Por Que o Movimento Contra o Assédio #MeToo Está Sob Ataque

A essa altura é bem provável que você esteja por dentro das revelações feitas por Uma Thurman ao jornal americano The New York Times no início do mês. Se não está, aqui vai um breve resumo: além de vir a público como mais uma vítima de assédio do produtor Harvey Weinstein, a atriz contou ter sofrido um acidente durante as filmagens de Kill Bill, longa-metragem produzido pela empresa de Weinstein e dirigido por Quentin Tarantino. De acordo com Thurman, o cineasta insistiu que ela dirigisse, em cena, um carro que não estava em bom estado. A batida causou danos permanentes ao pescoço e aos joelhos da artista, que levou 15 anos para conseguir ter acesso às imagens do acidente (liberadas agora e publicadas pelo Times).

Entre os muitos textos publicados sobre o assunto está uma entrevista do próprio Tarantino ao site Deadline, a primeira na qual comentou as declarações de Thurman, com quem trabalhou em três filmes. Mais do que as respostas e explicações do diretor, o que realmente chamou minha atenção foi a introdução escrita pelo repórter Mike Fleming Jr. – mais especificamente, este trecho que inicia o segundo parágrafo:

“Ofereci a Tarantino a oportunidade de esclarecer [o caso] porque, atualmente, reportagens são escritas e reproduzidas ao redor do globo, muitas vezes deturpadas para que se enquadrem em narrativas convenientes a este momento de #MeToo.”

“Esclarecer”. “Deturpadas”. “Convenientes”. “Momento”. Com palavras certeiras, e em poucas linhas, o repórter deixou clara sua desconfiança (para dizer o mínimo) em relação ao movimento contra o assédio que tem dominado Hollywood desde setembro. Uma desconfiança que soa familiar: outros jornalistas, analistas e até artistas (o diretor Michael Haneke foi o mais recente) têm se dedicado a debater o que chamam de “excessos” e “perigos” do #MeToo (“caça às bruxas” é outro termo bastante usado). Isso sem falar na problemática carta assinada por mulheres francesas na qual alertam para ataques à liberdade sexual e defendem o direito dos homens de “importunar” mulheres.

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Estes são exemplos públicos de uma onda de críticas que também se manifesta na esfera pessoal. Desde o início da avalanche de denúncias, frequentemente me vejo assumindo o papel de defensora do #MeToo, seja em jantares entre amigos, conversas com familiares ou mesmo interações breves com quem conheço muito pouco. Como Haneke, as mulheres francesas e o repórter que entrevistou Tarantino, muitas outras pessoas estão temerosas em relação ao possível efeito nocivo do movimento contra assédio. Pessoas que manifestam seu apoio às mulheres por trás das acusações, sem deixar de acrescentar um “mas”.

Por que o movimento contra o assédio desperta tamanho receio? Por que um debate que está apenas começando já é visto como algo que foi “longe demais”?

Um dos argumentos mais frequentemente invocados pelos críticos do #MeToo é o modo como denúncias não comprovadas podem afetar e até destruir carreiras. Para eles, o princípio de “inocente até que se prove o contrário” está ameaçado e a investigação judicial foi substituída pelo tribunal da opinião pública, que se dá, em grande medida, na internet.

Este argumento ignora duas questões essenciais: primeiro, a dificuldade de se apresentar provas concretas ou testemunhas em casos de assédio e estupro, muitos deles ocorridos há décadas; em segundo lugar, e talvez principalmente, o quanto as leis e o sistema judicial de diferentes países falham em proteger, defender ou simplesmente ouvir as vítimas.

Em artigo publicado pelo The New York Times, a professora de Direito Catharine A. MacKinnon contou suas conclusões após 40 anos de pesquisa e ativismo no tema:

“Muitas sobreviventes julgaram, de forma realista, ser inútil reportar [casos de assédio e abuso sexual]. As queixas eram rotineiramente deixadas de lado por meio de alguma versão de ‘ela não tinha credibilidade’ ou ‘ela queria’. Acompanhei casos de abuso sexual no campus durante décadas. Tipicamente, era preciso que três a quatro mulheres testemunhassem que tinham sido violadas pelo mesmo homem, da mesma forma, para que sua negação começasse a sofrer um arranhão. Isso significa dizer que, no que diz respeito à credibilidade, a mulher valia um quarto de pessoa.

 E mesmo quando se acreditava, nada do que ele fez a ela importava tanto quanto o que seria feito com ele caso as ações dele contra ela fossem levadas a sério. O valor dele era maior do que o não-valor sexualizado dela. A carreira, a reputação, a serenidade emocional e os bens dele contavam. Os dela, não. De certa forma, era ainda pior quando acreditavam [mas agiam como se] o que ele fez não importava. Porque isso significava que ela não importava.”

 

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A atriz Uma Thurman publicou em seu Instagram a filmagem do acidente durante as gravações de Kill Bill. “As circunstâncias deste evento foram negligentes até o ponto de criminalidade”, escreveu a atriz no seu perfil. “Acobertar o fato foi imperdoável. Por isso, mantenho Lawrence Bender, E. Bennett Walsh, e o famoso Harvey Weinstein, como únicos responsáveis. Eles mentiram, destruíram evidências e continuaram a mentir sobre o dano permanente que causaram e depois optaram por suprimir.”


 

MacKinnon argumenta que o #MeToo deu às mulheres algo que a lei, em grande medida, não conseguiu dar: “Esta mobilização em massa contra o abuso sexual”, escreve, “que acontece por meio de uma onda sem precedentes de relatos na mídia social e convencional, está causando a erosão das duas maiores barreiras na lei e na vida para acabar com o assédio sexual: a descrença e a desumanização trivial das vítimas.”

Ler os relatos das mulheres – atrizes ou anônimas que se uniram à hashtag – têm sido uma experiência forte e difícil, mas também transformadora. Talvez o melhor exemplo disso venha de fora de Hollywood: o julgamento de Larry Nassar, o médico da seleção americana de ginástica, que assediou centenas de atletas. A condenação era certa, mas a juíza encarregada do caso abriu espaço para que cerca de 150 vítimas dessem seu depoimento, reconhecendo a importância de oferecer às vítimas a chance de contar sua história. E, ao mundo, a oportunidade de escutá-las.

É injusto equiparar o apelo para que as mulheres sejam ouvidas – um dos pilares do #MeToo – à ideia de que aos acusados está vetada a possibilidade de se defender. O respeito aos direitos dos cidadãos e a apuração jornalística cuidadosa ganham ainda mais importância em meio a um debate delicado e complexo, que provoca perguntas difíceis e envolve noções socialmente arraigadas que só agora estão começando a ser discutidas.

Neste contexto, é provável, talvez até inevitável, que ações e declarações equivocadas, infelizes ou injustas aconteçam. Mas a possibilidade de erros pontuais não deve desencorajar o movimento como um todo ou fazer com que desperdicemos esta oportunidade sem precedentes de colocar o assédio realmente em pauta, e não relegá-lo a conversas a portas fechadas ou piadas sobre testes de sofá.

Como o repórter do Deadline, devemos nos preocupar com narrativas “deturpadas” no “momento #MeToo” – mas devemos nos preocupar, também, em garantir que o #MeToo não seja apenas um momento. Devemos nos preocupar em dar a Quentin Tarantino a oportunidade e a plataforma de se explicar – mas devemos nos preocupar, também, em dar a Uma Thurman a oportunidade e a plataforma para acusar. A inflamada reação aos possíveis “excessos” do movimento contra o assédio apenas reforçam sua seriedade, relevância e urgência.

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