em tecidos super macios. À medida que sua prática progride, as sensações físicas podem aumentar e certos tecidos se tornarão muito mais desconfortáveis – escolha entre as diversas opções de tecidos e roupas confortáveis disponíveis por ai.

Uma das maneiras pelas quais nossa mente tenta nos distrair da investigação profunda da meditação é fazer com que nos sintamos desconfortáveis, portanto, lembre-se de que existe uma linha tênue entre o desconforto real e o desconforto mental que sua mente criará para te testar. Você pode até brincar com o o desconforto e ver quanto tempo aguenta com ele, mesmo que seja por um curto período de tempo (eu faço isso muitas vezes com o meu pé esquerdo, que insiste em adormecer).

Com o tempo e com a prática, seu corpo se adaptará à postura e à prática da meditação, assim como à sua mente. Eu sei disso porque vi isso acontecendo comigo mesma.

 

SUA MENTE IRÁ DIVAGAR E TUDO BEM

Eu sempre tive essa ideia de que o objetivo da meditação é deixar sua mente calada. Isso parecia totalmente impossível e me fez não querer nem tentar. Mas o que eu entendi é que meditação é menos sobre silenciar sua mente e mais sobre como mudar seu relacionamento com sua mente. Sua mente vai divagar. Provavelmente muito. Mas com o tempo, você aprende a trazê-la de volta muito mais rápido. Também aprende a colocar menos peso nas fantasias e medos e ideias criadas pela sua mente (a menos que sejam coisas boas, daí deixe-se levar). E ser mais um observador passivo das muitas coisas que sua mente está pensando e menos um participante ativo.

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Durante uma típica meditação matinal, minha mente percorrerá minha lista de tarefas, gastará uma quantidade exagerada de tempo planejando o café da manhã, se preocupando com as contas, com algo que eu disse ou qualquer coisa que meu ex-namorado possa estar fazendo naquele exato momento. Ela também pensará sobre todas as incríveis razões pelas quais eu deveria interromper minha meditação (Eu Menos Iluminado: “Quero dizer, eu sei que acabamos de começar, mas acho que foi o seu celular vibrando! Não seria divertido ver fotos de elefantes agora?” “Também o seu pé esquerdo está caindo no sono, é claramente um sinal do Universo para você parar.”).

A meditação não fez desaparecer nenhum desses pensamentos (e meu pé esquerdo continua a adormecer), no entanto, eu me tornei menos reativa a eles. Mais e mais, eu apenas os noto e talvez sacudo meu pé, e eventualmente os pensamentos e o formigamento desaparecem, tão impermanente quanto todo o resto do mundo.

 

É OK SEU CORPO FAZER MOVIMENTOS INVOLUNTÁRIOS

A ideia de permanecer parada é muito desafiadora para mim. Mas a inquietação é um sinal físico de falta de atenção (literalmente estamos nos movendo sem pensar) e, a fim de obter melhor controle sobre nossas mentes, temos que trabalhar nossa inquietação. Em Vipassana (o tipo de meditação que aprendi no retiro de meditação silenciosa), o objetivo é treinar sua mente e corpo para permanecer absolutamente imóvel por longos períodos de tempo. É preciso muita prática e sofrimento, mas é possível (novamente, eu sei disso porque passei por isso).

Mas isso não precisa ser seu objetivo. Se você precisa se mexer, vá em frente e se mexa! Se o seu pé esquerdo adormecer, vá em frente e mude-o de lugar. Com o tempo, você começará a se tornar mais consciente de seus movimentos, bem como de seu desejo de se mexer, e poderá escolher quando fazê-los e quando não – conscientemente.

 

YOGA É UMA PRÁTICA DA MEDITAÇÃO

Eu descobri recentemente algo que meio que me surpreendeu: todo o objetivo do yoga é preparar o corpo para meditar. Handstands e backbends malucos e tudo isso é bom, mas não foi para isso que o yoga foi criada. A yoga evoluiu como uma forma de fortalecer as costas e abrir os quadris para ajudar os que buscam a clareza de mente a se sentarem e meditarem mais confortavelmente por longos períodos de tempo. De fato, os textos originais de yoga mencionam apenas duas posturas físicas de yoga (asanas) – o restante é todo dedicado a práticas para a mente.

Então, se você é praticante de yoga, você está basicamente a meio caminho de meditar. E se você estiver com problemas para meditar, considere trabalhar o corpo para a prática meditativa por meio da yoga.

 

NÃO EXISTE CAMINHO ÚNICO PARA CLAREZA MENTAL

Meditação é como namorar ou talvez comprar sapatos: há muitas opções por aí, e nem todas serão boas para você.

De acordo com o The Posture of Meditation , Buda mencionou cerca de 40 diferentes técnicas de meditação, e acredita-se que existam 108 práticas diferentes de meditação que são estabelecidas como caminhos genuínos para os estágios mais elevados da auto-realização. Então, explore-os! E saiba que você pode mudar sua prática de meditação sempre que quiser.

Recentemente, deixei de praticar a técnica de Vipassana (que é muito focada no aterramento do corpo) para, ao invés disso, focar em um mantra diário (inspirado por Gandhi e sua meditação vitalícia de Rama Rama Rama). É uma experiência muito diferente e obtive resultados interessantes de ambos. Alguns dias eu opto ainda por fazer uma meditação guiada (minha favorita é de Jessica Snow).

Meditação não é sobre um caminho único para todos ou até mesmo sobre um único estilo para todos os dias. Se alguém te dizer ao contrário, fique esperta e desconfie.

“Se todas as crianças de 8 anos de idade aprenderem a meditação, nós eliminaremos a violência do mundo dentro de uma geração.”

Dalai Lama

Quer você tenha alcançado ou não a clareza mental (ou aquele invejável calo no traseiro), eu realmente espero que você se permita explorar as maravilhas da meditação brincando com as técnicas e ferramentas certas para você.

Namaste

Texto por Sica Schmitz para Vilda Magazine. Sica é ativista, estilista, figurinista e empreendedora. É fundadora da boutique de moda ética Bead And Reel, se dedica a ajudar mulheres se amarem por meio do que vestem e amar o mundo por meio do que compram. Ela vive em Los Angeles e passa seu (raro) tempo livre em busca de sobremesas veganas, se voluntariando em casas que lhe são caras e tentando limitar sua adoção de gatos.

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