Um Relato Sobre A América do Sul, Seus Caminhos E Vertigens

Em maio de 2014, saí de viagem pela América do Sul, para fazer aquele roteiro bem conhecido pelos viajantes mais ousados e pelos turistas mais tradicionais também. Apesar dos destinos escolhidos serem óbvios e com muito material disponível com dicas e sugestões sobre as cidades, a ideia era confirmar, na prática, a emoção de uma aventura latina.

Copacabana, Arequipa, Vale del Colca, San Pedro do Atacama e finalmente o Deserto de Sal na Bolívia foram os lugares famosos escolhidos. Na verdade, a grande expectativa da viagem era Salar de Uyuni, mas fui totalmente surpreendida por outras paisagens antes de chegar lá.

Não existe época em que esses lugares recebam poucos visitantes, o fluxo de pessoas é intenso o ano todo. Existem, claro, as épocas mais cheias, como nas férias escolares, mas cada estação é propícia para determinada atividade ou pelo encantamento da mudança na paisagem.

O sentimento predominante desde o planejamento dessa aventura era de um inevitável perrengue e uma forte dose de emoção e, por isso, eu acreditava ser essencial realizá-la até os 30 anos, antes de ter filhos, antes de ficar cada vez mais indisposta a correr esse tipo de “perigo”.

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Logo no começo, em Copacabana, na Bolívia, me deparei com todos os tipos de pessoas fazendo trajetos semelhantes, ou o inverso do que outro estava fazendo, trocando informações e histórias de cada lugar. Mulheres com crianças, idosos, famílias grandes e pessoas sozinhas. Assim, a minha teoria sobre aproveitar antes de ficar velha para realizar certas coisas caiu por terra no primeiro momento.

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Copacabana, Bolívia

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Em La Paz à caminho de Copacabana, Bolívia

De qualquer maneira, é importante levar o espírito aventureiro na mala e o coração aberto para entender a beleza e a carência de cada lugar. A comunidade de Copacabana é bem precária, mesmo os melhores hotéis não disponibilizam água potável e nos aconselharam comprar água no mercado, inclusive para escovar os dentes. Quase não existe boas opções de restaurantes e pizza acaba sendo uma das únicas saídas na hora de comer.

Já em Arequipa, no Peru, é possível se esbaldar no quesito alimentação. A comida peruana vem ganhando cada vez mais destaque, principalmente pela grande variedade de alimentos (o Peru possui cerca de 3,5 mil variedades de batatas). Além disso, a cidade é pequena suficiente para ser acolhedora e jovem o bastante para ser atraente. Arequipa é rodeada por vulcões, o mais famoso deles, El Misti, está a 5.825 metros de altura. De vários pontos da cidade é possível ter uma visão próxima dele, gerando uma sensação mista de vislumbre e medo.

A cidade é conhecida também pelo nome de Ciudad Blanca pelas várias edificações feitas a base da pedra sillar, material proveniente da larva derramada por um dos vulcões ao redor da cidade. Possui muitos mosteiros e mirantes, mas o mais legal é dar aquela pernada pelo centro, ao redor da Plaza de las Amas e se perder pelas ruas de paralelepípedos.

Depois, ainda no Peru, foi a vez de parar em Vale del Colca, onde está o segundo cânion mais profundo do mundo. Foi uma mudança de paisagem, saindo de um contexto urbano para outro completamente remoto e de certa forma bucólico. Na estrada, completamente tortuosa e estreita, quase nenhuma presença humana ou casas. A guia nos apresentava a diferença entre a alpaca, a lhama, a vicunha e o guanaco enquanto cruzávamos por alguns carros em alta velocidade se considerarmos as características da estrada – sem acostamento e muitas vezes à beira de penhascos. Enfim, muita emoção.

Logo ao chegarmos ao Colca alguns povoados começaram a aparecer. Na verdade, muitos deles. Quando você pensa não haver mais ninguém vivendo naquele lugar, que a Terra vai acabar depois daquele monte de montanhas atravessadas, aparece mais um micro-povoado. E eles vivem ali, em um lugar inóspito, comendo os frutos de suas plantações em uma terra propícia para poucas coisas, mas responsável por fornecer o suficiente a seus habitantes.

A diversidade da flora e de plantas medicinais são destaque no lugar. Tivemos a sorte de ter uma guia capaz de identificar cada moitinha e contar como os nativos as aproveitavam. Para alguns, o ponto auge do Vale del Colca é chegar à Cruz del Condor, onde é possível ver e fotografar bem de perto o côndor, ave de grande porte típica de lá. Porém, por ser um ponto muito famoso, fica extremamente cheio e é uma disputa chegar à beira do mirante para conseguir tirar uma foto. Nessa hora, é melhor ficar afastado e contemplar o vôo dos pássaros de longe.

Para a segunda parte da viagem não havia nem hospedagem nem translado garantidos, só os destinos estavam planejados. Através de conversas com pessoas e informações no balcão do hotel, foi possível descobrir a melhor maneira de cruzar a fronteira para o Chile, com destino a San Pedro De Atacama, por terra: um trajeto de 24 horas, feito em dois ônibus distintos.

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O mercado de Arequipa, Peru

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Centro de Arequipa, Peru

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Chegando em San Pedro, fomos de hotel em hotel conhecer pessoalmente as acomodações. Me espantei com a má qualidade dos serviços, me deparei com a maioria das acomodações em péssimas condições, com lençois sujos, banheiros mal cheirosos e raramente dispunham de banho quente. Dei graças a Deus de não ter reservado nada pela Internet, onde as fotos enganam muito.

Depois de caminhar bastante, encontramos um hotel ok, bem simples, porém limpo, lençol trocado e um banheiro novo com chuveiro quente. Como o volume de visitantes é alto durante todo o ano, os hotéis cobram um preço elevado e geralmente não oferecem um bom serviço, com excessão das opções de luxo, como spas, cabanas e resorts, destinados à uma pequena parcela dos turistas mais abastados.

Confesso que não esperava muito do Atacama, pensei que fosse só mais um deserto com sua paisagem árida e muitos turistas afoitos pelo frisson de estar lá. Me surpreendi. San Pedro está cheia de agências pelo centrinho oferencendo praticamente os mesmos serviços com pequenas diferença de preços. De lá, é possível fazer vários tipos de passeios, como para Vale da Lua, Vale da Morte, Geiser del Tatio, Salar do Atacama, Laguna Céjar, e outros. Também tem boas, porém caras, opções para comer muito bem.

Por lá, o clima é de vilarejo de praia em que predominam jovens, muitos estão na estrada há um bom tempo, outros estão apenas no início de uma grande jornada. O Atacama proporciona não só o encanto do deserto, mas diferentes paisagens em uma grande área responsável por cobrir grande parte do país. É extremamente arenoso, e apresenta estruturas rochosas bem interessantes devido a atividade vulcânica da região.

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Vulcão Licancabour no Deserto do Atacama, Chile

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Vale da Lua no Deserto do Atacama, Chile

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Deserto de Sal (Salar de Uyuni), Bolivia

No Vale da Morte, por exemplo, as larvas formaram pequenas cavernas de pedras sal em forma de um labirinto. A variedade de cores de um pôr do sol no Vale da Lua é indescritível e o efeito da altura vivenciada desde a chegada na Bolívia nos leva à uma espécie de topor. Não é a toa o Atacama ser um destino badalado e tumultuado durante o ano todo. É realmente um lugar incrível e que todos deveriam ter oportunidade de ver com os os próprios olhos.

Depois de 5 dias no Atacama, conhecendo esses lugares, paralelamente fui pesquisando agências responsáveis por fazer excursões ao Salar. E, mais uma vez, foi melhor ter tomado a decisão por lá, conversar pessoalmente não só com o pessoal das agências, como também com outras pessoas que estavam indo ou tinham chegado de lá. Informações como a condição do Jeep, a dirigibilidade do motorista, as refeições que eles ofereciam, etc. Tudo isso são fatores para serem levados em conta na decisão de escolha da agência. Existe também a opção de excursões personalizadas, com preços diferenciados, para ir entre família e amigos, para quem busca algo mais confortável.

A primeira noite foi a mais difícil e isso parece ser normal. Todas as agências indicam a mesma acomodação, onde não tem banho quente. A altitude incomoda muito, ninguém consegue respirar, é muito frio e, tendo você dinheiro ou não, passará por isso. A primeira noite no Deserto de Sal é um teste de resistência. O dia seguinte é difícil por causa da noite mal dormida e da altitude, mas também um exercício de contemplação e introspecção.

A hostilidade do lugar diminui conforme você caminha pelo deserto e suas superfícies completamente exóticas, de relevo acidentado e cores inusitadas. Lagoa vermelha, cheiro forte, flamingos pinks, somam-se à sonolência acumulada da noite passada. A desorganização mental transforma toda essa experiência num tipo de vertigem, em que fica difícil distinguir a realidade. É uma confusão esteticamente bonita, proveniente do mesmo contraste que aquela paisagem ocre faz com a límpida atmosfera do céu azul. Por mais que exista centenas de descrições e relatos sobre essa viagem, nada será comparado ao fato de vivenciá-la.

Fotos: Cinthia Santana

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